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HC cria “covidário” e monta plano de catástrofe para coronavírus

Hospital das Clínicas isola unidade inteira, cria comitê de crise que se reúne ao ar livre para evitar contágio e amplia UTI para casos graves de Covid-19

Por Sérgio Quintella Atualizado em 17 abr 2020, 11h51 - Publicado em 17 abr 2020, 06h00

Apreensão, dor, medo e desespero são sentimentos que unem médicos, funcionários e principalmente pacientes acometidos pelo coronavírus no Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP, o maior complexo de saúde da América Latina. Na sala de emergência do pronto-socorro, na última segunda (13), dois homens haviam acabado de chegar. Inconscientes, ambos recebiam os suspiros de uma respiração mecânica, viabilizada após um procedimento de intubação. O quadro deles era grave e aguardavam exames para ir direto para a UTI. A poucos passos dali, em uma ala destinada a pacientes mais estabilizados que esperavam vagas na enfermaria, um médico com os óculos embaçados após realizar outra intubação às pressas comemora o resultado positivo do processo. “Eles pioram muito rapidamente. A evolução é muito rápida”, afirma, de longe. Sob forte risco de contágio, ele não podia tocar seu rosto para limpar as lentes, que permaneceriam úmidas, limitando sua visão, até que pudesse trocar os equipamentos de segurança, como touca, luvas, avental e máscaras. Ali, todos precisam se cobrir dos pés à cabeça.

Desde o dia 30 de março, o Instituto Central do HC, com 900 leitos (200 deles de UTI) e até então destinado a internações de pacientes das mais variadas especialidades médicas, foi isolado para atendimento exclusivo dos casos de coronavírus. Internamente, o prédio de 178 000 metros quadrados ganhou a alcunha de “covidário”. Na entrada do PS, localizado no subsolo, as dezenas de macas que antes entupiam os corredores agora estão do lado de fora, à espera dos doentes que chegam apenas de ambulância, transferidos de outras unidades (o hospital não recebe pacientes na porta, o que é alvo de uma ação judicial movida pelo Ministério Público). Entre os dias 7 e 14 de abril, a Vejinha acompanhou parte da rotina do local, presenciou treinamentos e reuniões e ouviu dezenas de relatos. No primeiro dia, a UTI contava com 119 pacientes. No dia 14, eram 167, uma alta de 40%. Ao todo, são 300 pacientes internados no covidário por enquanto. A utilização dos leitos menos complexos precisa ser gradativa para não sobrecarregar a limitada área de unidade de terapia intensiva. Outro dado impactante é o número de óbitos. No sábado passado (11), foram contabilizadas vinte mortes desde o fim de março, segundo a reportagem apurou. Dois dias depois, o número passou para 33, e na última terça-feira estava em 39 (em quinze dias de atendimento). Os corpos são levados para o Serviço de Verificação de Óbito (SVO) por um túnel que liga os dois prédios. Como comparação, o Hospital Albert Einstein, que registrou o primeiro caso de contaminação por coronavírus em São Paulo, no dia 26 de fevereiro, levou 39 dias para registrar a primeira morte, ocorrida em 5 de abril. O estado tinha até quarta (15) 695 óbitos.

Foto: arquivo pessoal/Veja SP

À medida que os casos graves vão aumentando, o HC estuda a abertura de mais 100 leitos de UTI. Espaço para isso não falta. O desafio é financeiro e de pessoal. O conjunto básico de cama hospitalar, respirador artificial e monitor custa em torno de 400 000 reais. Ao todo, a conta a ser bancada pelo governo do estado será de 40 milhões de reais. “Não adianta ter o carro e a estrada, é preciso combustível e alguém que pilote”, afirma o professor da USP Carlos Carvalho, diretor da divisão de pneumologia do Incor-HC. “Em 2018 inauguramos dez leitos de UTI e contratamos sessenta profissionais, entre enfermeiros, técnicos de enfermagem e médicos. Para as mesmas dez unidades de Covid, precisaremos de pelo menos oitenta novos funcionários.”

Reunião do comitê de crise: conversa do lado de fora Alexandre Battibugli/Veja SP

Para que o Hospital das Clínicas pudesse colocar em prática o isolamento do Instituto Central, seu comitê de crise precisou entrar em cena. Criado em 2012 e acionado pela primeira vez no ano seguinte, após o incêndio no Memorial da América Latina (na ocasião, mais de trinta bombeiros foram intoxicados e precisaram de atendimentos simultâneos), o grupo se prepara para a catástrofe do coronavírus desde janeiro. O custo até aqui foi de 160 milhões de reais, entre medicamentos, insumos, equipamentos de proteção individual (EPIs) e recursos humanos. O primeiro teste foi remover os cerca de 500 pacientes internados com outras doenças. Muitos receberam alta e cerca de 300 foram instalados nos outros sete institutos, como ortopedia e o Instituto do Coração (Incor). Esse último ficou responsável também por absorver alguns dos principais atendimentos de emergência que eram feitos no prédio central. “As outras doenças não param de ocorrer”, afirma Beatriz Perondi, coordenadora do comitê. A rotina do grupo, composto de cerca de vinte pessoas com poder de decisão, oriundas de várias áreas, da TI (tecnologia da informação) à UTI, começa por volta das 8 horas. É nesse horário que elas se reúnem no estacionamento do covidário. O motivo é clínico: risco de contágio em ambientes fechados. Mesmo assim, sete desses líderes contraíram coronavírus e seguiram o protocolo de ficar afastados por duas semanas.

Foto: Stela Murgel/Veja SP

Isso não significa que muitos desses acometidos pela Covid-19 ficaram sem trabalhar no comitê e nas demais funções que lhes competem. Superintendente do HC, o engenheiro Antonio José Rodrigues Pereira, o Tom Zé (sem nenhuma referência física ou artística com o cantor famoso), está de quarentena em casa, mas não desgruda do celular e do notebook. “Estou em isolamento completo, não saio do quarto, mas continuo trabalhando via videoconferência.” Entre suas atribuições apareceu uma nova: angariar doações para o hospital. “O Habib’s doará 6 000 refeições diárias, a Vigor disponibilizou seis geladeiras com iogurtes e a Hering vai doar camisetas. Nunca vi doações nesse volume”, afirma Tom Zé. A maior delas partiu do Banco BTG Pactual, que disponibilizou 7 milhões de reais para a contratação de 1 050 plantões de médicos para atuar nas enfermarias e UTIs do covidário. Parte dessas doações foi viabilizada por uma plataforma recém-criada pelo empresário Pablo Lobo, que ofereceu seus serviços gratuitamente por um ano. A meta é arrecadar 250 milhões de reais.

Tom Zé: contaminação, trabalho remoto e doações Divulgação/Divulgação

A contaminação pelo coronavírus não atingiu apenas os profissionais do comitê de crise. Dos 21 000 funcionários do HC, 200 estão afastados atualmente com sintomas ou com a confirmação da patologia do momento. O risco de contágio é um dos principais fatores de stress e sintomas de depressão por parte dos funcionários que trabalham na linha de frente contra a doença. “Tenho marido, filhos, pais e sinto que posso levar o vírus para casa, mas fiz essa opção quando me formei técnica de enfermagem”, diz uma profissional que não quer se identificar e se queixa da falta de atenção que sua categoria recebe. “Nas UTIs e enfermarias só há uma copa por andar. Cada um fica nesse espaço por no máximo quinze minutos, para dar lugar ao outro. Não temos como sair para hora de almoço e descanso. Ao contrário dos médicos, que têm à disposição quartos com camas.”

Foto: arquivo pessoal/Veja SP

Os casos de apreensão de funcionários levou o Instituto de Psiquiatria a criar um canal exclusivo para atender a demandas provocadas pela Covid-19. Entre as preocupações estão a falta de EPIs, a necessidade, em diversas situações, de afastamento familiar e o medo de contaminação (deles e dos parentes). “Muitos ficam estigmatizados pela população e pela família. O pessoal não entra nem no elevador com eles. Isso leva a absenteísmo, pedidos de afastamento e de demissão”, afirma o professor Eurípedes Constantino Miguel Filho, do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. “Na China, os maiores riscos envolveram enfermeiras mulheres com muitos anos de casa, uma doença crônica prévia ou caso de transtorno mental.”

Psiquiatra Miguel Filho: suporte aos funcionários Alexandre Battibugli/Veja SP

Enquanto os profissionais da saúde trabalham com medo, os pacientes que ficam internados nas enfermarias e UTIs do Hospital das Clínicas relatam os momentos de dor, apreensão e solidão.“Foram quinze dias de idas e vindas a hospitais da periferia. Cada vez era uma espera enorme no meio de várias pessoas. Sentia muita dor no corpo e falta de ar”, afirma o motorista de aplicativo Sebastião Édson de Oliveira, 56. Casado e pai de três filhos, ele não sabe como contraiu o vírus, mas não se esquece dos momentos pelos quais passou nos quinze dias de internação, dois deles intubado na UTI do Hospital das Clínicas. “Perdi todos os sentidos. Quando acordei no quarto, já sem aqueles tubos, a dor maior foi ficar sozinho, isolado. A enfermeira, para falar com você, veste várias peças, que em seguida precisam ser jogadas fora. Além disso, fiquei incomunicável, sem celular, dependendo do contato da assistente social. Só depois de muitos dias consegui falar com minha filha para ela me trazer umas roupas.” Em casa e se recuperando bem, Sebastião, morador de um bairro próximo ao Pico do Jaraguá, tenta obter da Uber uma prometida ajuda financeira para motoristas acometidos pelo coronavírus. A empresa fará uma média dos últimos quinze dias trabalhados e fornecerá a ajuda. “Mas até agora não consegui nenhum centavo”, queixa-se. Procurada, a Uber disse que recebeu a solicitação e que a atenderá dentro do prazo de até dez dias úteis. Para casos de internações futuras, o hospital adquiriu por meio de doação três robôs que possuem um tablet e poderão ser utilizados na comunicação entre paciente e família. “Um preso em solitária tem direito a uma hora de banho de sol. O paciente internado por isolamento da Covid-19 não tem direito a nada. É algo com que a gente tem se preocupado”, diz a médica Lilian Aira, responsável pelos robôs do HC.

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Robô acoplado a tablet: promessa de isolamento mais ameno Alexandre Battibugli/Veja SP

Não foi só uma mudança física que ocorreu no Instituto Central. Médicos e enfermeiros de outras áreas foram convocados ou se ofereceram para atender no foco do coronavírus. A cirurgiã de transplante de fígado Luciana Haddad foi uma delas. “No começo, a maioria de área cirúrgica estava relutante. O receio era cuidar de um paciente com necessidade de intubação, com rotinas a que não estávamos habituados, mas fomos ganhando confiança e nos acostumando.” Outra que viu sua rotina mudar do dia para a noite foi a reumatologista Karina Bonfiglioli, habituada a tratar doenças autoimunes que comprometem o sistema locomotor, como lúpus. “Eu não cuidava de pacientes em pronto-socorro e enfermaria desde a residência aqui mesmo no HC, em 2006. Não intubo paciente há anos.” Por enquanto ela não precisou fazer o procedimento, treinado em bonecos antes do início do novo trabalho. Outras aulas foram sobre como todos devem colocar e tirar o avental e as luvas. Para Karina, a mudança na rotina, no entanto, trouxe um efeito colateral. “Fechei meu consultório na Vila Nova Conceição e em Campinas. Não posso expor meus pacientes a risco. Do ponto de vista financeiro é muito complicado, mas atendo alguns pacientes ocasionalmente on-line.”

Se fosse uma cidade, o Hospital das Clínicas teria uma população do tamanho da de Mococa, no interior paulista. Por dia, além dos 21 000 funcionários, passam 45 000 pessoas, número que caiu para 27 000 em março. Outra queda foi no número de operações e procedimentos. Entre janeiro e abril, as cirurgias eletivas caíram 25% e em abril esse número sofrerá um declínio muito maior. Por outro lado, o que não para de subir é o uso de máscaras. Antes da pandemia, eram consumidas 4 000 unidades cirúrgicas por dia. Agora, o número foi multiplicado por três e o hospital trabalha em um processo piloto de reutilização de alguns modelos.

Foto: Alexandre Battibugli/Veja SP

Em confinamento desde 14 de março, a Espanha foi pega de surpresa pela pandemia. Em 25 de janeiro, o diretor do Centro de Coordenação de Alertas e Emergências Sanitárias afirmou a um jornal local que o sistema de saúde pública do país e os hospitais estavam preparados para lidar com uma ainda desacreditada propagação do vírus. Na Itália, o prefeito de Milão, Giuseppe Sala, pediu desculpas após ter apoiado, no fim de fevereiro, uma campanha contra o fechamento dos comércios na cidade. Em Nova York, Manhattan viu uma de suas catedrais, a St. John the Divine, ganhar barracas médicas e transformar-se em um hospital de campanha, além de outro ser instalado no Central Park. A cidade tem mais casos que países inteiros: mais de 200 000 confirmados e 10 000 mortes, e conta com necrotérios sobrecarregados. Antecipando-se ao pico da pandemia em São Paulo, que deve ocorrer nas próximas semanas, o HC corre para atender os casos mais graves de uma rede pública saturada, enquanto precisa continuar recebendo casos extremos, como acidentes de trânsito. “Por isso vale o nosso recado: fiquem em casa”, afirma a diretora clínica do Hospital das Clínicas, Eloisa Bonfá. (Colaborou Guilherme Queiroz).

Paciente intubado no pronto-socorro: 39 mortes em duas semanas Alexandre Battibugli/Veja SP

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Publicado em VEJA SÃO PAULO de 22 de abril de 2020, edição nº 2683.

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