Crônica

Ânimos Exaltados

Por: Ivan Angelo - Atualizado em

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(Foto: Veja São Paulo)

O filho do coronel botou as duas bicicletas dos meninos no suporte atrás do carro e saiu com a família para passear no parque. No caminho foram parados por uma patrulha de trânsito da PM, um cabo e dois soldados, que constatou que as bicicletas estavam encobrindo a placa traseira do carro.

O filho do coronel foi lá atrás verificar, constatou que não dava para levantar mais o suporte das bikes e explicou que iria só até o parque com as crianças, já haviam feito aquilo várias vezes, nunca tiveram problema.

Os policiais disseram que o carro não poderia prosseguir; do jeito que estava, teria de ser apreendido.

O filho do coronel não gostou e disse que era filho de coronel.

O cabo disse que aquilo não lhe dava o direito de infringir a lei, que o carro estava apreendido e que lhe desse os documentos.

A mulher do filho do coronel ficou nervosa porque os filhos ficaram nervosos e saiu do carro para argumentar.

Os netos do coronel, de 7 e 4 anos, ficaram mais nervosos e o menor começou a chorar.

O filho do coronel quis entrar no carro para acalmá-los e o cabo da patrulha disse que ele não poderia entrar no carro, que já estava apreendido. E que, se ele o fizesse, seria preso.

O filho do coronel tentou entrar, foi puxado e recebeu voz de prisão. A nora do coronel ligou para o coronel, explicou a situação e o coronel disse que chegaria lá em cinco minutos.

O cabo chefe da patrulha percebeu o telefonema, ligou para o batalhão explicando a situação e pediu a presença da oficial de dia, que prometeu chegar em cinco minutos.

A nora do coronel foi impedida também de voltar para o carro a fim de acalmar os filhos e estava bem alterada argumentando quando chegou a tenente oficial de dia.

Os soldados bateram continência, se apresentaram, relataram os fatos. A tenente foi lá olhar as bicicletas e confirmou a apreensão do carro.

A nora do coronel reclamou dizendo que era um absurdo, uma arbitrariedade, desumanidade com as crianças, e recebeu voz de prisão da tenente por desacato.

O filho do coronel ligou para o irmão, capitão da PM, e pediu ajuda.

O coronel chegou e se apresentou para a oficial. Apesar de reformado, contava com a compreensão corporativa e, em último caso, com o respeito por ter sido chefe do Estado-Maior da PM. Pediu o relaxamento da prisão e a liberação do carro.

A tenente disse que não poderia desautorizar os subalternos, que eles tinham agido corretamente, dentro da lei e do regulamento, e que mantinha a decisão deles.

O coronel se tocou com o choro do neto mais novo e abriu a porta do carro para entrar e acalmá-lo.

A tenente advertiu-o de que não entrasse no veículo apreendido.

O coronel entrou, dizendo que era uma arbitrariedade, e foi tirado à força pelos soldados. Saiu com o braço todo lanhado, e gritava com a tenente que ia fazer exame de corpo de delito.

O capitão filho do coronel chegou nesse momento, à paisana porque nem tivera tempo de vestir a farda. Inteirou-se logo da situação, identificou-se e ordenou à tenente que liberasse imediatamente os presos e o carro, pois aquilo estava deixando mal a corporação perante o público.

A tenente disse que não liberava porque estavam cumprindo a lei.

O coronel mostrou o braço escalavrado ao filho capitão e contou sua versão.

O capitão filho do coronel deu voz de prisão à tenente, por emprego de força excessiva contra ancião desarmado.

Um popular comentou que só queria ver quem ia levar tanto preso para a delegacia.

A tenente disse que não acatava a ordem de prisão porque estava dentro do regulamento e da lei.

O capitão ligou para o tenente-coronel chefe do policiamento e relatou o ocorrido.

O tenente-coronel pediu para falar com o coronel reformado. Depois chamou a tenente e ordenou que ela se recolhesse presa ao seu batalhão. Chamou o capitão e ordenou que ele providenciasse que cada um seguisse seu rumo.

O coronel não deixou barato e foi fazer exame de corpo de delito.

O cabo e os dois soldados ficaram com cara de pois é. A irmã do coronel filosofou: “Se eles com eles está assim, que dirá conosco”.

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO