Imóveis

Bairros são criados para valorizar negócios de construtoras

Nova Pacaembu e Itaim Nobre são exemplos de novos lançamentos

Por: Nathalia Zaccaro

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A prática de redefinir áreas da metrópole já foi utilizada em vários locais (Foto: Divulgação)

Depois de viver seis anos na Europa, a chef Talita Cubero voltou a morar na região onde cresceu, a Barra Funda, em setembro. “A área mudou bastante e o mais estranho são os anúncios chamando-a de nomes dos quais nunca ouvi falar”, conta ela, que ocupa uma casa em uma pacata vila na Rua Tagipuru.

Um dos panfletos que podem ter despertado sua curiosidade é o do condomínio Nova Pacaembu. Segundo seu site oficial, ele está situado em um hipotético bairro homônimo, suposta sede do Memorial da América Latina. A página inclui ainda uma retrospectiva histórica que explica como o local era predominantemente industrial, mas se tornou um abrigo da classe média alta.

Apesar da descrição caprichada, é impossível não notar a realidade: o Nova Pacaembu é um termo de fantasia criado para glamorizar a boa e velha Barra Funda. A Esser, construtora responsável pela obra, garante não ter a intenção de rebatizá-la. O objetivo seria apenas agregar status ao empreendimento entregue no início do ano.

Nick Dagan
Nick Dagan, da construtora Esser: Nova Pacaembu em plena Barra Funda (Foto: Fernando Moraes)

“Foi uma sugestão de nossa agência de publicidade e, como estamos muito próximos à Avenida Pacaembu, achei interessante”, explica Nick Dagan, diretor de incorporações da empresa. Nova Pacaembu é somente uma das designações atribuídas recentemente ao bairro da Zona Oeste, chamado também de Baixo Perdizes e Nova Pompeia. “O mercado vai sempre em busca de espaços amplos e preços atraentes, e, por esses motivos, a Barra Funda é a bola da vez das construtoras”, analisa Celso Petrucci, economista chefe do Secovi-SP.

Entre seus lançamentos, o de maior destaque é da Tecnisa: um conjunto com cerca de trinta imóveis que somam um potencial de venda de mais de 4 bilhões de reais. Na hora de nomear o investimento, instalado em plena Avenida Marquês de São Vicente, a opção foi por Jardim das Perdizes. “Não quisemos ligar nosso projeto à Barra Funda para deixar claro que teremos um padrão bastante diferente do resto”, acredita Fabio Villas Bôas, diretor executivo e técnico da empresa.

Barra Funda
A chef Talita Cubero, moradora da Barra Funda: “Chamam meu bairro de nomes dos quais nunca ouvi falar” (Foto: Fernando Moraes)

A prática de redefinir áreas da metrópole já foi utilizada anteriormente. “Vários lugares que conhecemos hoje são fruto dessa estratégia, a exemplo de Chácara Klabin, Portal do Morumbi e Alto da Boa Vista”, diz Luiz Paulo Pompéia, diretor da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp). Na Zona Leste, surgiu entre o fim da década de 80 e o início da de 90 o Jardim Anália Franco, o bolsão sofisticado do Tatuapé. Agora, apareceu mais uma subdivisão: o Parque Anália Franco, vendido como ainda mais exclusivo, com preço médio do metro quadrado de 10 000 reais, quase o dobro do valor registrado no restante da vizinhança.

Jardim das Perdizes
Projeção do Jardim das Perdizes, da Tecnisa: nome emprestado da região vizinha (Foto: Divulgação)

Na Zona Sul, a Chácara Santo Antônio começa aos poucos a ser reconhecida como Nova Berrini, licença adotada por alguns empreendimentos em referência à proximidade da Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini. O trecho mais visado fica nas redondezas da Avenida Chucri Zaidan, e é por lá que a Odebrecht vai construir seu Parque da Cidade, em um terreno com valor estimado em 300 milhões de reais. A obra inclui dez torres, entre prédios residenciais e comerciais, e em nenhum material publicitário sua localização é identificada com o nome original do bairro.

“Quando uma região vive uma transformação profunda, é natural que o mercado imobiliário procure não fazer referência direta ao cenário antigo”, defende Paulo Aridan, diretor regional da Odebrecht Realizações Imobiliárias.“ Mas isso só será eficaz se de fato houver uma mudança estrutural.” Além da Nova Berrini, é possível encontrar ofertas de imóveis em um tal de Itaim Nobre. O quadrilátero eleito como o mais luxuoso do Itaim fica entre as avenidas Brigadeiro Faria Lima, Nações Unidas, Cidade Jardim e Presidente Juscelino Kubitschek e tem um dos metros quadrados mais caros da cidade, em torno dos 18 000 reais.

 

REINO DA FANTASIA

Algumas regiões inventadas pelas imobiliárias e construtoras

 

Nome fictÍcio: Itaim Nobre

Onde fica: No quadrilátero formado pelas avenidas Brigadeiro Faria Lima, Nações Unidas, Cidade Jardim e Presidente Juscelino Kubitschek, no Itaim

Preço do metro quadrado: A área nobre de um dos bairros mais caros registra 18 000 reais, contra 14 000 dos outros trechos

 

Nome fictÍcio: Nova Berrini

Onde fica: Na Zona Sul, tem como epicentro a Avenida Chucri Zaidan, até a Rua Engenheiro Mesquita Sampaio, parte da Chácara Santo Antônio

Preço do metro quadrado: No perímetro mais valorizado, gira em torno de 10 000 reais; a média da região fica em 8 000 reais

 

Nome fictÍcio: Nova Pacaembu

Onde fica: No entorno da Avenida Marquês de SãoVicente, é na realidade um fragmento da Barra Funda

Preço do metro quadrado: Os valores na região estão inflacionados e triplicaram nos últimos cinco anos, passando de 7 500 reais

 

Nome fictÍcio: Parque Aclimação

Onde fica: Nas ruas vizinhas ao Parqueda Aclimação, na Zona Sul

Preço do metro quadrado: Em média, as cifras desse trecho são de 11 000 reais, quase 20% superiores às do resto do bairro

 

Nome fictÍcio: Parque Anália Franco

Onde fica: No entorno do Parque Esportivo dos Trabalhadores, no Tatuapé

Preço do metro quadrado: Os preços chegam a 10 000 reais, bem mais altos que os 6 000 registrados em média no bairro da Zona Leste

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO