Para atrair fieis, espaços religiosos investem em tecnologia

"Netflix" gospel, aplicativos, transmissões ao vivo e outras modernidades nos cultos religiosos da capital

Uma das primeiras passagens da Bíblia explica que, durante a criação do universo, Deus acabou com as trevas com apenas duas palavras: “Haja luz”. E, então, o mundo saiu da penumbra. Na Paróquia Imaculado Coração de Maria, na Vila Buarque, o milagre da iluminação ocorreu com a ajuda da tecnologia.

Há dois anos, instalaram-se ali 4 000 lâmpadas de LED, adaptadas à construção do século XIX. Para acionar o sistema, basta usar um programa em um tablet. “Dá para selecionar entre decoração para casamento, batizado, missa…”, enumera Brás Lorenzetti, o padre do local.

A estrutura de 190 000 reais, bancada por doações, não se mostrou a única inovação que o endereço ganhou nos últimos tempos. Por lá, funciona ainda um projetor utilizado em celebrações musicais, um velário eletrônico ligado com moedinhas (que arrecada cerca de 1 500 reais por mês) e um dispenser de água benta em gotas com sensor de movimento. Os dois últimos foram desenvolvidos por João Barassal Neto, dono da JBN Electronics, empresa responsável pela venda de engenhocas do tipo.

Seu novo aparato, que deve ser lançado no fim do ano, consiste em uma âmbula, ou seja, uma espécie de taça banhada a ouro, iluminada por um anel de LED. Deve custar por volta de 2 000 reais. “Quero manter as hóstias iluminadas na hora da comunhão”, explica Barassal.

Jose Goldfarb e a cantora Margot Kullock: transmissões na sinagoga (Ricado D'angelo/Veja SP)

O templo da região central não é exceção. Cada vez mais, espaços religiosos têm apostado em novas tecnologias para disseminar mensagens divinas e atrair fiéis. Nesse embalo, vale desde apostar em ideias como rezar o terço ao vivo pelo Facebook, como faz o padre Marcelo Rossi, até investir pesado em estruturas de áudio e vídeo para músico profissional nenhum botar defeito.

As companhias que trabalham com esse segmento encontram um mercado em ascensão. No ano passado, os locais de cultos e reuniões das mais diferentes religiões e correntes filosóficas, de igrejas católicas a centros espíritas, movimentaram aproximadamente 6,5 bilhões de reais na cidade, de acordo com levantamento da Associação Brasileira de Empresas e Profissionais Evangélicos (Abrepe).

Nessa conta entram doações, prestação de serviços e valores arrecadados com a venda de artigos e a locação de espaços. “Em 2017, o número deve chegar a 7 bilhões”, calcula Marcelo Rebello, presidente da Abrepe. Exemplo da onda positiva é a Church Tech Expo, feira de tecnologia voltada para o setor gospel que teve sua terceira edição em junho e movimentou, em um fim de semana, 40 milhões de reais, 10% a mais do que o registrado na edição passada. “Trata-se de uma forma alternativa de comunicação, principalmente com os jovens”, analisa Victor Hugo Piiroja, presidente da feira.

As campeãs de procura são as ferramentas para transmissão ao vivo, na web, de cultos e missas, com qualidade profissional. Uma das empresas no ramo, especializada em servidores de transmissão de vídeo, a Cross Host comanda projetos para gigantes como a Igreja Internacional da Graça de Deus, do bispo R.R. Soares, e a Igreja Mundial do Poder de Deus, do apóstolo Valdemiro Santiago, já bastante presentes na televisão.  A mensalidade de seus serviços vale até 450 reais.

Cinema 3D no Santuário Nacional de Aparecida: dez projetores (Julio Martin Portes/Veja SP)

Para alguns clientes, como a Igreja do Evangelho Quadrangular de Limeira, no interior, a companhia realiza até três programas em real time no mesmo dia. Há, porém, quem faça os lives de forma caseira e com custo zero. É o caso da sinagoga do Clube A Hebraica, na Zona Oeste. Lá, o diretor Jose Luiz Goldfarb faz as vezes de cinegrafista em registros para o Facebook, gravados diretamente do altar, quase sempre durante as celebrações do shabat, às sextas à noite, quando ocorrem orações, leituras e cantos.

Alguns altares tornaram-se locais em que celulares e câmeras não despertam olhares de reprovação e desconfiança como antigamente. Na Igreja Batista Memorial de Alphaville, o pastor Sidney Costa costuma fazer o sermão dominical com a ajuda de um tablet e cinco telões de boa definição. Lê trechos bíblicos e exibe projeções cujo formato lembra o das palestras do TED, populares na internet, com estilo moderno e conteúdo resumido em peças curtas de modo bastante didático.

Os fiéis são incentivados a acessar o aplicativo do espaço pelo celular para acompanhar as celebrações. “Estamos instalando uma rede de wi-fi aberta”, diz Costa. Ele conta, satisfeito, que as modernidades ajudaram na multiplicação de frequentadores nos últimos tempos. Há três anos, eram 500 por fim de semana. Atualmente, são cerca de 5 000 pessoas.

Uma legião de aplicativos dominou esse e outros endereços de diversas denominações religiosas. Por meio deles, é possível conversar com pastores on-line, ler a Bíblia e até pagar o dízimo. Na plataforma da Universal do Reino de Deus, disponível para iOS e Android, para doar uma quantia em reais, dólares ou mesmo euros, basta digitar os dados do cartão de crédito ou gerar um boleto bancário.

Igreja Batista, em Alphaville: celular liberado no culto (Ricardo D'angelo/Veja SP)

Uma das igrejas que mais apostam na área de apps é a Adventista do Sétimo Dia, que conta com 420 congregações na capital e investe 2 milhões de reais por ano para manter funcionando cinquenta programas próprios — entre eles, um simulador de realidade virtual, um relógio que avisa o momento em que o sol se põe na sexta-feira (quando algumas atividades devem ser interrompidas até o fim de sábado, de acordo com a doutrina) e um localizador de templos.

No entanto, o grande diferencial fica a cargo dos joguinhos infantis. É possível, por exemplo, brincar com Sansão e Davi. “Achamos melhor que nossa filha se divirta com isso do que com games de outros temas”, diz Sheila Neves, ao lado do marido, Roberto Roberti, e da pequena Clara, de 4 anos. Os três frequentam a Igreja Adventista do Sétimo Dia de Moema e aguardam o nascimento do segundo filho do casal, João Miguel, previsto para dezembro.

Outro lançamento recente da Adventista, o Feliz7Play funciona tal e qual uma Netflix divina. Permite assistir a filmes como Homens de Fé e à animação Você Sabe o que É Bullying?, desenvolvidos pela própria instituição.

Iniciativas de vídeos desse tipo começaram a aparecer por aqui no primeiro semestre do ano passado. Além da Feliz-7Play, têm vez a Univer, da Igreja Universal do Reino de Deus, e a Gospel Play, criada pelo pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. A plataforma de Malafaia tem 10 000 assinantes no Estado de São Paulo e oferece 1 000 títulos, de desenhos a pregações — as assinaturas mensais começam em 14,99 reais. O custo estimado para o desenvolvimento de um site desse tipo é de 60 000 reais.

A família Roberti: usuária dos aplicativos da Igreja Adventista (Reinaldo Canato/Veja SP)

Não ficam de fora das romarias de novidades outras redes sociais do dia a dia como o WhatsApp. As mensagens do padre João Carlos Almeida, mais conhecido como Joãozinho, morador de Taubaté, no interior paulista, chegam para uma rede com mais de 250 grupos de conversa.

Com a ajuda de uma força-tarefa de fiéis, ele dispara sermões diários com até 140 caracteres, acompanhados de áudio de um minuto. Os usuários das comunidades são incentivados a repassar as mensagens para amigos e familiares. Para aproveitar a bênção, há apenas uma regra: não é permitido enviar frases (nem emojis) nas conversas das quais Almeida participa.

Outras fés também seguem a onda tecnológica. Faz sucesso no YouTube o sacerdote de umbanda Alan Barbieri, dono de um canal com 6,2 milhões de visualizações e 96 000 inscritos. Ali, ele tira dúvidas sobre a religião e esclarece questões sobre assuntos como mediunidade e incorporação. “Recebo cerca de 500 mensagens nas redes sociais por dia”, estima.

Desde que aumentou a produção do canal, em 2013, o Templo Escola Casa de Lei, fundado por ele na Zona Leste, passou a ser mais frequentado. “Quando começamos, em 2010, compareciam oitenta pessoas por semana”, lembra. “Hoje, a média é de 400.”

Alan Barbieri: 6,2 milhões de visualizações em canal de umbanda no YouTube (Ricardo D'angelo/Veja SP)

No estacionamento do Santuário Nacional de Aparecida, a 180 quilômetros da capital, foram instalados, em outubro de 2016, dez projetores com lentes especiais (ao custo de 15 000 dólares cada um). Eles projetam um curta-metragem sobre a trajetória da padroeira do Brasil em formato 3D, sem que haja a necessidade de óculos próprios para vê-lo.

O ingresso para a sessão custa a partir de 14,99 reais. A basílica negocia ainda realizar uma ação em video mapping (ou seja, projeções mapeadas) no próximo 12 de outubro, dia da santa. Exibição parecida ocorreu na capital em 2014, na inauguração do suntuoso Templo de Salomão, no Brás. Vídeos recriaram a história desde Abraão até a fundação da Universal do Reino de Deus. O local é um dos endereços religiosos mais modernos do Brasil, com iluminação de LED, sistema de áudio de última geração, entre outros.

No meio de tanta aparelhagem, entretanto, a construção de Edir Macedo não permite a entrada de celulares. No interior do templo, de 100 000 metros quadrados, são vetados vídeos, selfies, posts e até o aplicativo da própria Universal. O motivo? Manter o foco durante os cultos.

A FÉ QUE MOVE MEGABYTES

Algumas inovações tecnológicas da área

Quem sabe faz ao vivo. Cultos, missas e orações passaram a ser transmitidos em tempo real na web, às vezes com equipamento profissional

Netflix bíblica. Esqueça Breaking Bad e House of Cards. Em apps desse tipo, são permitidos apenas conteúdos edificantes como o filme Homens de Fé.

Dízimo on-line. Pelos aplicativos, dá para fazer pagamentos com cartão de crédito (até em dólar e euro) ou por meio de boletos.

Novíssimo Testamento. Trechos e reflexões da Bíblia são disponibilizados em smartphones.

“Zap” da fé. Redes sociais como WhatsApp e YouTube viraram ferramentas de evangelização.

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