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Depressão, ansiedade, luto: psicóloga conta a rotina das consultas on-line

Profissional relata um aumento de pacientes ansiosos, com humor deprimido e dificuldade em concretizar a morte de entes queridos

Por Beatriz Oliveira Mazzoco, 33 anos, em depoimento a Mariani Campos - Atualizado em 3 jul 2020, 08h03 - Publicado em 3 jul 2020, 06h00

“Estou trabalhando remotamente desde o dia 15 de março. De lá para cá, houve uma queda nos atendimentos particulares, tendo em vista que muitas pessoas estão com restrições financeiras. Ao mesmo tempo, a procura por consultas pelo convênio cresceu. Não acredito que a terapia perca a qualidade por migrar do presencial para o on-line. Já trabalhava dessa maneira antes do isolamento e há outras coisas para avaliar além da resposta física do paciente ao que é abordado nas sessões. Mas isso também é possível por vídeo, não compromete o diagnóstico.

As queixas mais recorrentes neste período são sobre ansiedade e humor deprimido. Para o ansioso, os pensamentos repetitivos não cessam, há dificuldades com o sono, medo do amanhã. O deprimido encontra problemas em realizar tarefas simples do dia a dia, se sente frustrado, insatisfeito e incapaz, com menos energia. Alguns pacientes apresentam pensamento mais catastrófico em resposta tanto à pandemia quanto à crise política e econômica que se instala no país. Estão bem pessimistas. Há uma grande dificuldade em encontrar uma resposta para o cenário pós-Covid-19.

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Para quem precisou abrir mão da terapia neste momento, os sintomas podem ser piores, já que é uma perda de amparo em uma situação no mínimo complicada. Essa falta de suporte agrava situações que, por si só, já são devastadoras, como a impossibilidade de enterrar um ente querido. Tenho uma paciente idosa que perdeu a mãe para o coronavírus em menos de três dias após o diagnóstico da doença. Ela ainda fala da mãe no presente, “minha mãe é uma pessoa assim”. Tem muita dificuldade em aceitar a morte. Parte disso se deve à falta dos ritos de passagem: não poder se despedir, nem ir ao velório nem enterrar. Não recebeu o amparo que normalmente é destinado às pessoas que estão de luto. Essa paciente se queixa pois não se sente legitimada em sua dor.

Diante de todo esse cenário, tenho percebido como está em evidência a importância da psicologia. Isso vai quebrando os mitos e estigmas que a profissão carrega, das crenças associadas à loucura. No entanto, lidar com esses descréditos aumenta a necessidade de apoiar projetos científicos, fornecer as informações corretas, explicar. Quem trabalha na área da saúde tem essa função psicoeducativa, isso já fez parte da minha atuação profissional várias vezes. Torna-se quase uma obrigação para o processo de trabalho fortalecer a ciência.

Particularmente, sou uma pessoa caseira, mas sinto falta da minha rotina, do contato com os pacientes. Antes eu passava o dia todo na rua, me alimentava fora, ia à academia. Agora a rotina doméstica foi embutida na rotina de trabalho. Eu e meu marido tivemos pequenos impactos financeiros, mas não podemos nos esquecer da nossa posição de privilégio de poder ficar em casa num momento como este.”

Acompanhe a profissional no Instagram: @psicoachbiamazzoco

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 8 de julho de 2020, edição nº 2694. 

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