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Roberto Pompeu de Toledo descreve a gripe espanhola em São Paulo

Leia capítulo do livro "A Capital da Vertigem" que conta como epidemia parou a cidade há 102 anos

Por Redação VEJA São Paulo Atualizado em 1 Maio 2020, 10h36 - Publicado em 1 Maio 2020, 06h00

Não seria exatamente igual a Moscou ou a Nova York mas algo destas distantes cidades impregnava o aspecto da Avenida Paulista ao amanhecer do dia 25 de junho de 1918. Uma “tênue e alva camada pulverolenta”, segundo a descrição do Serviço de Meteorologia do Estado, cobria o seu leito. São Paulo conheceu naquele dia uma de suas mais baixas temperaturas. A mínima foi de 3,2ºC abaixo de zero, e a mesma cena da Paulista coberta de gelo repetiu-se em outros pontos da cidade. Na várzea do Tietê a camada de gelo atingiu três centímetros de espessura. Nas Perdizes apresentava espessura de um centímetro. Na Paulista a tal camada pulverolenta “foi-se engrossando ao descer pela encosta em direção ao córrego do Saracura”, segundo o mesmo comunicado do Serviço de Meteorologia.

Na cidade o fenômeno poderia ser divertido. No dia seguinte, com temperatura idêntica, pessoas sapatearam sobre placas de gelo na região da Ponte Grande. Para a lavoura, anunciava o desastre. A geada daquele ano castigou com dureza a produção do café. Havia municípios que calculavam as perdas em 80%. A geada foi um dos quatro “Gs” que naquele ano assolou os brasileiros, em especial os paulistas. Outro era a guerra da Europa, que agora, com a prometida participação brasileira, se afigurava mais próxima. Outro a praga de gafanhotos que se encarregaria de destruir nas fazendas o que a geada poupou. E outro ainda, o que mais penas e mortes cobrou dos brasileiros, a gripe — a terrível gripe espanhola.

Leitos para tratar doentes no Colégio Arquidiocesano Acervo do Memorial do Colégio Marista Arquidiocesano/Reprodução

Hoje se sabe que a gripe espanhola não era espanhola. Sua primeira aparição teria ocorrido nos Estados Unidos, em tropas que se concentravam no estado do Kansas. De lá teria sido levada para a Europa pelos soldados e se espalhado pelo continente. A Espanha ficou com a fama porque foram médicos espanhóis que deram o alarme quanto ao alto grau de contágio e à alta letalidade da doença. Em agosto de 1918, a epidemia alcançava virtualmente o mundo inteiro, concorrendo com a Grande Guerra na produção do massacre que caracterizou o período. Os primeiros brasileiros infectados o foram por efeito conjunto da guerra e da gripe. Uma missão de médicos e marinheiros, organizada para ser a primeira contribuição do Brasil aos aliados, veio a sofrer suas primeiras baixas ainda antes de chegar ao teatro de operações; na escala do navio em Dacar, vários dos passageiros e tripulantes contraíram o vírus. Não demorou e começaram a atracar nos portos brasileiros navios que traziam passageiros infectados. A epidemia avançou primeiro sobre as cidades litorâneas. Em Santos, uma semana depois de diagnosticado o primeiro caso, já se contavam 4 mil doentes. O Rio de Janeiro, em meados de outubro, exibia um aspecto que o Correio Paulistano chamou de “desolador”, com as ruas vazias e o comércio fechado. Até as farmácias, tão necessárias no combate à infecção, eram obrigadas a cerrar as portas porque também sobre seus funcionários se abatia a doença. A situação aproximava-se do caos. “Por falta de coveiros, muitos dos quais se encontram doentes, deram-se várias irregularidades nos serviços dos cemitérios, sendo a polícia chamada para manter a ordem”, informava o jornal.

Em São Paulo diagnosticou-se a doença, no dia 9 de outubro, em hóspedes cariocas hospedados no Hotel d’Oeste, no largo de São Bento. No dia 14 de outubro, o médico Arthur Neiva, diretor do Serviço Sanitário, que na época fazia as vezes de Secretaria da Saúde, convocou uma reunião de delegados da saúde para avaliar a situação do município e, no dia seguinte, declarou-o em estado epidêmico. O avanço do mal se fazia a galope. No dia 16 foram notificados 29 casos; no 17, 99; no 18, 179. Mais alguns dias, e a ordem de grandeza já era outra: 982 casos no dia 22, e 1.144 no dia 23.

Para fazer frente à emergência, com que recursos contava a cidade? Seu mais antigo hospital, o da Santa Casa de Misericórdia, então quase bicentenário, funcionava havia já três décadas nas amplas instalações do novo bairro da Vila Buarque, ocupando um quarteirão inteiro. Nos altos do Araçá, assim chamados por causa da frutinha homônima, funcionava o Hospital de Isolamento, maior investimento do poder público na área da saúde. Naquele mesma área o governo municipal instalara em 1880, portanto ainda sob o regime imperial, o Lazareto dos Variolosos, para acolher as vítimas da varíola. Ata da Câmara Municipal deixou registrado que o local fora escolhido por estar “bastante arredado de caminho ou estrada que comuniquem pontos povoados”, de modo a oferecer “condições de completo isolamento, indispensável para obter-se o fim a que se destinam os lazaretos”.

A referência é ao ponto de confluência do Caminho de Pinheiros (futura avenida Rebouças) com o Caminho do Araçá (futura avenida Dr. Arnaldo), onde sucessivos acréscimos de terrenos, novas construções e novos departamentos, fixaria ao longo dos anos o maior polo de instituições de saúde do Estado. O fato de o lugar estar não muito distante do primeiro – e àquela altura, ainda único – cemitério público da cidade (o da Consolação) e, principalmente, de os cadáveres poderem ser trasladados do novo instituto ao cemitério sem atravessar áreas povoadas, também foi citado na ata como vantajoso. Dessa forma a população estaria livre dos “miasmas virulentos que emanam dos cadáveres” em que se acreditava na época.

A República elevaria os cuidados com a saúde pública a novo patamar. Por força do regime federalista a saúde agora era de responsabilidade dos estados; para organizar os serviços da área o governo paulista criou em 1892 o Serviço Sanitário, órgão vinculado à Secretaria do Interior. Cabia-lhe a fiscalização do exercício profissional, o combate às epidemias e a pesquisa científica na área de saúde. É surpreendente como a pesquisa tenha merecido desde logo atenção especial. A mesma lei que criou o Serviço Sanitário criou também o Instituto Bacteriológico. No ano seguinte surgiu o Instituto Vacinogênico, para a produção da vacina contra a varíola, e em 1901 o Instituto Butantã, destinado à fabricação do soro antiofídico. Estas unidades seriam entregues a profissionais destinados a fazer história na medicina paulista e brasileira. O Instituto Bacteriológico ficou a cargo do carioca Adolfo Lutz, o Vacinogênico ao campineiro Arnaldo Vieira de Carvalho, e o Butantã ao mineiro Vital Brasil. Eram todos homens com formação na Europa, onde Louis Pasteur e outros cientistas procuravam no estudo da microbiologia soluções para as doenças epidêmicas. Surpreende menos a preocupação em criar tais instituições quando se tem em conta que a época é de acelerado crescimento populacional, no Estado e na cidade, com contingentes de imigrantes de diversas origens, muitas vezes já desembarcados doentes ou, quando sãos, presas fáceis para a infecção, num ambiente para o qual não apresentavam as necessárias defesas. Proporcionar-lhes um mínimo de apoio na proteção das condições de saúde era uma necessidade até para o bom funcionamento da economia.

O Lazareto dos Variolosos foi assumido pelo Estado, por ocasião da criação do Serviço Sanitário, e transformado em Hospital de Isolamento. Agora não abrigaria só doentes de varíola, mas também de outras doenças infecciosas. No Hospital de Isolamento se daria, entre dezembro de 1902 e janeiro de 1903, uma página marcante da medicina brasileira, que teve como protagonista o médico Emílio Ribas. Nascido em Pindamonhangaba, formado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e com estudos nos Estados Unidos e na Europa, ele tinha na época 40 anos e havia quatro dirigia o Serviço Sanitário, posto no qual permaneceria até 1917. A febre amarela era o flagelo do momento. Grassava com particular violência em Santos e Campinas, e sobre sua etiologia grassava, em paralelo, uma acirrada polêmica nos meios médicos. Emílio Ribas era defensor da tese de que o transmissor da doença era o mosquito na época chamado Stegomyia fasciata, depois conhecido como Aedes aegypti. Quem primeiro a formulara fora o médico cubano Carlos Juan Finlay. Mas ainda existiam vozes discordantes, algumas apegadas à antiga teoria dos miasmas pestilentos emanados da matéria em decomposição, outras sustentando que a transmissão se faria pela água ou pelo contato direto. Com a polêmica pegando fogo pelos jornais, Emílio Ribas propôs-se a deixar-se ele próprio picar pelo mosquito. Acompanharam-no o colega Adolfo Lutz e mais quatro voluntários. Ribas e Lutz contraíram a doença em sua forma moderada; dois dos voluntários apresentaram a forma grave. Estava comprovado o mecanismo pelo qual a infecção se transmitia e se disseminava. O resultado da experiência fixou o padrão de enfrentamento da febre amarela – o combate ao mosquito – que seria seguido por outro ícone da Medicina brasileira, Osvaldo Cruz, em suas campanhas no Rio de Janeiro.

O instituto comandado por Vital Brasil, inicialmente chamado de Instituto Seroterápico, instalou-se na antiga Fazenda Butantã, situada nos confins de além-rio Pinheiros e desapropriada pelo governo do Estado para esse fim. Era um lugar de difícil acesso; como não havia pontes sobre o rio, só se chegava lá depois de uma travessia de balsa, seguida de boa caminhada. Já o Instituto Bacteriológico foi acomodado junto ao Hospital do Isolamento. Em 1897 seria inaugurado na mesma região o cemitério do Araçá. O antigo e modesto caminho do Araçá, que abrigava uma instituição e outra, foi então promovido a avenida, com o nome de avenida Municipal – até mais adiante ser rebatizada de “Doutor Arnaldo”, em homenagem a Arnaldo Augusto Vieira de Carvalho, personagem de múltipla presença na história da Medicina paulista. Já o citamos como diretor do Instituto Vacinogênico. Sua atuação foi muito além disso. Nascido em 1867, era filho de Joaquim José Vieira de Carvalho, advogado, professor da Faculdade de Direito e político que, assim como o filho, também seria nome de avenida – é em sua homenagem o nome de Vieira de Carvalho dado à via entre a praça da República e o largo do Arouche (e não por acaso: os Vieira de Carvalho tinham sua chácara na área, com frente para a praça da República e fundos na rua de São João). Arnaldo formou-se no Rio, trabalhou como médico na Hospedaria dos Imigrantes e aos 27 anos já era diretor clínico da Santa Casa. Em 1895 esteve entre os fundadores Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, a primeira entidade de médicos do Estado. Tal sociedade criaria por sua vez a Policlínica, para atendimento dos mais necessitados.

A Sociedade de Medicina, instalada numa sala na Faculdade de Direito do largo de São Francisco, e a Policlícina, com endereço na esquina das ruas de São Bento e Direita, faziam as vezes de escolas informais e foi no seio delas e da Santa Casa que começou a germinar a idéia de se fundar uma Faculdade de Medicina. Arnaldo pôs-se à frente da causa. Era a pessoa certa no lugar certo. Além das qualificações profissionais, possuía a de ser, entre os colegas médicos e pesquisadores, o que mais tinha acesso à elite dirigente do Estado, e isso pela simples e boa razão de pertencer ele próprio a essa elite. Como elite combina com elite, suas duas filhas, Marina e Alice, viriam a se casar com os dois filhos do diretor de O Estado de S. Paulo, Júlio Mesquita – Júlio Filho e Francisco. Arnaldo pôs seu prestígio e influência a serviço da idéia e finalmente viu-a tornada realidade por lei estadual de dezembro de 1912. De início sem sede, a faculdade usava diferentes locais para seus cursos – principalmente a Santa Casa, onde eram ministradas as aulas práticas, mas também a Escola de Comércio Álvares Penteado e a Escola Politécnica. Só em 1930 teria casa própria, naquela mesma área de hospitais e institutos na agora já não mais isolada região do Araçá. Para sempre a faculdade seria apelidada de “a casa de Arnaldo”. O Instituto Bacteriológico e o Hospital de Isolamento, na morte de seus diretores históricos, seriam rebatizados com seus nomes – Instituto Adolfo Lutz o primeiro e Instituto Emílio Ribas o segundo.

 

Às instituições públicas é preciso acrescentar, para completar o quadro dos serviços de saúde existentes naquele fatídico 1918, as oriundas de entidades privadas. Entre as últimas décadas do século XIX e o início do século XX surgiram hospitais das sociedades de apoio aos imigrantes. O mais antigo era o São Joaquim, mantido pela Sociedade de Beneficência Portuguesa, na rua Brigadeiro Tobias. A colônia italiana contava com o hospital Umberto Primo, no bairro da Bela Vista, e a alemã com o Hospital Alemão, no Paraíso. Havia ainda o Hospital Santa Catarina, na avenida Paulista, criado por congregação de freiras de origem alemã e cujo diretor clínico era o médico austríaco Walter Seng, o Hospital Samaritano, dos protestantes, entre os quais americanos, alemães e ingleses, no ponto em que Higienópolis encontra o Pacaembu, e alguns poucos mais. Instituição híbrida, de caráter particular mas dependente de subvenções públicas era o Instituto Pasteur, fundado em 1903 por iniciativa de destacados médicos e empresários. Entre os empresários sobressaem, como maiores doadores, Francisco Matarazzo e Guilherme Vilares. Entre os médicos, Ulysses Paranhos, o principal articulador das tratativas que levaram à fundação da entidade, e Arnaldo Vieira de Carvalho. Os principais objetivos eram a fabricação da vacina contra a raiva e o tratamento dessa doença (até então, as vítimas de mordidas de cães hidrófobos só encontravam tratamento no pioneiro Instituto Pasteur do Rio de Janeiro), mas também passariam a ser produzidos ali soros contra a difteria e o tétano. Programado inicialmente para instalar-se numa chácara nos arredores da cidade, o instituto acabou ocupando prédio adquirido em plena avenida Paulista.

A estrutura existente em São Paulo, como de resto qualquer estrutura, em todo o mundo, era insuficiente para fazer frente a uma epidemia das proporções da gripe espanhola. A cidade jamais conhecera algo igual. Seria necessário inventar expedientes de emergência. Uma rede de hospitais improvisados foi montada em escolas, clubes e outros locais. Não só o número galopante de casos tornava a providência necessária, mas também a recusa dos hospitais regulares em acolher os doentes da gripe, de medo que infectassem os demais pacientes. A direção do Hospital Umberto Primo preferiu montar uma unidade numa escola da rua Piratininga, no Brás, para atender os compatriotas infectados, a interná-los em suas instalações, e a Santa Casa só no fim de outubro concordou em acolhê-los. O maior dos hospitais improvisados, com mil leitos, foi instalado nos espaços generosos da Hospedaria dos Imigrantes, na Mooca, com o propósito de atender os mais necessitados. O Hospital de Isolamento, que resistiu enquanto pôde a aceitar doentes da gripe, em troca encarregou-se de fornecer funcionários e equipamentos à Hospedaria.

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No início de novembro a média dos casos novos já se situava nos 7 mil diários: 7 786 no dia 4; 6 985 no dia 5; 7 496 no dia 6. A essa altura a cidade já mudara de cara. Boa parte do comércio fechara as portas, seja por falta de fregueses, seja por medo deles, seja por doença dos funcionários. “O movimento nas ruas diminuiu sensivelmente”, anotava A Gazeta. “O elemento feminino desapareceu quase por completo. (…) Não existe há vários dias o footing que emprestava ao Centro de nossa urbs, das 16 às 18 horas, um aspecto encantador, cheio de carinhas risonhas, deliciosas de graça e de beleza.” O Serviço Sanitário distribuía conselhos à população, divulgados com destaque pela imprensa. Evitar aglomerações, não fazer visitas, evitar toda fadiga e excesso físico, evitar as causas de resfriamento. Tomar cuidados higiênicos com o nariz e a garganta, por meio de inalações de vaselina mentolada e gargarejos com água iodada, ácido cítrico ou tanino. Aos primeiros sintomas (ou symptomas, conforme grafia da época, mais grave e assustadora), ir para a cama. Foram fechados o Parque Antártica, o Parque da Aclimação e outros locais de lazer. As escolas suspenderam as aulas. As autoridades pediram o fechamento das casas noturnas e seus proprietários, relutantemente, acabaram acedendo. O Theatro Municipal foi o último a fazê-lo; afinal, tinha um programa de assinaturas vendidas previamente a cumprir. O problema era que, assim como até farmácias, as fundamentais farmácias, fechavam porque seu pessoal adoecia, assim também a Companhia Lírica tinha suas baixas. No dia 22 de outubro o Municipal anunciou que Mme. Vallin-Pardo, incumbida do papel-título da ópera Louise, de Charpentier, caíra doente. Assim, a representação daquela noite dependia dos arranjos para que o navio Vouban adiasse por um dia a sua partida, permitindo que Mlle. Yvonne Gall, única integrante da companhia que conhecia o papel, pudesse substituí-la. Dois dias depois vinha a capitulação. O Municipal suspendia suas atividades, mesmo porque “devido à epidemia reinante, os srs. assinantes não podem vir ao teatro”.

Roberto Pompeu de Toledo, autor de a Capital da Vertigem Paulo Vitale/Reprodução

Todo mundo ficava doente. O delegado-geral Tirso Martins pegou a gripe e passou o cargo a seu segundo, Augusto Pereira Leite, que por sua vez pegou a gripe e deixou o cargo novamente vago. A dama da sociedade Antônia de Queirós, presidente da seção paulista da Cruz Vermelha, entidade das mais empenha- das no socorro aos doentes, também caiu gripada e passou o cargo, mas sua substituta também adoeceu, e também a substituta da substituta. No dia 1º de novembro noticiou-se que, da diretoria, “só se acha com saúde a exma. sra. Eleonora da Silveira Cintra, que assumiu ontem a direção de todos os serviços”. O prefeito Washington Luís visitava diariamente os hospitais, em companhia do doutor Arthur Neiva, “o supremo chefe da luta” — até que os dois caíram doentes. Oferecimentos de locais para abrigar hospitais provisórios choviam de todo lado. O Palestra Itália, clube da colônia então jovem de quatro anos, ofereceu sua sede, na rua Libero Badaró. A Cruz Vermelha montou ali 81 leitos, financiados, entre outros, pela Companhia Puglisi, a Companhia Mecânica e Importadora de Siciliano, Vittorio Fasano e Cia., Rodolfo Crespi e o jornal Fanfulla . O Paulistano seguiu o exemplo, transformando em hospital uma das dependências da sede da Rua Colômbia. O Corinthians divulgou humilde comunicado afirmando que, sendo composto em sua maioria por operários, sentia-se “na obrigação de vir, apesar de sua insignificante valia, concorrer, com seu esforço […] para o alívio dos infelizes operários atacados pela pandemia que assola esta capital”. Assim, embora “pobre por sua natureza”, achou-se “forte para sair de seu modesto canto” e abrir uma lista de contribuições aos sócios e admiradores, cuja arrecadação seria destinada à Cruz Vermelha.

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O futebol, para esses clubes como para todos os outros, estava suspenso. A prática do esporte era considerada debilitadora e, portanto, capaz de tornar a pessoa vulnerável à gripe. No dia 20 de outubro, primeiro domingo depois da declaração do estado de epidemia, uma autoridade compareceu a cada um dos locais onde se travariam jogos dos “segundos teams” de futebol e informou que o campeonato estava suspenso. A vigilância mostrava-se severa. Pena que se mostrasse também capenga, porque os times, para não frustrar a assistência que já pagara ingresso, simularam um treino, em lugar do jogo oficial, praticando assim, do mesmo jeito, os temíveis exercícios corporais. Entendia-se que esforços físicos de outra natureza também seriam prejudiciais, e foi assim que um indignado leitor de O Estado de S. Paulo escreveu ao jornal denunciando que “o vício cada vez mais abre suas portas a uma mocidade que ainda não sopesou bem no seu espírito a gravidade da doença que invadiu os lares da nossa terra”. Prosseguia o leitor: “Indiferentes aos conselhos da ciência, quando prega a integridade de todo o vigor físico, a fim de que cada um possa resistir aos ataques da moléstia, bem como a abstenção do álcool, que só pode concorrer para definhar o organismo humano, muitos moços, e até uns velhos, passam as noites nas pensões chiques, entregues a orgias que se prolongam até a madrugada. Esses retardatários recolhem a casa precisamente à hora em que a garoa envolve a cidade, e numa debilidade tão grande que a gripe não pode ter grande dificuldade em lhes transmitir o respectivo bacilo”. Nos primeiros dias de novembro, quando a epidemia estava no auge, os hospitais improvisados eram 37. Entre eles, contavam-se os montados nos colégios Sion (avenida Higienópolis), São Luís (rua Bela Cintra), Mackenzie (rua Piauí) e Des Oiseaux (rua Caio Prado). Os “postos de socorro” eram 36. Os movimentos de solidariedade vinham de várias partes, e eram registrados minuciosamente nos jornais. As listas de subscrições — da Associação Comercial, dos jornais O Estado de S. Paulo e Fanfulla — eram atualizadas a cada dia, com nome do doador e quantia doada. Também havia oferecimentos em espécie. No dia 31 de outubro, a Cruz Vemelha informava que recebera os seguintes oferecimentos: da casa Mappin, um caminhão-auto- móvel; da fábrica Iracema, duas dúzias de pijamas; das sras. Paulina de Sousa Queirós, Andresina de Barros, Pádua Sales, Gastão de Mesquita, Francisco Raymond e Christina Colistino, camisolas; da Casa Lombarda, camisas e ceroulas; da Casa Guizo e Caruso, 60 quilos de macarrão; da Casa Cardoso e Fo, um livro-caixa; de Sebastião Pedroso, uma dúzia de vidros de xarope “Brasil”; de Pereira Ignacio e Cia., 48 garrafas de água Platina; de Octaviano Anacleto, uma lata de desinfectante; e de Joaquim Dias Galvão, uma caixa de latas de mate em “tablettes”. Também eram listados oferecimentos em instalações para serviços de saúde, e enfim informava-se que o sr. Pedro Vicente de Azevedo Jr. ofereceu seu automóvel e sua filhinha Gilda, os níqueis de seu cofre, na importância de 24 mil-réis.

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Arnaldo Vieira de Carvalho, além de ter mobilizado professores e alunos da Faculdade de Medicina para a assistência aos doentes, encarregava-se da administração dos hospitais improvisados, por delegação de Arthur Neiva. Emílio Ribas saiu de seu retiro de aposentado para também servir, mas sempre faltavam médicos. Não faltavam locais para instalação de hospitais e postos de socorro, ou ofertas de vários tipos, mas os médicos faltavam porque, entre outras razões, eles também ficavam doentes. O Serviço Sanitário apelava repetidamente para que outros se apresentassem. Pedia com insistência que as comunidades de imigrantes recrutassem os médicos existentes em seu meio. Também faltavam automóveis para transportar os médicos, e sucediam-se os apelos para que quem os tivesse os emprestasse. Quando isso começou a ser feito, o nome dos beneméritos emprestadores também era noticiado. A propaganda aproveitava a brecha e atacava, nos jornais. “Contra a influenza espanhola o melhor remédio é o Quinado Constantino”; “Mentholatum — poderoso preservativo contra a espanhola”; “Comunicam do Rio de Janeiro que muitas pessoas se têm libertado da influenza graças ao uso do preparado Odorana”; “A gripe espanhola já nos visitou e agora o melhor meio de prevenir-se contra a infecção consiste em higiene rigorosa e contínuas desinfecções com Creolisol”; “Srs. Médicos, na convalescença da gripe, o melhor tônico é o Vanadiol. Age com rapidez no levantamento de forças”; “Influenza espanhola — este novo flagelo que infelizmente começa a assolar o Brasil só poderá ser combatido com as eficazes e conhecidas Pílulas Sudoríficas de Luiz Carlos.” Correu o boato de que cachaça prevenia a doença. Daí que: “Todos os médicos aconselham como o melhor preservativo a caninha do Ó com limão, mais conhecida com o nome de batida. A melhor e mais pura caninha do Ó é a da marca Caipira, da qual são únicos depositários Fratelli Guidi, telefone 1837 Central, a quem devem ser feitos os pedidos imediatamente, a fim de evitar de ser atacados dessa terrível influenza”. Mais exótica ainda era a ideia de que o automóvel Torpedo seria capaz de velocidade tão grande que não daria oportunidade ao vírus de atacar os passageiros. Outro pouso seguro seria “Poços de Caldas – a Suíça brasileira — altitude 1200 metros — A esta estância a gripe espanhola não atinge”.

Se a incidência da doença era alta, a letalidade, até o fim de outubro, era baixa. O Serviço Sanitário insistia nesse ponto, para tranquilizar a população, e os jornais o secundavam. “Basta, como resistência à moléstia, tomar, com rigor, as poucas e fáceis precauções aconselhadas pelos médicos da cidade”, advertiu O Esta- do de S. Paulo. “Quanto ao resto, não se preocupar e falar do morbo o menos possível, procurando manter em redor uma atmosfera de tranquilidade e confiança.” Dias depois o jornal voltava a bater na mesma tecla, afirmando ser necessário “fugir ao terror, que tanta gente leviana inconsideravelmente espalha entre a população, transmitindo quanto boato inverídico aparece e até mentiras descabeladas”. Insistia-se em que os poucos casos fatais observados ocorriam em portadores de doenças ou vulnerabilidades preexistentes. O Correio Paulistano culpava as vítimas, pela mania de trabalhar: “[…] em geral os casos fatais têm sido observados em operários que, embora já se percebam doentes, insistem em suas ocupações laboriosas, só as abandonando quando vencidos pela afecção, cujo trata- mento se torna então mais difícil”. O primeiro óbito foi registrado oficialmente no dia 21 de outubro. Uma semana depois eles se situavam na casa dos dois dígitos, no dia 2 de novembro já eram 141 e nos dias seguintes chegavam perto de duzentos. O argumento da baixa letalidade caía por terra, e a cidade agora convivia com a cena de cadáveres sendo transportados pelas ruas. A Light, que já reservara bondes para o transporte de doentes, o fez também para o transporte de cadáveres. O escritor Paulo Duarte registrou em suas memórias uma viagem pela cidade, naqueles dias: “A avenida Paulista, onde fui tomar o bonde, quase deserta. Pouquíssimas pessoas no bonde, quase todos cheirando alguma coisa, uns cheiravam álcool mentolado ou canforado, outros álcool puro, um cheirava até a boca de um vidrinho de tintura de iodo. Quase todos com ar mais ou menos apavorado. Em toda a rua da Consolação, e isso era geral em toda a cidade, muito pouca gente a pé, alguns automóveis, principalmente de médicos, e os caminhões carregando cadáveres para os cemitérios. Esta paisagem tornou-se rotina. Já não se prestava atenção naqueles montes de caixões de defunto, todos iguais, uns sobre os outros nos caminhões”.

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O Serviço Sanitário passou a discriminar o registro de mortes por bairros, o que propiciou a comprovação estatística de que, como era previsível, a moléstia atacava mais pesado nos bairros operá- rios. A prefeitura, responsável pelos cemitérios, trabalhava para evitar o tétrico espetáculo de cadáveres na rua ou insepultos durante dias nos cemitérios, ocorrido no Rio. O amplo Palace Theatre, na rua Brigadeiro Luís Antônio, oferecido por seu proprietário à Municipalidade, armazenava caixões produzidos aos montes e cedi- dos gratuitamente, e servia de imenso necrotério. Construiu-se um novo cemitério na Lapa e ampliaram-se os do Araçá, da Consolação e do Brás. Abriram-se valas comuns no do Araçá e no do Brás, as primeiras, segundo seu administrador, não utilizadas, mas as segundas sim — enterraram-se ali 337 corpos, sem caixões, provindos principalmente do hospital da Hospedaria dos Imigrantes. Às pressas instalou-se luz elétrica nos cemitérios, para que enterramentos fossem realiza- dos à noite. O macabro e o medo perpas- savam o cotidiano da cidade. Contavam- se histórias de enterrados vivos. Espalhava-se que na Santa Casa e na Hospedaria dos Imigrantes ministrava-se o “chá da meia-noite” aos pacientes, para apressar o serviço da moléstia.

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No final de novembro o número de casos declinava fortemente. A vida começava a voltar ao normal. Nos primeiros dias de dezembro o comércio reabria as portas, como também as casas de espetáculo, e os torneios esportivos eram retomados. No dia 19 de dezembro, Arthur Neiva declarou encerrado o estado epidêmico na cidade, depois de 66 dias. Na conta oficial, 116 777 pessoas foram infectadas na cidade de São Paulo e 5 331 morreram. Cálculos extraoficiais fazem o número de infectados avançar para até 350 mil, o que corresponderia a dois terços dos habitantes. Relatório da Secretaria do Interior apontou que, se de 1909 a 1917 a média anual das mortes por doença infecciosa tinha sido de 15% do total, em 1918 elevara-se a 44,8%. Impossível saber quantas foram as vítimas no Brasil, dada a carência de registros na maior parte do país. O longo braço da gripe vitimou até soldados estacionados em Fernando de Noronha. De quebra levou um presidente da República, Rodrigues Alves, que, eleito para um segundo mandato, não chegou a tomar posse. No mundo, as estimativas vão de 20 milhões a 40 milhões de mortos — a mais devastadora epidemia registrada na história

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Em dezembro de 1917, o ex-promotor no interior do Estado e ex-fazendeiro taubateano José Bento Monteiro Lobato, então com 35 anos, mudou, com mulher e filhos, para São Paulo. Morou primeiro na rua Formosa, depois no número 9 da rua Genebra, onde o bairro do Bexiga se encontra com o Centro. Ainda não era o criador da Narizinho e da Emília, que só aparecerão dali a quatro anos. Não tinha nem livro publicado — Urupês, o primeiro, viria à luz em meados do ano seguinte — mas já era um nome conhecido nos meios literários e na imprensa. Desde que, em 1914, quando ainda era fazendeiro em Taubaté, O Estado de S. Paulo publicara dois artigos seus, um deles lançando a infeliz figura do Jeca Tatu, tornara-se colaborador frequente dos jornais. Em São Paulo, onde já morara no tempo de estudante de Direito, não teve dificuldades em se enturmar — na verdade já tinha aqui uma boa turma, seja de conhecimentos diretos, seja pessoas com quem se correspondia — e deu-se, entre outras atividades, a aquela conhecida como “sapo de redação”. O próprio Lobato definiria o espécime: “Sapo de redação quer dizer o sujeito, amigo da casa, que lá comparece todas as noites e fila o café, e faz daquilo o seu clube. Os sapos comentam as notícias do dia, dão palpites, tosam nos adversários e metem a ronca no próprio jornal”. Lobato exercia suas prerrogativas de sapo na redação do Estado, na praça Antônio Prado, no que era acompanhado, entre outros, pelo botânico Manequinho Lopes, os médicos Arnaldo Vieira de Carvalho e Oscar Freire, o humorista Filinto Lopes e o caricaturista Voltolino.

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Lobato encontrava-se no pleno exercício do ofício de sapo quando, como era inevitável, a gripe pegou forte também nos quadros da imprensa. No dia 29 de outubro, O Estado abria a seção “Influenza espanhola” na qual concentrava as notícias sobre o assunto, com uma nota que explicava: “O noticiário relativo à epidemia vai-se tornando demasiado extenso. O pessoal desta redação, como o das oficinas, está diminuído, e o trabalho que nos dão as subscrições, a colheita de notas e a enorme correspondência desta capital e de fora excede não só a capacidade de nosso esforço como excederia o espaço de que podemos dispor”. Pedia-se em seguida a todos os que tivessem comunicados a enviar à redação que “restringissem o quanto possível as suas palavras, cingindo-se exclusivamente àquilo que na realidade importa dar a público”. O Correio Paulistano também sentia o baque. “Em consequência da epidemia reinante, que tem atacado vários auxiliares desta folha”, advertia, no dia 30, “é possível que venham a dar-se quaisquer irregularidades ou deficiências na entrega do Correio Paulistano (…) Assim, desde já pedimos aos nossos assinantes que nos relevem as faltas que se verificarem”.

No Estado as baixas não pouparam a mais alta cúpula. Um dia caiu doente — ou simplesmente “caiu”, como se passou a dizer — a figura máxima da casa, Júlio Mesquita. Noutro caíram os filhos Júlio Filho, seu segundo na redação, e Francisco, o chefe da administração. Noutro ainda caiu o todo-poderoso secretário de redação, Nestor Rangel Pestana. Plínio Barreto assumiu em seu lugar, mas logo caiu também e assumiu Pinheiro Júnior, que não demorou a cair por sua vez. Na “vala comum”, como era chamado o salão em que se amontoavam os redatores e repórteres, a baixa era de 50% do pessoal. O jornal ameaçava não sair. Foi então que Lobato chamou o amigo Filinto Lopes e propôs: “Amigo Filinto, a situação é grave. O jornal está sem cabeça e correndo o risco de paralisação. E não há a quem recorrer. Os donos caíram, e caíram os gerentes e mais da metade do pessoal. Dos sapos só restamos nós dois. Até Maneco, apesar de sua grande barba, foi para a cama. Proponho que assumamos o comando. Do contrário, não teremos O Estado na rua a partir de amanhã”. Assim foi feito. Lobato aboletou-se na sala de Nestor Rangel Pestana e ali selecionava “do famoso bauzinho de ‘matéria’” o que devia sair no dia seguinte, “podando excessos, baixando os adjetivos, rabiscando instruções”. Ficou com medo de que, voltando os titulares, seria trata- do como um usurpador; ao contrário, recebeu agradecimentos. Mais alguns dias, e eis que o próprio Lobato adoece — ele, os quatro filhos e as encarregadas do serviço doméstico, segundo informa em carta ao amigo Godofredo Rangel. Só a mulher, Purezinha, foi poupada.

A gripe espanhola ainda serviria de tema a um conto, Fatia de Vida, inserido por Lobato em seu livro Negrinha. A lavadeira Isaura tinha em casa duas filhas, um filho e uma neta, das quais passou a cuidar quando, todos, adoeceram. Ela própria também pegou a gripe, mas não tinha tempo para si, e “sarou de pé”, enquanto se desvelava pela prole. Um dia, enquanto saíra às compras, uma vizinha apiedou-se dela e foi a um posto médico, pedir que a ajudassem. Veio a ambulância e levou os doentes para o hospital da Hospedaria dos Imigrantes. Isaura assustou-se. “Corriam boatos apavorantes a respeito desse hospital improvisado, onde — murmuravam — só se recebiam os pobres bem pobres e o tratamento era o que devia ser, porque pobre bem pobre não é bem gente.” Nada apavorava tanto o “povinho miúdo”, escreve Lobato, do que ir para a Imigração. Dali em diante a vida de Isaura foi uma desesperada peregrinação ao hospital, onde nunca lhe deixavam entrar e quase nunca lhe davam informação. Afinal ficou sabendo que uma filha pegara tifo. Qual? Não lhe disseram. Depois soube que a filha morrera, assim como o neto, e os dois sobre- viventes haviam sido removidos para o Hospital de Isolamento. Enfim, quando voltaram para casa, o filho apresentou-se “semimorto, cadavérico”, e a filha com uma tosse de tuberculosa. “Tudo porque me levaram de casa os filhos”, dizia Isaura. O conto reflete a convicção popular de que quando não se morria de gripe morria-se de hospital.

Extraído do capítulo “Dias de Medo e de Morte” do livro A Capital da Vertigem (Editora Objetiva, 2015), de Roberto Pompeu de Toledo.

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