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A luta das mulheres por trás da indústria têxtil paulistana no século XX

Fotos históricas revelam a presença de funcionárias que trabalhavam (e lutavam por melhores condições) em galpões e escritórios

Por Humberto Abdo Atualizado em 10 mar 2022, 23h28 - Publicado em 11 mar 2022, 06h00

Em um prédio no bairro de Pinheiros, fotos, áudios e entrevistas de empresas do século XX guardam registros de funcionários por trás de grandes fábricas paulistanas. Mas entre maquinários e pilhas de algodão estavam, na maioria das vezes, as mulheres — embora essa diversidade passe despercebida quando o assunto é revolução industrial, acredita a historiadora Viviane Morais, que comanda o Centro de Memória Bunge, onde parte desse passado tem sido preservada.

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“Entre as duas guerras mundiais ocorreu um boom da presença feminina no mercado fabril, que só foi retomado a partir dos anos 1940. É interessante ampliar esse olhar, pois elas ocuparam diversos setores, tanto aquelas que produziam sacos de lã como as que atuavam no agronegócio”, exemplifica.

Imagem mostra pessoas trabalhando em galpão com sacos de tecidos.
Sala de classificação de lã bruta da Fiação Santista: a origem dos tecidos. Centro de memória Bunge/Reprodução

Nas prateleiras do acervo, organizado pelos nomes das marcas que pertenceram ao conglomerado desde 1905 (quando a Bunge chegou ao Brasil), está a Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro (Sanbra), uma das responsáveis por integrar mulheres na equipe.

Enquanto ampliavam os negócios pelo país no ramo da tecelagem e com a produção de óleo vegetal, parte do atendimento ocorria em São Paulo com as telefonistas. “Essa atividade, com atendimento ao cliente e comunicação de compras e vendas, ainda era vista como parte do campo feminino e foi favorecida pelo crescimento no setor”, explica Viviane.

Imagem em preto branco mostra mulher trabalhando com rodos de linha
Rolos de linha no Moinho Santista: para fins diversos no ramo da costura. Centro de memória Bunge/Reprodução

Longe dos escritórios, tarefas manuais também foram parar nas mãos das mulheres em galpões como o da Fiação Santista, no Tatuapé. “Claro que a mão de obra feminina mais barata também era vantajosa para os donos de fábricas, mas dizia-se que elas teriam mais delicadeza ao lidar com certos processos fabris”, pondera.

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“Tudo começava na primeira seleção do algodão bruto, para classificar os melhores fios e criar a linha que dava origem aos tecidos. Assim como na França e na Inglaterra, foi um dos primeiros ramos onde mulheres eram a maioria.”

Imagem mostra mulher trabalhando em linha com diversos rolos de lã.
Lanifício do grupo Moinho Santista no Belenzinho, em 1954. Centro de memória Bunge/Reprodução

As condições de trabalho não progrediam no mesmo ritmo dessa indústria, que nos anos 1960 passou a produzir cada vez mais roupas, lençóis e fios de malharia na capital paulista. “Com as longas jornadas, muitas optavam por trazer os filhos e empregá-los em qualquer atividade para ampliar a renda familiar e deixá-los juntos com elas. No Brasil, a classe média que compunha esse grupo, porque as mulheres pobres e negras já estavam no mercado há muito tempo”, observa.

A reivindicação de creches nas fábricas e horários e salários mais justos persistia, segundo ela, desde a greve geral de 1917. “Até hoje existe a mentalidade de que uma mulher no mercado de trabalho gera abandono familiar e vai deixar de cumprir o papel de esposa e chefe afetiva do lar. Tanto nos salários como em termos de presença feminina, ainda temos muito a melhorar.”

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Publicado em VEJA São Paulo de 16 de março de 2022, edição nº 2780

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