Crime

Crime familiar é mistério da Brasilândia

Numa história horripilante, que parece de ficção, garoto de 13 anos pode ter matado a tiros os pais, uma avó e uma tia, para depois se suicidar

Por: João Batista Jr., Juliana Deodoro e Nataly Costa

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O casal Andréa e Luís Marcelo Pesseghini com o filho Marcelo Eduardo, de 13 anos (Foto: Reprodução / Facebook)

Segundo a maior parte dos parentes, vizinhos e conhecidos, Marcelo Pesseghini, de 13 anos, era um jovem que seria o orgulho de qualquer pai. Único filho de um sargento da Rota e de uma cabo da Polícia Militar, tinha uma vida regrada e comportada. Não brincava na rua e jamais saía sozinho de casa, na Vila Brasilândia, na Zona Norte. Sua maior diversão era passar as tardes jogando videogame Xbox. “Nas provas de matemática, ele só tirava notas acima de 8”, diz a professora Sonia Nabeta, da Stella Rodrigues, escola particular onde o menino cursava o 8º ano do ensino fundamental.

Por ter nascido com fibrose cística, uma doença congênita no pulmão que requer cuidados especiais e faz com quea pessoa viva, em média, até os 38 anos,recebia da família atenção especial. O diagnóstico da doença se deu quando ele tinha pouco mais de 1 ano. “O Marcelinho seguia o tratamento à risca e tinha o apoio dos pais, que vinham às consultas mensais”, lembra a médica Neiva Damaceno, chefe do setor de fibrose cística da Santa Casa. Ele não reclamava de fazer três inalações diárias, tampouco de tomar enzimas e vitaminas para controlar a doença. Neste ano, descobriu-se que o garoto desenvolveu diabetes. Por isso, passou a tomar uma injeção de insulina a cada doze horas.

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O local dos assassinatos: suspeita provocou polêmica na semana passada (Foto: Rodrigo Paiva)

De acordo com o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da polícia de São Paulo, o mesmo Marcelo bom aluno, tranquilo, obediente e reservado é o suspeito principal de executar a família e, em seguida, cometer suicídio,em um dos crimes mais horripilantes dos últimos tempos na cidade. No fim da tarde da última segunda (5), um soldado da Polícia Militar encontrou na casa da Brasilândia o corpo do garoto e o de seus pais, o sargento da Rota Luís Marcelo Pesseghini, de 40 anos, e a cabo Andréia Regina, 36, mortos com tiros na cabeça. Em uma residência localizada no mesmo terreno, também foram executadas duas outras parentes do menino: a avó materna, Benedita, 65, e a tia-avó Bernadete, 55.

Segundo a equipe do DHPP encarregada do caso, o autor da chacina fez tudo de forma premeditada na noite do último domingo, sem dar chance de defesa às vítimas. A arma escolhida, uma pistola calibre 40, pertencia a Andréia Regina. O pai teria sido o primeiro a receber o disparo, no lado esquerdo da nuca, enquanto dormia de bruços em um colchão da sala. A mãe levou um tiro também na nuca, mas morreu ajoelhada, como se tivesse despertado com o barulho e tentado implorar por clemência. As outras duas vítimas também acabaram assassinadas enquanto dormiam. Pelo estado em que os corpos se encontravam, os peritos já tinham certeza de que Marcelinho fora o último a morrer. 

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O Corsa Classic abandonado: par de luvas no interior (Foto: Nivaldo Lima/Futura Press)

Uma sucessão de acontecimentos após os quatro primeiros assassinatos faz com que a polícia trabalhe com apenas um único suspeito. “Há provas sobre a ação do garoto”, diz Itagiba Franco, o delegado à frente do caso. Segundo as investigações, o menino teria matado os parentes e, em seguida, saído do local a bordo de um Corsa Classic, que pertencia à sua mãe. O vídeo de uma câmera de segurança de um prédio vizinho à escola mostra o carro de Andréia sendo estacionado nas redondezas por volta de1h15 da madrugada de segunda. Às 6h23, as câmeras registram Marcelinho saindo do veículo, atravessando a rua e dirigindo-se ao colégio. Na saída da escola, onde assistiu normalmente às aulas,ele pegou carona com o pai de seu melhor amigo, parou para buscar um objeto no automóvel da mãe e, na porta de casa, pediu ao motorista para não buzinar. Alegou que seu pai estava dormindo.

Até a última quinta (8), mais de dez testemunhas haviam sido ouvidas no DHPP. O depoimento que o delegado Franco considera mais importante é o do garoto de 13 anos cujo pai deu carona a Marcelinho. “Era o seu principal confidente”, afirma o policial. No depoimento, o menino disse que Marcelinho sonhava em ser matador de aluguel e que já havia comentado que queria assassinar os pais e fugir de casa. “Esse colega também afirmou que, na segunda, após cometer o crime, seu amigo disse: ‘A gente nunca mais vai se ver’.” Na sequência, depois de entrar na casa onde já estavam os cadáveres de seus parentes, ele teria cometido suicídio. Seu corpo foi encontrado segurando a arma do crime, deitado perto da mãe e com fios de cabelo na outra mão.

De acordo com o DHPP, havia sangue em sua camiseta, mas não foram achadas pegadas ou outras marcas de sangue na residência. “Uma pessoa ouvida por nós disse que o pai ensinava o menino a manusear armas, mas ainda não sabemos onde era feito esse treinamento”, relata o delegado. O exame residuográfico realizado nas mãos do suspeito não acusou a presença de pólvora. “Em muitos casos, o teste dá negativo, sobretudo quando é usada uma pistola de cano longo, como é o modelo de calibre 40”, explica Osvaldo Negrini, ex-diretor do Instituto de Criminalística. 

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O Colégio Stella Rodrigues, na Fregueria do Ó (Foto: Rodrigo Paiva/RPCI)

Na garagem da residência da família, estava a mochila de Marcelinho, onde foi encontrado um revólver calibre 32 descarregado. No quarto do garoto, sobre a cama, havia cerca de dez revólveres de brinquedo e um escudo de papelão que imitava o da tropa de choque. Completava o arsenal de brinquedos uma espingarda de chumbo encostada num dos cantos do recinto. Na página pessoal que mantinha no Facebook, o menino havia trocado em julho a foto em seu perfil pela de um assassino que é um dos principais personagens do game Assassin’s Creed.

No Corsa Classic abandonado perto da escola, a polícia encontrou depois um par de luvas. Muitas pessoas, sobretudo as mais próximas, não acreditam na tese da polícia. Nas redes sociais, foi criada na quinta-feira a página “Não foi o Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini”. Em poucas horas, mais de 6 000 pessoas haviam curtido a iniciativa. As dúvidas estão relacionadas a pontos ainda obscuros da investigação.

Um fato que alimentou outra possibilidade de explicação para a chacina envolve a função da mãe de Marcelinho na PM. Andréia dava expediente no departamento de justiça e disciplina do 18o Batalhão. Seu chefe direto, o capitão Laerte Araquem Fidélis a descreve como uma pessoa cheia de amigos e sem problemas dentro da corporação, mesmo trabalhando na função de investigar denúncias contra policiais. “Os casos mais frequentes são de abuso de autoridade e falhas de procedimento”, afirma Fidélis.

Na última quarta, porém, a maior autoridade do 18o Batalhão, ocoronel Wagner Dimas, levantou uma suspeita importante. Ele declarou em uma entrevista à Rádio Bandeirantes que a mãe de Marcelinho denunciou policiais que estariam envolvidos em roubos a caixas eletrônicos. Também afirmou não acreditar no envolvimentodo menino no crime. Um dia depois, no entanto, alegou que “se perdeu na argumentação” e negou tudo à corregedoria da polícia. Segundo pessoas próximas, Dimas foi repreendido por ter falado sobre o caso. O delegado Franco, do DHPP, não acha o episódio relevante. “Não pedi nenhum relatório sobre os casos investigados por Andréia”, diz. “Como o Dimas voltou atrás em suas declarações, não acho necessário.”

Além do pai e da mãe, Marcelinho tinha vários outros familiares ligados à PM. “O sonho do Luís Marcelo era que o filho também seguisse a carreira, mas minha sobrinha queria que ele estudasse medicina”, conta Maria Bovo, irmã de Benedita. O marido de Benê, como era conhecida a avó, trabalhava no Corpo de Bombeiros e fazia bicos como taxista. Morreu assassinado há cerca de vinte anos durante uma tentativa de assalto. Andréia possuía um irmão chamado César, que atua como tenente na cidade de Rio Claro. Já Luís Marcelo tinha uma irmã também policial, que mora na cidade de Marília. 

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Delegado Franco: “O caso dele é mais chocante que o da Suzane von Richthofen” (Foto: Marco Ambrósio / Folhapress)

O delegado do DHPP compara Marcelinho a Suzane von Richthofen, condenada a 39 anos de prisão por articular o assassinato dos pais em 2002. “O caso dele é muito mais chocante que o dela”, acredita Franco. “O garoto fez mais vítimas e era menor de idade.” Para fechar o caso, o policial aguarda ainda novos depoimentos e os resultados dos laudos encomendados aos peritos do Instituto de Criminalística. Entre os objetos apreendidos em duas diligências realizadas na Vila Brasilândia, estão roupas encontradas espalhadas pela casa, um computador e um celular. De posse dessas informações, o DHPP espera esclarece ro mistério e comprovar a sua tese.

Fonte: VEJA SÃO PAULO