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Se eu fosse o prefeito, já teria decretado lockdown, diz Jilmar Tatto

No Papo Vejinha, ex-secretário de Transportes, o escolhido pelo PT para concorrer à prefeitura diz que falta coragem a Covas no combate à pandemia

Por Sérgio Quintella - Atualizado em 5 jun 2020, 12h40 - Publicado em 29 Maio 2020, 06h00

Ex-secretário de Transportes de Haddad, o escolhido pelo PT para concorrer à prefeitura promete tarifa zero no ônibus e diz que falta coragem a Bruno Covas no combate à pandemia

Uma de suas propostas caso seja eleito é zerar a tarifa de ônibus. Em 2013, quando o senhor era o secretário de Transportes, as manifestações do Movimento Passe Livre pediam justamente isso. O que mudou de lá para cá?

A população ficou mais pobre e a maioria não tem como pagar a tarifa, que consome de 20% a 30% dos salários. A área de transportes é a de que mais entendo, fiz mestrado, faço doutorado. Vamos começar gradualmente, de madrugada, depois aos fins de semana. Em vez de gastar com ônibus, as pessoas vão gastar no comércio. A medida vai aquecer a economia.

Os subsídios ao transporte custam 3 bilhões de reais por ano à prefeitura. Como fechar a conta da tarifa zero? Serão quatro fontes: manteremos o subsídio e, se for o caso, aumentaremos; criaremos o transporte universal, no qual o empregador pagará para todos os funcionários, inclusive os que não utilizam transporte público — nesse caso o valor não utilizado pelo empregado iria para um fundo; vamos criar um imposto sobre o combustível; e utilizaremos os recursos das operações urbanas que estão paradas.

Os aplicativos de transporte chegaram à capital durante a gestão Haddad, e os taxistas reclamam até hoje. Que balanço o senhor faz da tecnologia?

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A regulamentação dos aplicativos permitiu a sobrevivência dos taxistas. Tanto que as medidas são copiadas no Brasil e no exterior. Tivemos o cuidado de não permitir que os carros de aplicativos circulassem nos corredores de ônibus (para dar agilidade aos táxis). Ao mesmo tempo, a prefeitura cobra uma taxa de cada viagem. Dá 1 bilhão de reais por ano.

Os alvarás para os táxis pretos, criados para concorrer com o Uber Black e que custavam 60 000 reais, ficaram caros demais e muitos motoristas não conseguiram pagar. A ideia foi um erro?

Não digo erro, mas talvez não devêssemos ter feito a cobrança da outorga. Poderíamos simplesmente abrir novas vagas ou criar taxas mais baratas. Mas na época só existiam os carros pretos da Uber, depois que vieram as tarifas mais baratas. Foi uma evolução muito rápida. Fomos atropelados pela tecnologia, mas o balanço final é positivo para todos.

A política de implantação de ciclovias, a principal bandeira da gestão anterior, passou longe das prioridades do governo atual.

Fizemos quase 500 quilômetros de vias para bicicletas e fomos amplamente criticados. Imagina, nesses tempos de pandemia, se não houvesse as ciclovias, com tanto aplicativo de entrega circulando por elas? Seria uma carnificina. É preciso coragem para implementar medidas como essa, o que faltou ao João Doria e falta ao Bruno Covas.

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Filipe Araujo/Divulgação

O senhor é a favor ou contra o adiamento das eleições deste ano?

O ideal seria não adiar, mas quem tem de dizer são as autoridades. É importante o Congresso se posicionar sobre isso e não deixar o tema apenas para o Judiciário.

Como o senhor avalia a gestão de Bruno Covas no enfrentamento da pandemia de Covid-19?

Não há planejamento. Não faz sentido reduzir a frota de ônibus, fechar avenidas, estabelecer megarrodízio. No fim, foi a quarentena para o carro. Falta coragem ao Bruno e ao (João) Doria para decretar um lockdown. Como prefeito, eu teria essa coragem. E ambos deveriam ter construído hospitais de campanha na Zona Leste, no fundão da Zona Sul, na Brasilândia.

“Imagina, nesses tempos de pandemia, se não houvesse as ciclovias, com tanto aplicativo de entrega circulando por elas? Seria uma carnificina”

Quais seus projetos para as áreas de mananciais, sobretudo as da Zona Sul, que são alvo do crime organizado?

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Essas regiões possuem histórico de ocupações por pessoas mais pobres que foram expulsas do centro expandido pela especulação imobiliária. Primeiro, elas precisam de oferta de habitação. As ações criminosas precisam ser enfrentadas e, para isso, é indispensável contar com o envolvimento direto da Secretaria de Segurança Pública do Estado, assim como do Ministério Público.

A influência de sua família na Zona Sul rendeu à Capela do Socorro o apelido de Tattolândia. Há também relatos de que seus parentes são ligados à máfia dos perueiros e ao PCC.

O termo Tattolândia foi criado pela minha mãe, que teve onze filhos e cinquenta netos. Quando queria reunir a família, ela mandava chamar a Tattolândia. Quanto às acusações, elas são absurdas. Todo mundo sabe que quando fui secretário enfrentei a máfia dos transportes, até colete à prova de balas tive de usar. Tanto é verdade que nenhuma acusação foi adiante.

O senhor responde a quatro processos de improbidade administrativa: dois pela utilização de recursos de multas, um pela ciclovia da Faria Lima e outro pela concessão de ônibus municipais. Como está se defendendo nos processos?

Estou provando minha inocência. No caso da ciclovia da Faria Lima (Ministério Público aponta sobrepreço), não participei da licitação e estou pedindo à Justiça a retirada do meu nome na ação. Fiz 90% das ciclovias da cidade, mas dessa fiquei de fora.

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Se eleito, como o senhor vai tratar da velocidade nas marginais, que o Doria aumentou? Vai voltar como era antes? E o Minhocão, o que fará com ele?

A política de redução da velocidade resultou em 257 vidas salvas entre 2013 e 2015, com 6,2 milhões de reais de economia com gastos em saúde. Mesmo com tudo isso tenho ouvido técnicos sobre o tema e vamos tomar decisões a partir de critérios científicos, sempre com o objetivo de proteger vidas e desafogar o trânsito. Quanto ao Minhocão, pensaremos a melhor alternativa para promover recuperação urbana na região.

Críticas internas de sua candidatura apontam para o fato de o senhor ser pouco conhecido pelo eleitorado em geral. Não teme que o PT perca espaço para outros partidos da esquerda?

O PT é muito enraizado, ganhamos três vezes na cidade, temos o Lula e o Haddad, além das lideranças de bairros. Todos esses vão alavancar a candidatura. Serei o candidato da periferia, que é a minha origem.

 

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Publicado em VEJA SÃO PAULO de 3 de junho de 2020, edição nº 2689.

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