Aos 60 anos, Clara Carvalho encara novos desafios no teatro

A atriz protagoniza o espetáculo 'O Jardim das Cerejeiras'

Criada em 1904 pelo dramaturgo Anton Tchecov, a aristocrata Liuba simboliza a transição social da Rússia do começo do século passado na peça O Jardim das Cerejeiras. A personagem, marco da maturidade de intérpretes do porte de Cleyde Yáconis, Nathalia Timberg e Tônia Carrero, é o atual desafio da atriz carioca Clara Carvalho, de 60 anos, que, radicada em São Paulo desde 1987, é um dos sustentáculos do selo de qualidade do Grupo Tapa, fundado há quatro décadas.

Cartaz do Teatro Aliança Francesa, na Vila Buarque, a montagem apresenta uma família que, diante da falência, precisa decidir o destino de uma propriedade rural. “Eu me sinto empoderada ao abraçar essa personagem, uma montanha-russa de sentimentos, que ama quem não deve, é perdulária, mas jamais perde a consciência dos atos falhos”, afirma.

Anna Cecília Junqueira, Clara e Penido Ross: O Jardim das Cerejeiras, em cartaz no Teatro Aliança Francesa

Anna Cecília Junqueira, Clara e Penido Ross: O Jardim das Cerejeiras, em cartaz no Teatro Aliança Francesa (Ronaldo Gutierrez/Divulgação)

O diretor do espetáculo, Eduardo Tolentino de Araujo, define a atriz como etérea, daquelas que sublimam os tipos representados. “Liuba talvez seja o papel mais importante de Clara, por ela ter atingido a rara delicadeza de transitar entre o delírio e a volta ao chão”, filosofa. Tolentino sabe o que diz. Foi guiada por suas mãos que a atriz, até o meio dos anos 80 uma bailarina com experiências no Ballet do Rio de Janeiro e no corpo de baile do Municipal carioca, moldou a personalidade teatral.

Clara Carvalho e Paulo Gorgulho na peça “FrankensteinS”, adaptada e produzida por Jô Soares

Clara Carvalho e Paulo Gorgulho na peça “FrankensteinS”, adaptada e produzida por Jô Soares (Divulgação/Divulgação)

Com 34 anos de carreira, 53 peças e vários prêmios, como o Shell, o APCA e o Mambembe, Clara é uma espécie em extinção, uma profissional praticamente exclusiva dos palcos. Só em 2018 estreou três peças, A Cantora Careca, A Profissão da Sra. Warren e Meu Filho Vai Casar. No cinema, participou de apenas dois filmes, Quanto Vale ou É por Quilo? (2005) e O Maior Amor do Mundo (2006). Quase virgem na TV, fez pontas nos seriados 9mm — São Paulo, Psi, Descolados e O Homem da Sua Vida.

Com Denise Weinberg na peça As Criadas (2015)

Com Denise Weinberg na peça As Criadas (2015) (Ronaldo Gutierrez/Divulgação)

Sondada pela Rede Globo para as séries Os Maias (2001) e Ligações Perigosas (2016), declinou o convite antes mesmo dos testes porque não deixaria a agenda teatral para gravar no Rio de Janeiro. “Jamais largo um trabalho pela metade e tenho responsabilidade com meu ofício”, afirma. Tamanho rigor gerou, inclusive, uma cicatriz familiar no fim dos anos 80. “Faltei ao casamento do meu irmão, no Rio, porque não podia me ausentar de duas sessões com lotação esgotada, e isso ainda me dói, apesar de saber que fiz o certo.”

Nos tempos de bailarina do Theatro Municipal do Rio, na década de 70

Nos tempos de bailarina do Theatro Municipal do Rio, na década de 70 (Arquivo pessoal / Reprodução/Veja SP)

Maria Clara Bulhões Carvalho da Fonseca é a mais velha dos três filhos de um engenheiro e uma tradutora. Os irmãos seguiram a carreira paterna. Criada entre Copacabana e Ipanema, ela prefere a serra de Petrópolis às areias da praia. Estudou piano e balé, formou-se em letras na PUC e descobriu o teatro na esteira da dança. Com o Grupo Tapa, veio de mala e cuia para São Paulo. “Moramos em um hotel em São Bernardo do Campo e dividimos um apartamento no Largo Santa Ifigênia”, conta. O fato de até hoje não ser popular não a aflige. “Nunca visei à fama, faço parte do time que ensaia dia e noite, Natal e réveillon, com pouco dinheiro e o mesmo prazer.”

Clara foi casada por doze anos com o ator Brian Penido Ross, colega do Tapa e pai de sua filha, a jornalista Helena Dutt-Ross, de 27 anos. Desde 2001, vive com o advogado Carlos Mendes Pinheiro Jr., que, vindo de uma rotina estabilizada, estranhou os horários da parceira. “Os cinco primeiros anos foram cheios de negociações, mas meu marido é independente e viu a importância do meu trabalho”, garante. “Meu lamento é que raras vezes passamos um fim de semana juntos e mal aproveitamos nossa casa em Ibiúna”, completa. Quem acompanha Clara há 33 anos é a atriz Denise Weinberg, a outra estrela do Tapa, que a trata como irmã. “Não deixamos nossas famílias contrariadas; pelo contrário, acreditamos em uma nova possibilidade à nossa frente e que o esquema burguês atrapalhava demais nossos desejos e intenções. Formamos uma nova família e aqui estamos até hoje”, define Denise, com a intimidade de quem realmente conhece o outro.

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