Cauby Peixoto volta aos palcos da cidade aos 84 anos

O esforço do cantor para retomar a agenda de shows depois de uma internação provoca emoções diferentes na plateia

 

Bar Brahma, 21h30 de segunda (25). O local já está completamente lotado. As 200 cadeiras estão ocupadas e, devido à demanda, a casa colocou mesas fora do salão. Há público vindo de Aracaju, Belo Horizonte e Piracicaba. Muitos dos presentes são contemporâneos da estrela da noite, Cauby Peixoto. Chegam vestidos nos trinques, como antigamente se fazia para ir à missa. Garçons cruzam o ambiente em alta velocidade para atender aos pedidos. O faturamento apenas com o show ultrapassa a cifra dos 25 000 reais, entre couvert artístico e venda de bebidas. Pela ansiedade dos fãs, de ver um ícone retomar o trabalho depois de uma temporada afastado por problemas de saúde, o clima é de festa. Em cinquenta minutos de apresentação, o cantor comove a plateia com seus clássicos (sim, é claro, incluindo Conceição).

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Bar Brahma, 22h10 de segunda (25). Ancorado em dois seguranças, Cauby deixa seu camarim improvisado e anda lentamente. Por não conseguir subir degraus, precisa ser empurrado até o topo de uma rampa para chegar ao palco. Conta no microfone estar feliz por retornar à casa de onde estava ausente por cinco meses por problemas de saúde. O show de cinquenta minutos tem bons momentos, como na interpretação de New York, New York, e cenas de constrangimento. É como se o corpo e o cérebro não estivessem em sintonia com a força de vontade do artista. Integrantes da banda sopram a letra para ele cantar, um violão deixa de funcionar no meio da exibição e seu ritmo sai em descompasso com os acordes da banda. Em determinada passagem, Cauby esquece a letra. A cantora Angela Maria, de 86 anos, amiga de vida e de palco, enxuga as lágrimas. No dia seguinte, ela também liga para um amigo para chorar por ter ficado triste de ver a apresentação da noite anterior.

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Nancy Lara

Nancy Lara

Apesar de antagônicas, as duas versões da apresentação aconteceram no mesmo show. Presenciar Cauby no palco provoca sentimentos distintos. Ao mesmo tempo em que é comovente vê-lo em atividade, não se pode ignorar o seu estado físico. No dia adia, ele parece um pouco indiferente a tudo ao seu redor. Perde a atenção no meio de um raciocínio e escuta com dificuldade. Sua ligação com o universo é retomada quando é chamado a soltar o vozeirão. Com mais de seis décadas de carreira, o cantor de 84 anos está engordando seu catálogo de mais de 100 álbuns. Na semana passada, lançou um CD com a interpretação de clássicos de Nat King Cole. Deixou prontas também as gravações de um álbum de bossa nova, com previsão de chegar ao mercado no fim do ano.

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Outra novidade foi a estreia na última quinta (28) do documentário Cauby — Começaria Tudo Outra Vez, de Nelson Hoineff. No filme, farto de cenas históricas, desde as aparições dos tempos da Rádio Nacional, o artista fala pela primeira vez sobre sua homossexualidade. Raras vezes ele tocou no assunto, mesmo entre as pessoas mais próximas. “Em cinquenta anos que o conheço, nunca soube de nenhum companheiro”, afirma Juarez Santana, maestro de sua banda entre1965 e 1995.

Em fevereiro, Cauby foi internado com a taxa de diabetes acima de300 miligramas por decilitro de sangue (o normal é de até 100). No hospital Santa Isabel, em Santa Cecília, o quadro se agravou depois que ele contraiu uma virose e uma infecção urinária. “Por estar sem sua peruca, ele passeava pelo corredor e ninguém o reconhecia”, lembra o neurologista Ibsen Damiani, responsável pelo tratamento. Quando melhorou, o cantor pediu ao produtor Thiago Marques Luiz que lhe levasse letras de bossa nova. Queria ensaiar o novo CD. O movimento atraía várias enfermeiras. “Minha internação foi um sucesso”, brinca o músico.

Cauby desenvolveu nos últimos anos uma neuropatia diabética, distúrbio nervoso que provoca dormência e fraqueza nos pés. Daí precisar cantar sentado. “Meu médico disse que, depois de começar a usar a insulina, vou ultrapassar os 90 anos de idade”, entusiasma-se. Ele toma remédios para pressão e colesterol, por exemplo. “Cauby precisa ser mais disciplinado com a alimentação”, diz Damiani. Os pratos preferidos do astro são picadinho e feijoada, que come três vezes por semana.

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Há quinze anos quem administra sua carreira é Nancy Lara, de 67 anos. Ela vive uma espécie de conto de fadas de uma fã. “Fui ao primeiro show do Cauby aos 14 anos”, lembra. Aos poucos, a tiete foi se aproximando a ponto de ficar amiga da família Peixoto. Em 2000, quando a secretária particular do cantor deixou de trabalhar para ele, Nancy acabou sendo chamada para substituí-la. Hoje, atua também como sua empresária (o cachê do artista no Brahma é de 8 000 reais por show e em outras casas oscila entre 20 000 e 30 000 reais).

Ambos vivem em um apartamento alugado em Higienópolis, de 130 metros quadrados. Vasos com flores de plástico, sofás antigos e um autorretrato fazem parte da decoração da sala. Apesar de todo o sucesso de mais de meio século, ele hoje não tem nenhuma propriedade. Nem sempre foi assim. “Em 1965, quando já era famoso, ele me deu o seguinte conselho: ‘Invista seu dinheiro em imóveis. Eu já tenho dezoito apartamentos’”, lembra o cantor Agnaldo Timóteo. Muitos acreditam que Cauby teria sido ludibriado por Edson Veras, o Di Veras, empresário que o descobriu em São Paulo na década de 50 e cuidou de sua carreira por mais de quarenta anos. Di Veras morreu em 2005. “Eu não acredito nessa história. O Cauby era um artista que não sabia administrar bem o dinheiro”, diz o maestro Santana.

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Nancy administra a carreira do astro com paixão e mão de ferro. Interfere nas perguntas dirigidas ao cantor em uma entrevista, decide a roupa que ele deve vestir e dá sugestões para o repertório dos shows. Na porta do camarim, determina quem pode ou não entrar. “Ela é muito zelosa e o protege como uma leoa”, conta Cleto Oliveira, um dos sócios do Bar Brahma. Em troca dessa fidelidade, a empresária diz ter recebido de presente todo o acervo de roupas e bijuterias do artista. No meio do show da semana passada, levantou-se para colocar as partituras mais perto do cantor, quando percebeu sua dificuldade para enxergar as anotações. Cauby é muito grato por esse cuidado. Além de ser, na prática, a família dele por aqui (os parentes vivos estão todos no Rio de Janeiro), Nancy o ajuda a manter a chama viva. “Tem gente que precisa de oxigênio para viver, eu preciso estar no palco. Morro se não cantar”, afirma.

Voz e roupas extraordinárias

Momentos de um dos artistasconhecidos pelo timbre potente epela exuberância de seu fgurino

Picadinho, joias e remédios

› Natural de: Niterói (RJ).

› Data de nascimento: 10/2/1931 (84 anos).

› Carreira: uma das vozes mais potentes do país, lançou mais de 100 trabalhos (entre discos e CDs). Sua interpretação mais famosa é Conceição.

› Trabalho atual: voltou a cantar no Bar Brahma, acabou de lançar um CD com canções de Nat King Cole e, no fim do ano, lancará outro, com músicas de bossa nova.

› Cuidados com a saúde: fez cirurgia de ponte de safena em 2000 e, em fevereiro de 2015, foi parar na UTI por problemas de diabetes.

› Remédios que toma: insulina e trayenta (para diabetes), rosuvastatina (colesterol), higroton e aspirina infantil (hipertensão). Também usa aparelho auditivo.

› Pratos favoritos: picadinho, feijoada e porção de pastel.

› Plásticas: ele diz não ter feito nenhuma. Sua empresária fala que Cauby fez apenas uma — mas um ex-funcionário conta que foram mais de três.

› Vaidade: não tira a peruca na frente de estranhos.

› Estado civil: solteiro e sem filhos. Recentemente, assumiu a homossexualidade.

› Propriedades: já teve dez apartamentos no Rio de Janeiro, além de uma fazenda em São Roque. Hoje, mora de aluguel em um apartamento de 130 metros quadrados em Higienópolis.

› Família: Andiara, sua única irmã viva, mora no Rio. Vive com Nancy Lara, a fã que virou empresária, em Higienópolis.

› Coleção: de ternos feitos de brocados e cristais, alguns avaliados em mais de 3 000 reais. No passado, encomendava um por semana.

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