Crônica

A bruxa na cidade

Por: Walcyr Carrasco - Atualizado em

Depois de viver décadas em São Paulo, ainda me intrigo com mistérios para os quais não encontrei nenhuma pista. Se estou em um congestionamento na Avenida 23 de Maio, todas as faixas andam um pouco. Menos a minha. Mudo para outra. Imediatamente, fica paralisada a faixa para onde fui. E aquela onde estava começa a se mover! Na terapia, não consigo explicar que, em certos dias, pego todos os sinais vermelhos. Atrasado. Mas o terapeuta busca um motivo oculto, rejeição ao tratamento, talvez!

Parafraseando Paulo Coelho, o universo conspira contra minha agenda. Basta estar com pressa para, caso me encontre em uma fila, a bobina do caixa acabar. A mocinha faz a troca lentamente. Erra umas duas vezes. Quando parece terminar, surge algum problema. Vem o superior. Mexe um pouquinho. Olha para mim, sorri e avisa:

– Só um instante.

Digita sua senha. Não entra. Digita de novo. Resolve. Passo os produtos. Sempre há um cujo preço não aparece. Sempre. A mocinha aperta um botão. Começo a grunhir. Um rapaz de patins aterrissa à nossa frente. Desaparece com o produto dentro do supermercado.

– Mais um instante – diz a mocinha.

Séculos depois, o rapaz retorna. Quando estou para terminar a compra, a caixa do lado faz uma pergunta. A minha pára tudo para responder. E eu espero, espero, espero...

E no banco? Quando vou buscar dinheiro ou resolver uma pendência importante, cai o sistema. Não é paranóia. Intuo que o sistema tem alguma coisa contra mim. Aguardo. Pior é se dá vontade de fazer xixi. Caso eu cometa tal imprudência, o sistema volta enquanto estou no toalete. Quem está na fila resolve a vida. Assim que volto, cai de novo!

Já nem tento ir a restaurante badalado. Posso chegar o mais cedo possível. Invariavelmente, o maître avisa, desconsolado:

– Acabamos de sentar a última mesa. E vai demorar um pouco, porque todo mundo está começando a jantar!

Dia desses fui ao Rio de Janeiro. Comprei passagem pela internet. Cheguei ao aeroporto e fiz o check-in em uma maquininha. Tudo rápido. Mas precisava despachar minha maleta de mão. Uma mocinha da companhia aérea me indicou a fila preferencial de vips, idosos, deficientes etc.

– É coisa simples, vá aí mesmo – convidou.

Só havia um trio de executivos no guichê. Quando eu ia chegando, uma senhora grávida entrou na minha frente. Com todo o direito. Mas havia só um rapaz atendendo, e os três senhores não paravam de falar. (É outro mistério que não entendo, o das companhias aéreas: por que os passageiros realizam debates no check-in?) Quinze minutos depois, o guichê ficou livre. Foi a vez da senhora grávida, é claro. Mais dez minutos, aproximando-se minha vez, um rapaz atravessou na minha frente conduzindo uma senhora cega. Nada mais justo. Meu vôo foi chamado.

– O avião vai decolar e tenho de despachar a mala – bradei para um funcionário que passava.

Ele me passou na frente de uma fila imensa. Des-pachei, com os olhares dos outros passageiros cravados nas minhas costas. Ouvi um murmúrio:

– Olha o fura-fila!

Corri até o portão de embarque. O vôo havia sido remanejado para o outro extremo do aeroporto. Voei, como sempre. Se eu fosse ao Rio todo dia, poderia competir na São Silvestre de tanto treinar em Congonhas. (Trata-se do mistério dos aeroportos: distâncias internas, filas e remanejamentos são outros temas a desvendar.)

A lista dos mistérios não terminaria nunca. Será que é só comigo? Ou em alguns dias a bruxa fica solta na cidade?

Fonte: VEJA SÃO PAULO