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Não sou super-herói, mas não posso parar, diz padre que cuida de imigrante

Diário dos sem-quarentena: transmissão de missa on-line e aumento de doações na rotina do pároco Paolo Parise, da Missão Paz

Por Padre Paolo Parise, 53, é pároco da Igreja Nossa Senhora da Paz e líder do projeto Missão Paz, no Glicério, em depoimento a Sérgio Quintella Atualizado em 1 Maio 2020, 11h15 - Publicado em 1 Maio 2020, 06h00

“Antes da pandemia, todas as manhãs, vinham cerca de setenta estrangeiros estudar português aqui na Missão Paz. Outras centenas nos procuravam em busca de emprego e realização de cursos, além de auxílio na parte de documentação, que sempre ajudamos a conseguir. E nosso trabalho não para. Passam por aqui anualmente entre 8 000 e 9 000 pessoas vindas de outros países. Nosso espaço é composto da Igreja Nossa Senhora da Paz, da Casa do Migrante, da área de serviços e do centro de ensino. Vamos começar na semana que vem as aulas não presenciais, que vão atingir parte dos nossos alunos. Na saúde, temos seis médicos voluntários, entre clínicos gerais, pediatras e psiquiatras, que atendiam com frequência os imigrantes. Mas agora os agendamentos das consultas estão suspensos. Na casa, há 66 pessoas acolhidas, de dezesseis nacionalidades, que estão em quarentena. A capacidade é de 110 habitantes, mas não podemos receber mais ninguém. Vinte dos abrigados iniciaram o ramadã (mês sagrado para os muçulmanos). Nós nos adaptamos a eles. Aliás, respeitamos profundamente a identidade do outro, incluindo a religiosa. A situação da casa hoje, por causa da pandemia, é nosso grande desafio. Ninguém entra, ninguém sai. Eles não podem procurar trabalho, estudo, nem passear no Parque Ibirapuera, o que gostavam de fazer. Venezuelanos e angolanos são o grupo principal. Muitos vieram para o Brasil em busca de trabalho, para mandar dinheiro à família, mas se viram de uma hora para outra sem poder sair. Falamos a eles dos riscos de contaminação, e dois homens não aceitaram as regras. Foram embora e não puderam mais voltar. Temos de ajudar essas pessoas a administrar a nova rotina. Fazemos sessões de cinema, abrimos a internet para que todos possam se comunicar com os familiares. Na semana passada recebemos voluntários de educação física que vieram, de máscara, dar aulas a eles. Também vieram professores de dança para promover apresentações. Foi uma grande troca de cultura. A casa possui quartos coletivos, com alas masculina e feminina. As famílias estão separadas, sabemos que não é o ideal. Entregamos um projeto à prefeitura para construirmos uma área destinada a elas, mas nosso prédio é tombado e não é tão fácil fazer mudança alguma.

Alexandre Battibugli/Veja SP

A crise econômica impactou diretamente a situação dos imigrantes. Os mais vulneráveis são os bolivianos, que estão no mundo da costura. Com as lojas fechadas, eles perderam o emprego e não têm como pagar aluguel. Muitos estão sendo explorados para costurar máscaras de tecido. Ganham para isso apenas 15 centavos por peça. Eles pagam a eletricidade e a linha, só recebem o tecido. No fim, não ganham nada. Outro dia atendemos uma mulher boliviana que veio de Guarulhos, com duas filhas, para pedir cesta básica. Além de enfrentar a situação financeira, ela ainda luta contra um câncer. Os refugiados sírios, congoleses e venezuelanos, que lidam com venda de comida, também ficaram sem renda. Eles vêm sempre pedir cestas básicas. No sábado passado (25) distribuímos 350 cestas. Separamos as entregas por nacionalidade.

Alexandre Battibugli/Veja SP

Por outro lado, as doações aumentaram muito. Vejo depósitos de 20, 30, 50 reais. São pessoas sem posse que se sensibilizam com a situação atual. Empresas, grandes e pequenas, ligam e dizem que vão entregar as doações na portaria. Tem quem faça a compra no mercado e dê nosso endereço como local de recebimento. Recentemente um arquiteto cujo pai se casou com a mãe aqui na Igreja Nossa Senhora da Paz fez uma grande doação de alimentos.

A Missão Paz é ligada à Congregação dos Missionários Scalabrinianos e está presente em mais de trinta países. Aqui no Glicério estamos desde os anos 30 do século passado. No início, o projeto era voltado apenas para os italianos, mas ao longo das décadas seus serviços foram se modificando. Do ponto de vista religioso, a principal mudança nas últimas semanas foi na realização das missas. Estamos transmitindo-as pelo Facebook, e não há público presente. Uma delas é celebrada em italiano. Colegas nossos da Itália mandaram nomes de pessoas que morreram em Roma, Gênova, entre outras cidades. Sou italiano e cheguei ao Brasil em 1992. Fui e voltei mais duas vezes e estou aqui de forma definitiva desde 2010. Nas redes sociais, tem muita gente que critica nosso trabalho com estrangeiros. Dizem que deveríamos ajudar brasileiros. Mas ajudamos a todos. Eu não atuo sozinho. São 100 voluntários, 36 funcionários, quinze estagiários e dois colegas padres. Não sou um super-herói, tem uma grande equipe trabalhando em conjunto.”

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 6 de maio de 2020, edição nº 2685.

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