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Não leve as crianças: Coringa é adulto, perturbador e… extraordinário

Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, o filme tem muitas outras qualidades além da excepcional atuação de Joaquin Phoenix

Por Miguel Barbieri Atualizado em 27 set 2019, 15h04 - Publicado em 27 set 2019, 14h59

Coringa ganhou o Leão de Ouro no último Festival de Veneza e pegou o mundo de surpresa. Como um festival tão politizado concedeu o principal troféu para uma produção americana, com apelo de blockbuster e um vilão dos gibis? Só para refrescar a memória, no ano passado, o vencedor foi Roma, de Alfonso Cuarón, um filme em preto e branco, memorialista, de ritmo lento.

Nesta sexta (27), assisti a Coringa na sessão para a imprensa e posso dizer: não vi os outros filmes do Festival de Veneza, mas o prêmio foi justíssimo. Quem me conhece, sabe que filmes de super-heróis não são minha “praia”. Eu vejo sempre com prazer e gosto de alguns, como o recente Vingadores – Ultimato, que recebeu quatro estrelas. Coringa está em outro patamar. Nem mesmo os três filmes de Batman, dirigidos por Christopher Nolan, me arrebataram tanto. Listo abaixo algumas qualidades/diferenças entre este Coringa e outros exemplares do gênero.

1 – Tanto Jack Nicholson (jocoso) quanto Heath Ledger (denso) foram excelentes como Coringa. Mas a atuação de Joaquin Phoenix tem algo de extraordinário.

2 – Todd Phillips ficou conhecido como um diretor de comédias – é dele, por exemplo, a trilogia Se Beber, Não Case. Em seu primeiro drama, o cineasta entrega uma realização primorosa.

3 – A recriação de Gotham (ou Nova York) da década de 80 salta aos olhos, seja pela sujeira nas ruas, os cinemas de rua exibindo filmes pornôs ou o metrô decadente.

4 – O roteiro tem  desdobramentos surpreendentes. Os fãs podem reclamar que a história não está no gibi, mas pouco importa. A ligação/rixa feita entre Coringa e Batman é muito eficaz.

5 – O apelo psicológico do filme faz toda a diferença. Coringa não é um vilão sem causa. Muito pelo contrário – a começar por sua risada estridente, fruto de uma doença mental.

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6 – Traçando um paralelo com os dias de hoje, Coringa pode até ser visto como um líder de esquerda, um mito para os pobres que não têm oportunidades numa cidade controlada pelos ricos.

7 – Nunca vi um filme com um personagem de HQ tão violento. Deadpool, um dos meus preferidos, tinha lá sua violência, mas que pendia para o humor. Não é o caso aqui. Acho até a classificação indicativa de 16 anos baixa.

8 – Não leve as crianças ao cinema. Coringa é um filme para adultos, um drama psicológico perturbador com as tintas carregadas num passado sombrio e chocante.

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