Anna Bella Geiger celebra sete décadas de arte em nova mostra
Anna Bella Geiger apresenta obras menos conhecidas de suas sete décadas de carreira e lança novo livro de artista

Anna Bella Geiger, 91, conversou com a Vejinha de seu ateliê no Rio de Janeiro, por videoconferência, rodeada por obras e registros de seus 75 anos de carreira. À medida que um trabalho surgia na conversa, ela fazia questão de escavar pelo acervo e mostrá-lo. O apreço da artista carioca pela memória de sua produção pôde ser conferido em diversas exposições na capital ao longo de 2024 e duas seguem em cartaz: no MAC, a instalação Circumambulatio, remontada após cinquenta anos, pode ser vista até julho; na Pinacoteca, Lunar I (1973) fica até abril como parte da mostra Era uma Vez: Visões do Céu e da Terra.

Agora, ela acaba de chegar à galeria Mendes Wood DM, na Barra Funda, com a individual quase mapa, quase mancha, que rememora um lado menos conhecido de sua produção. “A minha indagação sempre foi muito dentro de uma atitude experimental. Fui trabalhando e deixando para trás qualquer coisa que mostrasse que eu estava me repetindo como artista.” A definição que tem da própria carreira explica a variedade de obras encontradas na exposição, em cartaz até 1º de fevereiro.
Pioneira dentro do abstracionismo logo no início de sua carreira, entre o final dos anos 50 e o início da década de 60 e, mais tarde, da videoarte, Anna Bella também ficaria conhecida por seus trabalhos com mapas. Na Mendes Wood, eles se tornam o que ela chama de “camuflagem”, influenciados pelo início do fim da ditadura militar, nos anos 80, vistos em pinturas em acrílico, algumas nunca antes exibidas, e nos primeiros trabalhos de sua emblemática série Macios, em que utiliza como suporte estofados feitos de lona.

Há ainda a instalação Mesa, Friso e Vídeo Macios, montada pela primeira vez na 16ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1981, conhecida como a “Bienal da abertura”, após os anos de chumbo da ditadura militar e do boicote realizado pelos artistas — ela mesma entre eles — em protesto contra o Ato Institucional nº 5 (AI-5), que acirrou a censura no Brasil. No hall de entrada do espaço expositivo, gravuras entram em diálogo. “Os mapas, antes, tinham uma atenção forte à questão da censura na ditadura, mas, nos anos 80, viram essa ideia da camuflagem. A gente tenta ver um território ali, mas não vê bem, vê uma mancha. Daí essa brincadeira do título”, diz a curadora Ana Hortides. “Os trabalhos abstratos de 60 mostram que a abstração dela, nos anos 80, é outra, em maior escala”, completa.
Em paralelo às três exibições que cobrem diferentes fases de sua carreira, Anna Bella segue produzindo e lança o livro de artista Typus Terra Incógnita (Familia Editions; 720 reais). A publicação, uma obra de arte em forma de livro, foca em seus trabalhos cartográficos — sua “geopoética”, como chama de 1974 a 2024, além de esboços e anotações inéditas. A questão da geopolítica e do colonialismo não é um interesse Capa e páginas de Typus Terra Incógnita: geopoética recente da artista plástica, mas algo que vai se renovando com as transformações do mundo e sobre o qual já planeja uma exposição em Berlim, na Alemanha, neste ano. “Eu criei e continuo criando possibilidades que vêm da geopolítica para atentar para o momento atual, mas é difícil, porque essas questões não são neutras”, compartilha.

Filha de imigrantes poloneses e mãe de quatro filhos, ao lado do geógrafo Pedro Pinchas Geiger, 101, Anna Bella começou no mundo artístico por volta dos 16 anos e faz questão de lembrar as dificuldades que enfrentou por ser mulher, tendo de conciliar o trabalho com a criação da prole e de lidar com críticos machistas. Hoje, os desafios são físicos, o braço já não pinta com tanta facilidade, mas, ao ser questionada se em algum momento já pensou em parar, é categórica: “Não é uma opção, nunca passou pela minha cabeça. Hoje, vejo novas pessoas escrevendo e elaborando teses sobre minhas obras. Isso me diz que valeu. Está valendo. Eu estou valendo”.