Cidade

Ação de moradores ajuda a revitalizar Avenida Cruzeiro do Sul

Reforma em trecho degradado saiu do papel graças a uma iniciativa do Movimento Santana Viva

Por: Ricardo Rossetto - Atualizado em

Jorge Ifraim - Santana
Jorge Ifraim, do Movimento Santana Viva: pedido para a construção de uma ciclovia e pista de caminhada (Foto: Lucas Lima)

Importante artéria viária da Zona Norte, a Avenida Cruzeiro do Sul, em Santana, transformou-se numa versão tímida do Minhocão após anos de descaso. Moradores de rua e usuários de drogas ocupam o vão do viaduto construído para a passagem da Linha 1 – Azul do Metrô e convivem com lixo, entulhos variados e mato alto. Para piorar a situação, a prefeitura instalou, sem aviso prévio, grades no canteiro central, o que impede a circulação de pedestres. Pois uma obra prestes a ser finalizada está eliminando parte dessa cicatriz da paisagem. Um trecho de 650 metros entre as estações Portuguesa-Tietê e Carandiru foi revitalizado no último mês com a retirada dos obstáculos e a construção de um “corredor verde”. Ele consiste em pista de caminhada, ciclovia,paisagismo e iluminação voltada para os grafites do Museu Aberto de Arte Urbana, nas pilastras do elevado. Resta terminar a pintura e a sinalização para os ciclistas, a cargo da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Não há previsão de quando essa etapa do trabalho será concluída. 

canteiro central Cruzeiro do Sul
Trecho da Avenida Cruzeiro do Sul ainda abandonado: lixo, mato alto e grades (Foto: Lucas Lima)

A reforma custou 1 milhão de reais, bancados pelo Fundo de Desenvolvimento Urbano (FUNDURB). Posto em prática pela Subprefeitura Santana/Tucuruvi, o negócio saiu do papel graças a uma iniciativa do Movimento Santana Viva, formado por moradorese empresários locais. “Organizamos reuniões e definimos que essa era a prioridadeda região”, conta o comerciante Jorge Ifraim, um dos líderes do grupo. A ação começou em 2012, reivindicando a recuperação de 2 quilômetros da via, no trecho da Zona Norte. Em outubro, eles conseguiram a aprovação de 650 metros e as obras começaram em seguida. Agora, aguardam pela realização dos últimos 1350 metros previstos no projeto original, mas não há prazo para que isso ocorra.

Associações de moradores que estabelecem demandas e cobram o poder público não são novidade. A diferença é que as entidades passaram a utilizar uma ferramenta da própria prefeitura para concretizar suas exigências. Desde 2002, o Plano de Bairro permite que qualquer pessoa crie um projeto urbano — seja recuperar uma praça, seja construir uma escola — e solicite oficialmente a sua realização. O dispositivo estabelece uma série de requisitos para que o pedido seja analisado pela subprefeitura local (veja o quadro abaixo). Se ele for aprovado, será realizado com orçamento próprio ou por meio de parcerias com empresas privadas. “Os cidadãos precisam usar mais esse instrumento. Se a gente quer uma cidade melhor, o processo de planejamento tem que ser contínuo”, diz o urbanista Kazuo Nakano.

Em 2008, moradores de Perus, na Zona Norte, definiram metas para o bairro, o que garantiu a construção de creches e a reurbanização de praças e favelas, com investimento total estimado em 15 milhões de reais - os recursos foram oriundos da venda do crédito de carbono do Aterro Bandeirantes. O resultado da iniciativa animou outros movimentos na capital a buscar a mesma solução. Hoje existem ao menos vinte programas semelhantes em andamento. Na Bela Vista, um relatório de 2009 listou oitenta propostas.“As principais são a revitalização da Praça14 Bis e a criação de um corredor gastronômicona Rua Treze de Maio”, diz ocomerciante Walter Taverna, dono de quatro cantinas famosas no Bixiga. Em agosto, a Subprefeitura da Sé se comprometeu com a reforman da praça, mas até agora nada foi feito. Na Pompeia, cerca de 600 moradores enumeraram 117 pontos, criando um "mapa dos sonhos". “A maioria diz respeito a mobilidade construção de áreas verdes”, afirma o consultor Rodrigo Bandeira, co-fundador da ONG Cidade Democrática, que articulou a ação.

Para o vereador José Police Neto, defensor da tese de desenvovimento local com ampla participação popular, o Plano de Bairro dá poder ao cidadão. "No bairro estão aqueles que melhor podem fiscalizar todo o processo, que é sempre demorado e complexo", afirma. 

Praça Mogeiro Perus
Praça da Rua Mogeiro, em Perus: um dos locais recuperados no Plano de Bairro de 2008 (Foto: Fernando Moraes)
Walter Taverna Bela Vista
O comerciante Walter Taverna: à espera da reforma da Praça 14 Bis, na Bela Vista (Foto: Lucas Lima)

Ação local

As demandas listadas nos Planos de Bairro à espera de aprovação:

Bela Vista: revitalização da Praça 14 Bis; construção de um corredor gastronômico na RuaTreze de Maio e de uma biblioteca municipal; e ampliação do número de vagas em creches e escolas 

Perus: construção de um hospital com 250 leitos e de um parque linear para recuperar as várzeas do Ribeirão Perus e do Córrego do Areião; recuperação da ferrovia Perus-Pirapora para uso turístico; e regularização de terrenos invadidos há anos e edifícios construídos em desacordo com a lei

Pompeia: ampliação do programa de hortas comunitárias; melhoria das calçadas; e criação de ruas de lazer e de “travessas coloridas”, com muros pintados, para valorizar vilas e praças

Santana: criação de uma linha de transporte público de alta capacidade entre Vila Maria e Pirituba e elaboração de um plano cicloviário

 

Passo a passo

O caminho para uma comunidade construir o seu Plano de Bairro:

1- Organizar excursões pelas ruas do bairro para conversar com moradores e enumerar os problemas e as necessidades locais

2- Promover reuniõe sem espaços públicos como objetivo de discutir as principais demandas

3- Registrar as sugestões apontadas pelos moradorese realizar votações para escolher as mais relevantes

4- Calcular o número demoradores e de domicílios da região que serão beneficiados com as melhorias selecionadas

5- Realizar uma pesquisa do perfil socioeconômico dessa população, destacando seus interesses em temas como saúde, educação e transporte

6- Preparar um relatórioe apresentá-lo à subprefeitura correspondente, que decidirá sobre a liberação dos recursos

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO