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Por Raul Juste Lores
Redator-chefe de Veja São Paulo, é autor do livro "São Paulo nas Alturas", sobre a Pauliceia dos anos 50. Ex-correspondente em Pequim, Nova York, Washington e Buenos Aires, escreve sobre urbanismo e arquitetura
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#SPsonha: vizinhanças para fazer tudo a pé são a ambição de Paris

A prefeita da capital francesa Anne Hidalgo pretende fazer uma revolução ambiental aproximando serviços e empregos das moradias

Por Raul Juste Lores Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 7 fev 2020, 12h15 - Publicado em 7 fev 2020, 06h00

No que promete ser uma revolução ambiental, Paris será formada por vizinhanças em que todos os principais serviços, empregos e comodidades estarão a apenas quinze minutos de cada parisiense. Se possível, a pé, de bicicleta ou de transporte público, com sérios obstáculos para quem quiser continuar se deslocando sempre com transporte individual, emitindo muito CO2.

Essa é a promessa da prefeita de lá, Anne Hidalgo, no poder desde 2014, em sua campanha para a reeleição (a ser decidida no mês que vem). A disputa eleitoral da capital francesa dá aquela inveja ao paulistano que se pergunta quando esses temas finalmente aportarão por aqui. O delay da chegada de boas ideias ao Brasil é doloroso, mas a urgência das mudanças climáticas acelera tudo. A sustentabilidade virou assunto prioritário de Lisboa a Singapura, de Nova York a Barcelona, e não serão poucas as empresas que vão levar isso em conta na hora de instalar suas filiais no exterior.

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Vizinhança de modelo multiúso: uma agenda quicando à procura de defensores na Pauliceia (Ilustração Cortesia Nicolas Bascop/Divulgação)

A prefeita parisiense quer diminuir as longas viagens que as distâncias obrigam, e que consomem tanto combustível. De cara, a proposta prevê o desaparecimento de milhares de vagas de “zona azul”, que seriam transformados em parklets, ciclovias, novos negócios, quiosques, parques lineares com assentos, playgrounds e até hortas urbanas. O conceito de “cidade em quinze minutos” foi criado pelo professor Carlos Moreno, da Universidade Paris-1 Sorbonne. Busca disseminar policentros, nos quais todas as áreas tenham usos mistos.

Bem diferente das “zonas estritamente residenciais” de São Paulo, onde é necessário o carro até para chegar à padaria mais próxima (de bairros em franco despovoamento, do Morumbi ao Pacaembu). O governo parisiense quer aprofundar esse modelo multiúso. Melhores calçadas levariam mais gente a se decidir a fazer viagens curtas a pé. Várias ruas menores teriam o trânsito de veículos restrito a certos horários do dia. Nos arredores de escolas, ruas ficariam fechadas ao trânsito por algumas horas, como “espaços para crianças”. “Promessa de campanha” pode parecer algo irreal, mas outras cidades têm tomado o mesmo caminho. Qualidade do ar (e de vida) é o que deve atrair os talentos do amanhã. Lisboa anunciou recentemente o fechamento de várias ruas centrais para carros. Em Barcelona, vias secundárias terão destino igual, criando superquadras exclusivas para pedestres e ciclistas.

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O plano francês: bem diferente das “zonas estritamente residenciais” de São Paulo (Ilustração Cortesia Nicolas Bascop/Divulgação)

Nova York começou a fazer o mesmo há doze anos. Na Broadway, a longuíssima rua que atravessa parte de Manhattan, pistas para carros foram transformadas em espaços para pedestres. Em várias quadras, a prefeitura simplesmente espalhou mesas e cadeiras para que as pessoas se sentassem — e que são guardadas à noite pelos lojistas beneficiados por muita gente sentada em frente às suas vitrines. Uma agenda quicando à procura de defensores na Pauliceia.

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 12 de fevereiro de 2020, edição nº 2673.

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