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Na Plateia

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Sergio Ferrara dirige “Homens de Papel” e conta relação com Plínio Marcos

O encenador, que já montou "Barrela" e "Abajur Lilás", estreia no Teatro Nair Bello e escreve um depoimento emocionado sobre a vivência com o dramaturgo

Por Dirceu Alves Jr.
Atualizado em 3 abr 2019, 13h38 - Publicado em 3 abr 2019, 13h23

Nesse 2019, são duas décadas da morte do nosso grande dramaturgo Plínio Marcos. Então, deixo aqui o meu depoimento amoroso sobre nosso encontro. Lá pelo início de 1999, eu fui contemplado com uma ocupação do Teatro de Arena, em São Paulo, com o nome de Quem Tem Medo de Plínio Marcos e Nelson Rodrigues?. O projeto consistia nos estudos e na encenação de obras desses dois autores. Sendo eu de uma geração de diretores nascidos em um Brasil pós-ditadura e pós-censura, pelo menos a censura policial do Estado contra a qual Plínio lutou com muita resistência, não deixava de ser significativa essa homenagem no Arena.

Sabia quem era o Plínio, tinha respeito e medo daquela figura mítica que eu encontrava nas portas dos teatros vendendo seus livros. Às vezes, era até agressivo com as pessoas. A presença dele causava em todos nós uma mistura de magia e desassossego. Confesso que quando Plínio mandou me chamar para um primeiro encontro, tremi nas bases e pensei seriamente em desistir. Mas criei coragem, respirei fundo e recorri à intermediação da sua companheira, a jornalista Vera Artaxo, para o primeiro contato. Encontro marcado, não me atrasei. Encontrei-o no apartamento da Rua Maranhão, no bairro Higienópolis, todo de branco. Para minha surpresa e alegria, era um homem extremamente acessível e apaixonado pelo teatro. Colocou-se imediatamente à disposição para ajudar no que fosse necessário. O que mais me chamou atenção naquele homem que nos revelou com minúcias o universo dos excluídos foi o humor. Nunca perdia a graça. Era como a ginga de uma escola de samba, sempre no ritmo. O dele, claro.

A primeira obra que trabalhei foi Barrela e, como diretor, pude constatar a intensidade exigida de um intérprete de Plínio. Muitas vezes, os atores acabavam a peça cansados, conscientes do mar que atravessaram a braçadas. Nos ensaios, de repente os atores se calavam num silêncio respeitoso. Eu me virava e, atrás de mim, estava o Plínio, assistindo ao nosso processo. Meu coração gelava, minhas pernas tremiam. Ele olhava docemente para mim e dizia: “Pode continuar, meu filho, só passei para saber se está correndo tudo bem”. E desaparecia, como um espectro saindo do teatro.

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Quando Barrela estreou foi um sucesso de crítica e público. Ele ia todos os dias ao teatro e me perguntava: “Sérgio pode ter um debate?”. Eu respondia: “Plínio, você pode fazer o que quiser”. Isso era setembro de 1999, e ele morreria em novembro. No horário da peça, não conseguia ficar em casa, andava inquieto, e Vera tinha que trazê-lo para assistir à sessão no Arena. Em algumas viagens, Plínio nos acompanhou. Já parecia um pouco cansado pelo seu estado de saúde. Na apresentação para o Sesc em São José dos Campos, levado pelos filhos Léo Lama e Tiago – filho de Vera, adotado por ele –, deitou-se em um divã que ficava na coxia. Fechou os olhos e ficou ouvindo as falas dos atores. No final, me disse: “meu filho, eu não vi, mas o que ouvi foi muito bom”.

O professor Danilo Miranda, diretor do Sesc SP, foi de uma generosidade imensa, apoiou o projeto do início ao fim. Tínhamos um roteiro de viagens pelo interior com a peça e palestras do Plínio. Mesmo depois da morte do Plínio, o professor Danilo manteve a agenda, para que pudéssemos levar as sábias palavras do dramaturgo para novos ouvidos curiosos.

Já nos seus momentos finais, no hospital, quando ainda tinha força, conseguia reconhecer a visita e procurava manter o humor. Eu me aproximei e perguntei como ele estava. “Meu filho, estou mais para crocodilo do que para colibri”, disse. Mesmo doente, sua resposta era genial. Disse que iria começar a montagem do Abajur Lilás. Plínio apertou minha mão com força e sorriu com os olhos. Tinha acabado de receber sua aprovação. Nos despedimos e nunca imaginei que seria nosso último encontro.

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Dias depois, retirando uns filmes em uma locadora do Edifício Copan, em São Paulo, o plantão do jornal deu a notícia: “acabou falecer o dramaturgo Plínio Marcos”. Sentei na escada da locadora e chorei como uma criança que perde um pai. Naquela noite todos os teatros de São Paulo dedicaram seus espetáculos a ele. Só consegui realizar Abajur Lilás dois anos depois. Enchi a peça de boleros deliciosos e rasgados, passionais, porque Vera Artaxo me disse que eram os boleros que ele adorava ouvir.

Nunca mais toquei em uma obra dele ou aceitei dirigir no teatro profissional os convites que recebia. Depois de 18 anos, com coragem e alegria no coração, retorno ao Plínio Marcos para ensinar a essa nova geração de atores quem foi Plínio, qual o teor da sua obra e a urgência dele nesse momento conturbado do nosso país. Ver meus alunos da Escola de Atores Wolf Maya na peça Homens de Papel, resgatando em mim uma fé, me faz lembrar que ainda vale a pena lutar por um Brasil melhor. Que venha a tempestade! E salve Plínio Marcos!

+ Homens de Papel. Direção de Sergio Ferrara (80min). 12 anos. Teatro Nair Bello. Shopping Frei Caneca. Rua Frei Caneca, 569, Bela Vista. Sexta e sábado, 21h; domingo, 19h. R$ 15,00. Até dia 14. A partir de sexta (5).

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