Crônica

Um raro agosto

Por: Ivan Angelo

"Esta será a única vez que você verá este fenômeno em sua vida”, diz uma dessas sandices da internet espalhadas na rede desde o começo do ano. O mês de agosto está aí e a corrente insana garante que não existe a possibilidade de um agosto igual se repetir na sua vida, na dos seus filhos, netos, bisnetos, trinetos, tetranetos, ou até a trigésima geração depois deles. Só daqui a 823 anos.

O “fenômeno” não traria catástrofes, mas uma coisa boa. Dinheiro, money, d’argent, dinaro, plata — a bobagem gira em várias línguas pelo globo.

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Já tivemos agostos problemáticos, como aquele em que os acontecimentos levaram o presidente Getúlio Vargas ao suicídio, e o da renúncia do presidente Jânio Quadros, embora em termos de desgraça política nenhum mês supere certo abril, que durou vinte anos. Antigamente, dizia-se: agosto, mês de desgosto, e também se dizia que era mês de cachorro louco. No antigamente de que estou falando, os cachorros ainda não compravam apartamentos nem iam a salões de beleza ou a clínicas; viviam nas ruas e nos quintais, sujeitos a pulgas e à raiva. De agosto em diante, as prefeituras vacinavam os cães familiares gratuitamente, a fim de que ficassem imunizados no verão, e recolhiam os das ruas para sacrificá-los em nome da saúde pública. Isso é outra história.

Voltando ao assunto: a pegadinha deste agosto na internet, então, é dinheiro. Não muito, uma quantidade que cabe no bolso. Ouro dos tolos, pode-se dizer em mais de um sentido. O que os insanos da internet dizem que torna este agosto tão especial é que ele tem cinco sextas-feiras, cinco sábados e cinco domingos. Você confere no calendário: é mesmo! E acrescentam os sandeus: isso só ocorre a cada 823 anos! Segundo eles, deve-se copiar a mensagem e encaminhá-la aos amigos. Fazendo isso, a pessoa ficará com os bolsos cheios de dinheiro quatro dias depois. Acrescentam que essa revelação veio da China.

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Vamos brincar de desmontar a tolice. Não por ser uma corrente maléfica, pois não lhe pedem dinheiro, mas por ser bobagem e passar informações erradas. Mensagens pipocaram nas redes: “Imaginem, só daqui a 823 anos!”, “ Bacana!”, “Bem sacado!” — e não é nada disso.

Primeiro: os chineses seguem outro calendário, não o nosso, gregoriano. Segundo: o calendário gregoriano foi adotado no Ocidente no século XVI, em 1582, e não se pode contar para trás os tais 823 anos com exatidão. Terceiro: para que um mês tenha cinco sextas, cinco sábados e cinco domingos, só é necessário que os seus 31 dias comecem numa sexta-feira. Um matemático me dá o número: isso vai ocorrer 118 vezes até o ano de 2837, ou seja, daqui a 823 anos. Quer conferir se isso será verdade nesse ano? É só digitar “calendário 2837” no Google que ele o levará até lá, ao tal agosto. Bingo! Quarto: o matemático sacou um padrão de ocorrências, a cada seis, cinco, seis e onze anos. Pegue 1997, que teve um agosto assim, e some seis anos: 2003 teve; some cinco anos: 2008 teve; some seis anos: 2014 tem; some onze anos: 2025 terá; recomece o padrão somando 6: o ano de 2031 terá; depois somando 5: o ano 2036 terá... e assim por diante. Não tem erro. Esses matemáticos são demais, não?

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O que me intriga mesmo é: como isso surge numa cabeça? Esse número, 823, como é que surge, com tal exatidão? Como é que uma pessoa bola isso e tem tempo e pachorra para botar na internet, inventando toda uma história?

ivan@abril.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO