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“Meu marido não teve preconceito com meu passado na indústria do sexo”

Nosso Louco Amor: ex-atriz pornô e ex-garota de programa, a youtuber Vanessa Danieli conta como conheceu o marido, Daniel, em um evento geek em 2017

Por Vanessa Danieli dos Santos, 32 anos, em depoimento a Fernanda Campos Almeida - Atualizado em 21 ago 2020, 12h05 - Publicado em 21 ago 2020, 06h00

“Contar a verdade foi um dos muitos testes que fiz para saber o que o Daniel, 37, queria comigo. Acredito que nada assusta mais um homem do que você ser você mesma. Então, no primeiro encontro, falei da minha vida como atriz pornô e garota de programa. Contei as coisas horríveis que aconteceram comigo. Na indústria do sexo, as pessoas mostram quem realmente são. Homens vão para o bordel para se sentirem poderosos e, depois, colocam máscaras de pais de família e cidadãos de bem. Ao invés dele levantar e ir embora, ele me abraçou para me confortar. Achei que era pegadinha, porque não estava acostumada com as pessoas serem legais comigo. Ele não teve preconceitos e quis saber quem era a Vanessa, e não a mulher dos vídeos.

Bárbara Costa era meu nome artístico antes. Fazer filmes adultos foi a pior coisa da minha vida. Não deveria nem ter começado. Já tinha tentado parar antes, mas São Paulo é cara e ninguém sobrevive aqui sem um bom salário. Para não voltar com o rabo entre as pernas, sem dinheiro, tive de me preparar e fazer um pé de meia. Quatro meses depois de me aposentar dessa profissão, em 2016, conheci Daniel na Campus Party Brasil, um evento de tecnologia, em 2017.

Eu era nova no YouTube e ele trabalhava em um dos stands em que a dupla do blog Jovem Nerd, Alexandre Menezes e Deive Gerpe, iria se apresentar. Puxei papo, disse que gostaria de entrevistá-los para meu canal, passei meu contato. Ele depois conseguiu agendar uma entrevista. Agradecida, convidei-o para o cinema e acabamos nos interessando um pelo outro. Tirei as dúvidas dele em relação às filmagens e expliquei que tudo é falso: as posições, o prazer das meninas e até as cenas ‘amadoras’. O pornô é uma mentira em forma de vídeo. São apenas duas pessoas que só querem receber dinheiro.

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Com três meses de namoro, o casal passou a morar junto Arquivo Pessoal/Divulgação

Sem nem saber, o Daniel teve de me provar no começo que não era uma pessoa agressiva, desonesta ou viciada em drogas. Não queria alguém assim. Ele passou em todos os testes. Depois de três meses de namoro, não tive mais com quem dividir o apartamento. Não teria mais como me manter aqui. Daniel me convidou para morar com ele e disse que eu passaria a ajudar com as contas quando começasse a ganhar dinheiro com meu canal sobre jogos e o mundo geek, o Barbaridade Nerd. Foi um suporte para eu realizar o sonho de entrar na faculdade de marketing e começar do zero.

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Morar com ele no início foi esquisito. Diferente de mim, toda agitada, ele é muito calmo, do tipo de cara que assiste à Monja Coen e ouve barulho de chuva para dormir. O apartamento não estava todo mobiliado, não tinha nem cama. Decoramos a parede com quadros de séries e coisas nerds de que gostamos. Quando fomos visitar minha mãe na humilde casa dela em Mogi das Cruzes, um dos cinco gatos que ela adotou fez xixi na mochila nova do Daniel. Ele foi supertranquilo e não teve preconceitos com ela, a casa ou os gatos, que hoje gostam tanto dele que até o lambem.

Decidimos assinar a união estável e postei uma foto nossa no Facebook para celebrar. Um desconhecido repostou em um grupo de cuckold, nome do fetiche que homens têm de serem traídos. Aproveitaram-se da frase ‘ex-atriz pornô se casa’ e a publicação chegou a mais de 5 000 compartilhamentos e muitos xingamentos. Não fazia sentido o tacharem de ‘corno’, eu não atuava mais. Daniel ficou chateado, não por ter a imagem ou a masculinidade ‘manchadas’, mas sim por essas pessoas, descontentes com a vida, decidirem jogar toda a frustração delas no teclado, ofendendo quem elas não conhecem.

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Daniel fantasiado de personagem de The Walking Dead, e Vanessa como Hit Girl: na CCXP de 2017 Arquivo Pessoal/Divulgação

Como eu não dava conta de limpar os comentários tóxicos das minhas páginas, Daniel fazia isso por mim e ficou calejado. Agora, ele já escutou de tudo. Para afetá-lo, a ofensa tem de ser muito criativa.

Ele já gravou vários vídeos comigo para o YouTube sobre acessórios de videogames e me acompanha em todos os eventos para gamers e de cultura pop, mas agora o protejo das redes sociais. Daniel tem o que poucas pessoas possuem: altruísmo. É difícil encontrar alguém que abre mão das coisas para fazer a outra feliz. É uma coisa tão bonita de se ver que fico desconcertada. Perguntava-me se eu o merecia. Depois de ver tanta atrocidade na vida, não tem como não se apaixonar por alguém assim. Eu tenho muita, mas muita sorte.”

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 26 de agosto de 2020, edição nº 2701.

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