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Ruth Rachou, 92, a pioneira bailarina do pilates

A trajetória da paulistana que difundiu, além da dança moderna, o método no Brasil

Por Dirceu Alves Jr. - Atualizado em 20 set 2019, 10h49 - Publicado em 20 set 2019, 06h00

Um sonho recorrente embala as noites de Ruth Rachou. A bailarina paulistana de 92 anos costuma se enxergar em um palco, aplaudida pela plateia lotada. A cena, tão comum na sua trajetória profissional, parece pertencer ao passado, mas a vontade de Ruth, que ajudou a difundir a dança moderna e o método de pilates no Brasil, é que se torne realidade. “Não posso garantir que ainda tenho condições físicas. Talvez sim, para números curtos. O que sei é que custaria muito caro montar um espetáculo como eu gostaria”, afirma a artista, em seu apartamento no Itaim Bibi, com uma memória e uma disposição invejáveis.

Ruth com o filho Raul, o seguidor de sua arte: aulas de pilates Cacá Bernardes/Veja SP

A primeira lembrança de Ruth remete a seus 4 anos, quando interpretou um príncipe em um balé no Municipal. Sua irmã, Ilse, um ano mais velha, era a princesa. A mãe, alemã, exigia delas o estudo da dança, assim como aulas de piano e de inglês. Ruth preferia nadar na piscina do Clube Pinheiros e sofria com as rígidas regras do balé clássico. Só em 1953, já casada com o arquiteto Gastão Rachou Júnior e mãe de dois meninos, Gastão Neto e Raul, entendeu que a prática poderia se tornar profissão e se candidatou a uma vaga no Ballet do IV Centenário. “O meu marido disse: ‘Você não será aprovada mesmo, faça os testes’ ”, recorda. Ele errou feio e precisou engolir a rotina de ensaios e apresentações enfrentada pela mulher com o elenco do IV Centenário. Na sequência, Ruth foi contratada pelo diretor Abelardo Figueiredo para o corpo de baile que se exibia tanto nos estúdios da TV Tupi e da Record quanto nas casas noturnas Beco e Oásis. “Meu marido não gostava nada, mas, uma vez dentro, não se tira mais.”

Separada de Gastão Júnior, Ruth viajou para Nova York em 1967 e estudou com a bailarina americana Martha Graham, sua grande influência. “Descobri que era possível falar com o corpo, transmitir um texto através dos meus movimentos”, justifica. Voltaria aos Estados Unidos em 1968, dessa vez acompanhada do diplomata americano Edward Donovan, com quem viveu durante três anos. “Foi uma fase de muito estudo, e retornei cheia de ideias, tanto que, em 1972, inaugurei a minha própria escola, o Estúdio de Dança Ruth Rachou.”

Na década de 70, fundindo técnicas de teatro e dança Arquivo Pessoal/Reprodução/Veja SP

A dança passou por um período de efervescência na cidade, e a escola era procurada também por atores, como Raul Cortez e Sérgio Mamberti. “Chegamos a ter 500 matriculados em nossas turmas”, afirma Raul, que se tornou discípulo e braço-direito da mãe. A atriz e bailarina Mariana Muniz, aluna no começo dos anos 1980, salienta a disposição da mestra para o novo. “Ruth possui uma mente viva, pronta para explorar o desconhecido”, declara. E foi para desvendar um método criado pelo alemão Joseph Pilates (1883-1967) que Ruth embarcou outra vez para Nova York, na virada para a década de 90. “Pilates inventou uma ginástica para os feridos de guerra que machucavam as pernas e precisavam fortalecer a musculatura, muito a ver com a dança”, afirma ela, que introduziu o método em São Paulo e frequenta aulas até hoje.

No fim dos anos 40, antes da profissionalização Arquivo Pessoal/Reprodução/Veja SP

O Estúdio Ruth Rachou fechou em 2015. “Não abrimos mão dos nossos valores e vimos que os alunos deram preferência a exercícios mais básicos”, explica Raul, de 68 anos, que ainda é professor de pilates. Ruth mora sozinha e vive de uma aposentadoria e da ajuda do primogênito, de 71 anos, executivo aposentado. Gastão também lhe deu um casal de netos, Frederico e Fernanda, mãe dos três bisnetos de Ruth. A bailarina dirige com desenvoltura seu carro, um Honda Fit, e não dispensa a agenda cultural.

Acabou de assistir ao filme Vision, com a atriz Juliette Binoche, e confere peças de teatro, como O Testamento de Maria, monólogo de Denise Weinberg. “Vou mesmo que seja sozinha”, garante. Ruth não pisa no palco desde 2017, quando celebrou 90 anos em cena. Dançou ao lado de Raul uma coreografia em torno da canção As Time Goes By. “Ser artista não é chique, não somos bem-vistos, mas nunca dei bola para os outros, ou nem teria ido além das aulas de balé ofertadas por mamãe”, arremata, com a sabedoria de quem assumiu as rédeas da vida.

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 25 de setembro de 2019, edição nº 2653.

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