De alertas a jardins de chuva, como a cidade pode conter o avanço das enchentes

São Paulo volta a sofrer com efeitos de tempestades e região na várzea do Rio Tietê segue inundada

Por Sérgio Quintella Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
7 fev 2025, 08h00
Ruas alagadas no Jardim Helena: um dos nove bairros da região do Jardim Pantanal
Ruas alagadas no Jardim Helena, um dos bairros da região do Jardim Pantanal (Ato Press/FolhAPress/Veja SP)
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Os últimos dias de janeiro e os primeiros deste mês foram marcados por cenas e situações climáticas além do esperado pelos paulistanos.

Se é certo que em todo verão os casos de enchentes, alagamentos, deslizamentos, entre outros, são comuns, por outro lado a intensidade e a gravidade de algumas situações jogam luz sobre um problema que chegou para ficar há algum tempo: os efeitos das mudanças climáticas que resultam em situações extremas.

Estação Jardim São Paulo alagada: passageiros se seguram uns aos outros
Estação Jardim São Paulo alagada: passageiros se seguram uns aos outros (///Reprodução)

Foi o que ocorreu, por exemplo, no último dia 24, na estação Jardim São Paulo, da Linha 1-Azul do Metrô. Por volta das 16h, os passageiros precisaram subir nas muretas e se segurar uns aos outros, ou em corrimãos, para não serem levados pela água que entrou pela parte de cima da estação, desceu as escadas e foi parar nos trilhos.

Nesse dia, a região registrou 144 milímetros de chuva, mais da metade de todo o previsto para o mês.

A 13 quilômetros dali, no mesmo horário, o Beco do Batman, na Vila Madalena, foi tomado por uma enxurrada que invadiu a casa do artista plástico Rodolpho Tamanini Netto, 73, causando sua morte por afogamento. Também pelo mesmo motivo, um motorista de aplicativo que ficou preso dentro do carro, em uma enchente na Vila Prudente, foi encontrado sem vida no sábado (1º).

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Ao todo, dezoito pessoas morreram nos últimos dois meses em decorrência de intempéries na metrópole.

Beco do Batman alagado: morte de artista
Beco do Batman alagado: morte de artista (../Reprodução)

Os casos citados têm uma causa: chuva extrema, que vem crescendo ano após ano em São Paulo. Dados do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG-USP) mostram que entre 1933 e 2023 o acumulado de chuva na capital cresceu, em média, 5,5 milímetros a cada doze meses.

Passou de 849 milímetros, em 1933, para 1 784 milímetros noventa anos depois. “Chuvas de 140 milímetros em três horas, como ocorreram na semana passada, vão acontecer cada vez mais. Não dá mais para os prefeitos argumentarem que não esperavam pelos transtornos. Claro que esperavam. A ciência espera isso há mais de dez anos”, afirma Paulo Artaxo, cientista do Instituto de Física da USP.

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Paulo Artaxo: ciência alerta há duas décadas
Paulo Artaxo: ciência alerta há duas décadas (Arquivo Pessoal/Divulgação)

Para ele, os eventos serão cada vez mais severos. “O que estamos vendo agora sobre o impacto do aquecimento é uma amostra grátis do que teremos pela frente, não é mais projeção do futuro. Hoje estamos vendo incêndios na Califórnia, Alasca (Estados Unidos) e Portugal, além de ondas de calor no Paquistão e na Amazônia. Isso a ciência previu há vinte anos.”

Enquanto as soluções estão longe de serem executadas mundo afora, algumas tecnologias recém- -implantadas por aqui são grandes aliadas da prevenção de possíveis novas vítimas.

Há pouco mais de dois meses no ar, o sistema da Defesa Civil Cell Broadcast emitiu 43 alertas de eventos climáticos com potenciais de causar estragos em São Paulo. Ao contrário das mensagens de SMS, que existem há mais tempo e são direcionadas às pessoas que cadastraram um CEP, o serviço é disponibilizado em todos os aparelhos de celulares, independentemente de cadastro.

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Por ora, são dois tipos de sinais: para eventos severos (com um bip e uma vibração) e extremos (toca um sinal de dez a doze segundos, mesmo com o telefone no mudo). “Precisamos criar uma cultura de risco. Nascemos em um país tropical que nunca sofreu tanto com as questões do clima. A partir do momento que começamos esse tipo de alerta e ele é disseminado, vai criando uma cultura de risco, para que as pessoas não se coloquem em perigo”, diz Henguel Ricardo Pereira, coordenador da Defesa Civil do estado.

Jardim de chuva na Avenida 23 de Maio: conceito simples
Jardim de chuva na Avenida 23 de Maio: conceito simples (Alexandre Battibugli/Veja SP)

Um dos alertas emitidos pelo Cell Broadcast não foi suficiente para reduzir os estragos causados pela enchente do Rio Tietê em uma área que sofre há décadas em períodos de chuva, o Jardim Pantanal, composto por nove bairros, no extremo leste da cidade. Ali, desde o sábado (1º), as quadras estão alagadas, deixando seus 56 000 moradores expostos aos efeitos da água suja.

Na segunda (3), o prefeito Ricardo Nunes afirmou ser favorável à remoção das famílias, cujo custo seria inferior às obras necessárias para reduzir os efeitos dos alagamentos. “Toda vez que chover, vai acontecer isso. É praticamente impossível você querer ir contra a força da natureza”, disse Nunes. Não há um consenso dentro da gestão municipal — nem com o governo estado — sobre qual medida, obras ou remoção, seria mais eficaz.

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Em nota, a prefeitura afirma que aplicou 7,8 bilhões de reais em obras, serviços, manutenções e intervenções no sistema de drenagem, um aumento de 85% em relação ao período de 2013 a 2020. Além disso, reforça que entregou sete reservatórios, sendo cinco piscinões e dois pôlderes (sistemas compostos por um dique, reservatório, dutos e bombas), nos últimos quatro anos.

Por outro lado, a construção de um pôlder no Jardim Pantanal está atrasada há mais de um ano.

Não são apenas as grandes obras que podem conter o avanço das chuvas na metrópole cada vez mais impermeabilizada. Idealizador dos chamados jardins de chuva, o arquiteto e paisagista André Graziano construiu mais de 100 modelos na região central, entre 2019 e 2021, período em que trabalhou na Subprefeitura da Sé.

Composto de uma caixa-d’água e coberto por vegetação que filtra os poluentes da chuva, o sistema ajuda a entregar uma água mais limpa para os rios e córregos. Ao todo, existem 409 jardins de chuva na capital. “Poderíamos ter milhares deles, é um mecanismo que todas as cidades poderiam implantar”, diz Graziano. Das pequenas às grandes iniciativas, é urgente a incorporação de medidas para conter os efeitos das mudanças climáticas no presente, não mais no futuro.

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Placa na Rua Porto Seguro: enchente em 1929
Placa na Rua Porto Seguro: enchente em 1929 (Vinicius Tamamoto/Veja SP)

Marca para recordar: chapa de bronze no Canindé lembra enchente de 1929.

Na Rua Porto Seguro, a 400 metros do Rio Tietê, no Canindé, uma marcação na calçada, feita com uma chapa de bronze e quase imperceptível para os desavisados, lembra uma das maiores inundações da história paulistana. Muito antes de o termo “evento climático” ser utilizado por especialistas e leigos, a cheia do rio alagou diversos quarteirões do bairro. As causas do desastre não são conhecidas, mas uma das suspeitas é de que a empresa que recebeu o aval do governo federal para canalizar, retificar e inverter o curso do Rio Pinheiros teria aumentado a vazão das barragens do Tietê, já que o acordo previa que, em casos de cheia dos rios, os terrenos alagados seriam declarados de propriedade canalizadora, o que nunca foi comprovado.

Publicado em VEJA São Paulo de 7 de fevereiro de 2025, edição nº 2930

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