Crônica

Bola de cristal embaçada

Por: Ivan Angelo

Ilustração crônica Ivan Angelo - Ed. 2288
(Foto: Veja São Paulo)

Costuma-se dizer que o futuro não nos pertence. Acreditam uns que construímos o nosso futuro dentro de nós, e a parte visível é o seu desdobrar-se, aos poucos. Culturas há que dão o futuro como determinado, e o chamam de destino — sabendo-se que destino é o para onde se vai. Alguns pensadores veem o futuro humano como uma construção, elaborada ao acaso do conhecimento, sem projeto, a ponto de serem duvidosas todas as previsões e de um deles poder dizer: “O futuro não é mais o que era” (Paul Valéry, 1871-1945). Somente astrônomos conseguem prever eventos que acontecerão dentro de 100, 200, 1.000 anos, com exatidão de segundos.

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Por isso, são espantosos os horóscopos, oráculos, buenas-dichas, búzios e que tais, assim como inútil na prática é rogar praga e amaldiçoar. Jogos são outra coisa, probabilidades matemáticas. Dizer se tal coisa vai ou não acontecer, se Fulano vai ou não ser feliz, se aquele casamento vai dar certo ou não, se uma empresa vai para a frente, tem ares de charlatanismo ou de arrogância.

A história está cheia de exemplos.

O marechal Hindenburg, presidente da Alemanha em 1931, disse que o máximo a que “aquele sujeito esquisito”, Adolf Hitler, poderia aspirar seria a chefia do Departamento de Correios e Telégrafos. Dois anos depois, Hitler se tornaria chanceler e, no ano seguinte, ditador.

É famosa a justificativa de um chefão da Metro para dispensar Fred Astaire: “Dança um pouco, mas não sabe representar nem cantar e é careca”. Ele se tornou o maior de todos os astros dos musicais do cinema.

Coisa parecida aconteceu com Norma Jean Baker, garota que a diretora de uma agência de atrizes e modelos dispensou como sem futuro, em 1944, aconselhando-a a se casar ou fazer um curso de secretária. Oito anos depois, ela era a luminosa estrela Marilyn Monroe.

Todos já ouviram falar de “...E o Vento Levou”, um dos maiores sucessos do cinema. Convidado para o papel principal, o astro Gary Cooper recusou o convite e disse que aquele seria o maior fracasso da história de Hollywood. E ironizou: “Ainda bem que será Clark Gable, e não Gary Cooper, quem vai entrar pelo cano”. Pois foi esse papel que tornou Gable o rei de Hollywood. Até gênios da pintura se enganaram sobre o futuro de outro pintor que se revelaria genial. “Esse rapaz não tem nenhum talento. Diga a ele para desistir de pintar”, disse Édouard Manet a Claude Monet sobre Pierre-Auguste Renoir.

Em 1962, a gravadora Decca dispensou os Beatles: “Não gostamos do som de vocês. Além do mais, bandas de guitarristas não têm futuro”. No mesmo ano, os Beatles estouraram.

Na área industrial, algumas previsões se revelaram enormes equívocos. Auguste Lumière, um dos dois irmãos que inventaram o cinema, então chamado cinematógrafo, em 1895, não achava aquilo grande coisa: “Minha invenção não tem futuro comercial”. Há cerca de 100 anos o cinema é uma das mais poderosas máquinas mundiais de fazer dinheiro.

Em 1977, ano em que a Apple lançou o primeiro microcomputador pessoal, um senhor chamado Ken Olson, ídolo de Bill Gates na adolescência, presidente da Digital Equipment Corporation (DEC), a segunda maior fabricante de grandes computadores, declarou em uma convenção da World Future Society, algo como Sociedade do Mundo Futuro: “Não há razão para uma pessoa querer ter um computador em casa”.

De onde menos se espera pode vir um bom palpite sobre o futuro. Quando o meu avô ouviu música de vitrola pela primeira vez, em Minas, na insignificante Venda Nova dos anos de 1920, comentou: “Esse negócio vai acabar com a criação de passarinhos”.

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Fonte: VEJA SÃO PAULO