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Destruição após chuvas na Baixada Santista é maior nos bairros mais pobres

Mais de 10 dias depois dos deslizamentos na Baixada Santista, as equipes de buscas ainda tentam encontrar vítimas embaixo dos escombros. Saiba mais

Por EBC - 12 Mar 2020, 11h09

Mais de 10 dias depois dos deslizamentos na Baixada Santista, as equipes de buscas ainda tentam encontrar vítimas embaixo dos escombros.

Trinta e quatro pessoas continuam desaparecidas. Agora, todas as buscas concentram-se no Guarujá, a cidade mais atingida e que registrou 31 das 44 mortes já confirmadas.

A catástrofe não foi só culpa da natureza. As desigualdades sociais da região vieram à tona com os desmoronamentos. No Guarujá, o número de moradias precárias como as que foram atingidas pelos desmoronamentos é similar ao número de imóveis vazios usados para veraneio.

Joelson dos Santos não se esquece do dia em que a terra veio abaixo na Barreira do João Guarda, no Guarujá.

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Sonora: “Vendo aquele monte de bagaceira estrondando tudo, uma pedra batia na outra, o chão estremecia, acordamos todo mundo. Apavorado. Os vizinhos tudo correndo, um pro lado outro pro outro, pra socorrer.”

A avalanche enterrou cerca de 40 casas e parou atrás do lugar onde ele vivia com a esposa que está grávida. O imóvel resistiu ao deslizamento, mas foi condenado por estar em área de risco.

Na encosta de um morro em uma área de preservação ambiental, a casa de Joelson se encaixava na categoria de habitação precária.

Sonora: “Que aqui foi invasão, né? O pessoal invadiu, o pessoal ia pegando, ia vendendo umas partes, ia vendendo de um e de outro. Eu não tinha onde ir, ele facilitou pra mim, aí eu comprei e tô aqui nessa situação. ‘E quanto você investiu aqui?’ Não sei. Não tenho nem ideia. Ia ali, comprava meio metro de areia, depois outro metro. Só sei que quando eu comprei o terreno paguei 13 mil reais.”

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A história de Joelson não é exceção. Segundo a prefeitura do Guarujá, em 2011, praticamente um terço das moradias da cidade estava em assentamentos precários, quase 45 mil imóveis.

Joelson saiu do sertão da Bahia para o litoral paulista em 2012 para trabalhar no mercado imobiliário da cidade.

A construção de condomínios de alto padrão para abrigar famílias nas férias de verão é um negócio que movimenta a economia do Guarujá.

Segundo o IBGE, em 2010, a cidade tinha mais de 46 mil imóveis de ocupação temporária, as casas de veraneio que respondem pelo outro terço das moradias do Guarujá.

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O urbanista e cofundador do Instituto Elos, Rodrigo Alonso, explica que o número de imóveis usados como segunda residência vazios cresceu junto com o número de famílias que mal conseguem ter a primeira.

Sonora: “As favelas cresceram proporcionalmente ao que cresceu toda a ocupação das orlas. Toda a exploração turística da cidade, só que nunca teve um trabalho social, de urbanização, de pessoas que foram ficando, pessoas que foram chamadas pra lá pra construir prédios, uma cidade que se voltou pra orla da praia e deixou sua periferia abandonada.”

O problema é conhecido. Mas as soluções demoram. Há mais de 12 anos começou a ser construído o conjunto habitacional Parque da Montanha, com quase 2 mil unidades habitacionais que abrigariam famílias de duas comunidades do Guarujá. A obra nunca foi concluída. Segundo a prefeitura, 180 unidades devem ser entregues em breve, mas não informou o prazo.

Do total de moradias precárias, 4,6 mil estão em área de risco no Guarujá. 1.644 moradias em áreas de alto risco. Depois dos deslizamentos, algumas já foram interditadas e, segundo a prefeitura, vão ser demolidas assim como a casa de Joelson.

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