A próxima onda

Questionado por jornalistas do exterior sobre qual é a tendênciamais nova, interessante e de maior impacto em São Paulo, paro para pensar. Ou melhor, resolvo dar uma volta a pé. Os gringos pedem que eu projete a moda de 2014. Estão ouriçados com a Copa do Mundo. Sei o que eles querem ouvir: protestos de rua, a exemplo daqueles que agitaram a cidade e o país em junho, durante a Copa das Confederações, serão a próxima onda. É natural. Parte da humanidade quer ver o circo pegar fogo. A confusão estimula a produção de adrenalina e diminui a monotonia do cotidiano. Gera assunto. Emociona. Não se sabe como vai terminar. Manifestações públicas enérgicas são chaves para a formação da cidadania e da consciência críticada população, segundo outros. Não falta torcida, enfim.

Mas não é isso que quero responder. Entro no Starbucks da Rua Haddock Lobo para pensar melhor. Fica do ladinho de um Fran’s Café, concorrente. Gosto disso. Acho muito urbano. Tenho frequentado esse trechinho da cidade. Peço um café e um brownie (que ninguém é de ferro). Abro o livro que venho carregando na mochila, a versão nova do Dicionário do Nordeste, de Fred Navarro. É sensacional, diga-se. Consulto a palavra “astronauta”. Significa “jumento, burro, jegue” no interior nordestino, de acordo com Navarro. Imagino um animal solitário na paisagem lunar do interior nordestino. Começa a fazer sentido. Continuo a folhear. Alcanço a letra “b”. Descubro que no Nordeste “bailista” significa uma “pessoa que ‘dá baile’, que apronta confusão, que discute ou vive irritadao tempo todo”. Se você ainda não tem esse dicionário, arrume um exemplar antes que acabe. Amei a primeira edição. A nova é mais luxuosa e, parece, mais completa, com direito a capa dura e tudo.

Ali no Starbucks cai a ficha, de repente. Mas devo a epifania ao dicionário do Fred Navarro, desconfio. Para mim, a tendência mais fascinante de São Paulo é a explosão das livrarias. Sou convidado para um lançamento ou palestra em um estabelecimento do gênero quase todos os dias. Alguns me são até desconhecidos. Quem diria? Convenhamos, é um fenômeno surpreendente. Não é esta nossa a era do conteúdo digital? As livrarias lá fora não estão fechando aos montes? Segundo li outro dia, o plano da Amazon é entregar “conteúdo” ou pela internet ou por um pequeno helicóptero sem piloto conhecido também como “drone”.

Mas aqui é o contrário. As livrarias fervem. Tornaram-se grandes pontos de encontro. Como tudo o que dá certo no Brasil, viraram festa. Vá à Livraria Cultura do Conjunto Nacional para você ver, ou à Martins Fontes da Avenida Paulista, ou à Livraria da Vila da Fradique Coutinho aos sábados.Também estou encantado com uma nova, a Blooks, no Shopping Frei Caneca. Até o Shopping Iguatemi se viu obrigado a abrir uma livraria. Ouço dizer que acontece algo semelhante país afora.

Digo sempre aos gringos que São Paulo faz parte de um país distinto. Mas, como frisa Antônio Carlos Jobim, “o Brasil não é para principiantes”.

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