Eduardo Kobra lançará exposição itinerante dentro de ônibus

Exclusivo: o artista nascido no Campo Limpo que cobra a partir de 100 000 dólares por trabalho mostra o projeto que comemora 30 anos de carreira

Fora dos muros, sobre rodas. Assim será a celebração dos 44 anos de idade (e trinta de carreira) de Eduardo Kobra, o artista paulistano da Zona Sul que ganhou projeção internacional com seus murais gigantes e coloridos. A iniciativa, revelada com exclusividade a VEJA SÃO PAULO, foi batizada de Galeria Circular e toma forma em um ônibus adaptado, onde serão expostas em telas e fotografias reproduções de seus quinze mais importantes trabalhos. A mostra itinerante começa a circular na terça (27) e vai percorrer treze pontos da cidade, um por dia, até 8 de setembro. “Há dez anos não faço uma exposição por aqui. Achei que essa era a melhor maneira de quebrar o jejum”, diz Kobra, que está bancando o custo de 80 000 reais para a adaptação do veículo e fez questão de que a entrada fosse gratuita. “Me importa levar o que eu faço a pessoas que não vão a museus, seja pela dificuldade de locomoção, seja por acharem que é um lugar restrito.” Assim como acontece em suas empenas (a equipe técnica e administrativa que o ajuda soma oito funcionários), o projeto envolveu uma logística coletiva.

O arquiteto Douglas Morillon e o engenheiro Filipe Hornos supervisionaram a transformação do ônibus elétrico, parte de uma “frota verde” da empresa de transporte Transwolff que tem previsão para circular em setembro em Santo Amaro (a preocupação ecológica é uma das bandeiras do muralista). As 26 poltronas internas foram retiradas, para permitir a circulação do público. Fixada às janelas por meio de fitas dupla-face, uma estrutura metálica suporta as “paredes”, que nada mais são que placas de MDF revestidas com fórmica, bem ao estilo “cubo branco” das galerias de arte. No fundo, ergueu-se um cineminha, com telão de 2 metros de largura e 1,6 metro de altura, onde será possível ver um documentário inédito sobre a trajetória do artista, que começou como pichador, na adolescência.

Mural de David Bowie, em Nova Jersey, obra do grafiteiro

Mural de David Bowie, em Nova Jersey, obra do grafiteiro (Divulgação/Divulgação)

De onde nasceu, no Campo Limpo, Kobra chegou longe, literalmente. Em abril de 2011, produziu seu primeiro mural fora do Brasil. Na parede externa do prestigiado centro cultural Roundhouse, em Londres, criou uma locomotiva antiga com personagens circenses. Seis anos depois, fez um de seus trabalhos mais monumentais, em Carrara, na Itália: um Davi, de Michelangelo (1475-1564), sobre uma pedreira de mármore, com 12 de metros de altura e 20 metros de largura. Outro painel que merece destaque nesse mapa-múndi é o retrato de David Bowie, feito em 2017, em um prédio de Nova Jersey. Também nos Estados Unidos, pintou neste ano um heroico bombeiro, em referência ao 11 de Setembro.

Imagem de Davi em Carraca, obra do grafiteiro Eduardo Kobra

Imagem de Davi em Carraca, obra do grafiteiro Eduardo Kobra (Divulgação/Divulgação)

A opção por temas de forte apelo garante a repercussão na internet (os pontos pintados estão entre os favoritos dos turistas para selfies) e a admiração popular. Em votação do público, os americanos o escolheram, no site da Time Out, como uma das personalidades de 2019. Se nas empenas é Kobra quem manda, no circuito dos museus e galerias, outros brasileiros gozam de mais prestígio: OSGEMEOS, dupla dos irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, que começaram a carreira no Cambuci, já expuseram no Tate Modern, em Londres, e no Museu de Arte Contemporânea de Tóquio, no Japão. “O Kobra esteve mais voltado para o espaço externo e só agora começa a se institucionalizar. Não há que falar sobre qual postura é melhor ou pior, não existem fórmulas”, avalia Baixo Ribeiro, da Galeria Choque Cultural.

Ziraldo na Praça Benedito Calixto: “ É certeza que ele não vai lembrar de mim”

Ziraldo na Praça Benedito Calixto: “ É certeza que ele não vai lembrar de mim” (Acesso Pessoal / Reprodução/Veja SP)

A comparação com o pernambucano Romero Britto, aventada quase sempre de forma pejorativa no circuito tradicional, não incomoda Kobra. “Respeito a trajetória dele, mas meu caminho é outro. Meu trabalho tem cor, assim como o de Andy Warhol. No entanto, é muito diferente do de Romero, porque me aproximo do desenho realista e das questões sociais”, explica Kobra. Em comum, além das cores vibrantes, está o grande sucesso comercial. Só neste ano, Kobra recebeu mais de quarenta convites internacionais (o próximo projeto está previsto para Ímola, na Itália, onde vai pintar a figura de Ayrton Senna). Para executar as obras feitas por encomenda, ele não aceita menos de 100 000 dólares (ou mais de 400 000 reais). Suas telas, em galerias americanas, também são negociadas por valor semelhante. O sucesso de vendas, entretanto, não ameniza o apetite dos amadores por um veredicto: afinal, é bom ou não é? “Dizer que algo não é arte é eminentemente uma violência, não uma crítica. Compreender as referências, interesses e estratégias de qualquer produção é fundamental para além de ajuizá-la apenas como ‘boa ou ruim’ ”, pondera a curadora Clarissa Diniz.

Em São Paulo a relação com o público, os colegas de profissão e os críticos abrange extremos. “Foi o lugar em que tudo começou, e onde fui xingado nas ruas”, lembra. Qualquer mágoa, ele garante, ficou para trás. “Aqui meu trabalho tomou força para ganhar o mundo”, afirma. “No passado, pintávamos exclusivamente com lata de spray. Ele usava compressor (aparelho industrial que ajuda na aplicação da tinta), o que não era aceitável. Para mim, é uma forma de se apropriar de nossa estética e valores”, diz Walter Nomura, mais conhecido como Tinho, um dos desafetos de Kobra. O muralista, que evita polêmicas, contemporiza: “Houve uma falta de comunicação entre a gente, ninguém entendeu o lado do outro. Para mim, era inviável usar o mesmo material que eles, porque a lata de tinta era muito cara e rendia pouco”. A escolha do material teve ainda uma motivação técnica. “O uso da pistola (ferramenta que direciona o jato) me propiciou um contorno mais certeiro, mais apropriado ao tipo de desenho hiper-realista que faço, e pede também a construção de um cenário.” A dissidência gerou o estilo inconfundível. Os painéis multicoloridos, como o retrato de Oscar Niemeyer feito na região da Avenida Paulista, são os mais marcantes na cidade. Foi com esse estilo, por exemplo, que ele entrou para o Guinness World Records com o maior grafite do mundo, pintado em 2017 na fábrica da Cacau Show, em Itapevi (o recorde anterior também era seu, com o painel Etnias, criado para os Jogos Olímpicos do Rio, em 2016). Mas há ainda desenhos de características muito diferentes. Em 2006, ele deu início à série Muros da Memória, que reproduzia fotos antigas da capital paulista. Com Greenpincel, abordou questões relacionadas ao meio ambiente. Nenhuma delas, porém, lembra, nem vagamente, os primeiros traços feitos às escondidas no muro da rua de trás da escola, a Emef Maurício Simão, no Jardim Martinica, aos 12 anos, quando ele ainda se assinava Cobra, com “C”.

Kobra com a esposa, Andressa Munin, e o filho, Pedro

Kobra com a esposa, Andressa Munin, e o filho, Pedro (Alexandre Battibugli/Veja SP)

No início, a família não apoiava a ideia. “A gente não entendia esse negócio de grafite. Na época, duvido que alguém entendesse. Queríamos que ele fizesse faculdade na área de informática”, lembra a mãe, Maria Zineide Fernandes Léo, 73. Hoje quem gere a carreira de Kobra é sua esposa, Andressa Munin, 33. Para ela, vale seu nome de batismo, Carlos Eduardo Fernandes Léo, pai do pequeno Pedro, de 3 anos. Sobre a época do primeiro encontro, que rolou no antigo Playcenter, Andressa tem memórias fortes: “Vivíamos um momento difícil. Eu tinha perdido meu pai havia dois meses e ele estava no auge da depressão, tomando mais de doze comprimidos por dia”. Eles moram atualmente nos Jardins, perto do clube A Hebraica. No mesmo bairro fica o espaço onde recebem colecionadores — o ateliê está na Vila Madalena. Juntos, eles frequentam as igrejas Comunidade Cristã e Bola de Neve. “Ele não gosta de levantar bandeira, mas ter uma fé o transformou e o ajudou a tomar decisões importantes”, revela a esposa.

Muralista com máscara de proteção, cuidado que passou a ter após uma intoxicação por metais pesados existentes nas tintas

Muralista com máscara de proteção, cuidado que passou a ter após uma intoxicação por metais pesados existentes nas tintas (Divulgação/Divulgação)

Outra fonte de estímulo do muralista é o sonho de criar um instituto para que crianças e adolescentes recebam gratuitamente uma formação em artes visuais. “Tenho procurado lugares para pôr a ideia de pé. Ainda estou em dúvida se será na periferia ou em bairros mais centrais.” A disposição para o trabalho eventualmente é comprometida por questões de saúde: ele tem pedras nos rins, em decorrência da alimentação bagunçada pelos horários alternativos. A intoxicação por metais pesados presentes nas tintas, resultado de anos pintando paredes sem usar máscara, foi curada. Se o assunto é o envolvimento em iniciativas da esfera pública, ele fala com cautela, fica quase em cima do muro. Em 2017, quando o então prefeito, João Doria, decidiu apagar os grafites da Avenida 23 de Maio, o desenho de Kobra foi inicialmente poupado e depois vandalizado. “O que vemos é um grande desperdício. Somos privilegiados por ter os melhores artistas pintando espontaneamente nas ruas. Com um orçamento baixo, poderíamos transformar São Paulo.”

 (Alan Teixeira/Divulgação)

RETRATOS COLORIDOS Em uma tentativa de unir as cores do grafite ao apreço pelo desenho realista, Kobra criou murais geométricos. Em São Paulo, sua mais famosa obra é o plácido Oscar Niemeyer na região da Avenida Paulista, feito em 2013. No Rio de Janeiro, destaca-se Etnias,com 3 000 metros quadrados, pintada em 2016 para os Jogos Olímpicos

 (Alexandre Battibugli/Veja SP)

MEMÓRIA PAULISTANA Em 2006, o artista conquistou os paulistanos com o projeto Muros da Memória, que reproduzia cenas da cidade datadas do começo do século XX. Na foto acima, aparece o mural feito na Avenida Morumbi, em que personagens elegantes e um automóvel dão o tom da atmosfera de crescimento que São Paulo vivia

 (Acesso Pessoal / Reprodução/Veja SP)

CULTURA HIP-HOP Como muitos garotos da periferia paulistana, o muralista se aproximou da cultura hip-hop nos anos 90. À época, como é de praxe no grafite, ele também criava personagens. A figura à esquerda foi feita por volta de 1993. Com um pouco de paciência, é possível ler ao lado do “boneco” principal, no centro, em letras retorcidas, o nome Kobra

 (Alexandre Battibugli/Veja SP)

MEIO AMBIENTE EM PAUTA Uma de suas principais iniciativas, chamada Greenpincel, olha para o planeta e aborda temas como desmatamento e sofrimento animal. As touradas, famosas na Espanha, são questionadas em um mural na Rua Belmiro Braga, na Vila Madalena. Para quem tem dúvida sobre a mensagem que quer passar, uma frase deixa tudo bem explicadinho: “Não é arte, não é cultura, é tortura”

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 28 de agosto de 2019, edição nº 2649.

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