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Com piora da pandemia, escolas voltam a fechar e alunos sofrem com ansiedade e depressão, mostra pesquisa

Nova necessidade de interrupção das aulas presenciais deixa pais sem saber o que fazer, alunos irritados e escolas tentando se adaptar outra vez

Por Fernanda Bassette e Sérgio Quintella Atualizado em 22 mar 2021, 11h57 - Publicado em 19 mar 2021, 01h15

No ano passado, por causa da suspensão das aulas presenciais e do isolamento social, o estudante Gabriel Gamarra Oliveira, 11, ganhou 6 quilos, seu colesterol disparou e a glicemia chegou ao limite. Quando não estava assistindo às aulas pelo notebook, o garoto passava horas jogando videogame com amigos virtuais, situação autorizada pelos pais, numa tentativa de manter o filho único com pelo menos um pouco de contato com outras crianças.

Mas com isso veio a irritabilidade, a falta de sono, as crises de ansiedade. “Em outubro, quando percebi alterações importantes na saúde dele, decidimos matriculá-lo na natação para que pudesse fazer alguma atividade física. Senti melhora imediata no comportamento dele”, conta a escrevente Anna Paula Gamarra Oliveira, 49, moradora da Vila Ré, Zona Leste.

Tudo se encaminhava para uma vida melhor em 2021, com o retorno gradual e presencial no colégio Argumento Objetivo, em Ermelino Matarazzo, mas a escola registrou casos de Covid entre os alunos e suspendeu as aulas. Além disso, a partir da quarta-feira (17), por decisão do prefeito Bruno Covas, nenhuma unidade educacional da metrópole poderia permanecer aberta nos próximos quinze dias.

A medida entrou em vigor após o estado de São Paulo registrar no dia anterior 679 óbitos, o recorde desde o início da pandemia. “O Gabriel chorou quando soube que voltaria para o ensino remoto. Quando fica só em casa, não quer comer direito, não quer dormir cedo nem interagir com a gente”, desabafa a mãe.

Os efeitos do confinamento prolongado sentidos por Gabriel estão longe de ser um caso isolado. Pesquisa inédita realizada pelo Instituto Orbis mostra que, de cada dez estudantes de escolas públicas e particulares paulistanas, quatro não conseguiram cumprir na totalidade a rotina de aulas pela internet.

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Nesse grupo, 29,6% repetiram de ano, 13,3% abandonaram a escola e 57,% apresentaram efeitos psicológicos ou físicos. Os danos mais sentidos são ansiedade (30%), desânimo (10%), obesidade e depressão (cada um com 4%). A principal “válvula de escape” para 33% desse grupo foi o videogame. “Vai começar tudo de novo, aquele vício em videogame e comida”, desabafa a influenciadora digital Cintia Collis Bernardi, 46, moradora do Jardim Anchieta, na Zona Sul, e mãe de três meninos, Cauan (16), Eron (11) e Noah (5 anos), todos alunos da Escola Decisão, na Vila Mascote. “Eles vão voltar a ficar o dia inteiro sentados. Primeiro de manhã, na aula online, e depois no sofá jogando videogame, sem atividade física.”

“Quando fica só em casa, ele não quer comer, não quer dormir cedo, nem interagir com a gente”

Os três irmãos, em um sofá, cada um com um controle diferente do videogame
Cauã (no meio), Eron e Noah (o menor, à frente): videogame no sofá Alexandre Battibugli/Veja SP
Gráfico
Marcelo Cutti/Veja SP

Se a situação é complicada para quem tem oportunidade de estudar, mesmo que remotamente, os alunos sem nenhum acesso à internet enfrentam consequências muito maiores. “O 4G do meu celular não funciona dentro de casa e minha filha está há um ano sem conseguir fazer as lições. A escola (estadual) imprimiu algumas atividades, mas eu não sei ensinar nada”, afirma a desempregada Patrícia Coutinho, 23, moradora do Sacomã e mãe de Marya Eduarda, 6, que passou a sentir os efeitos da privação em excesso e hoje está mais agitada e ansiosa.

“O desenvolvimento global da criança se dá pelo entrelaçamento dos aspectos cognitivos, psicomotores e psíquicos”, afirma a psicóloga e psicanalista Camila Sabóia, professora convidada da pós-graduação do Instituto de Psicologia da USP. “Para as crianças pequenas, simples ações, como rabiscar ou se lambuzar de tinta, propiciam registros do desenvolvimento desses três aspectos. A escola não pode ser considerada como um espaço apenas de transmissão de conteúdos ou de aprendizagem, mas sim um lugar de construção dos aspectos emocionais, que ocorrem graças às trocas e encontros com as outras crianças. O que não ocorre fora das salas de aula.”

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Gráficos com os títulos
Marcelo Cutti/Veja SP

O novo fechamento das escolas paulistanas reacendeu na corretora de imóveis Jacqueline de Melo, 34, uma preocupação que parecia de certa forma superada. Mãe de três filhos, de 13, 5 e 3 anos, ela vê o do meio, Lucas, que é autista, como o maior prejudicado em casa. No ano passado, ele estava matriculado na educação infantil do Colégio Katatau, no Tucuruvi, e teria aulas de pré-alfabetização, mas não conseguiu acompanhar as aulas pelo computador.

Sua mãe achou que, ao retomar as aulas presenciais em 2021, agora no primeiro ano do ensino fundamental de outra escola, a Edim, na Vila Gustavo, Lucas seria acompanhado de perto pela professora e conseguiria recuperar o tempo perdido. Mas não foi bem assim. “As crianças da sala dele já têm noções básicas do alfabeto e Lucas não. Isso deixa ele extremamente frustrado e nervoso.”

Mãe segurando as duas filhas no colo. As duas crianças estão com as mãos para cima e estão todas na foto sorrindo
Família Marocchio: rir para não chorar Alexandre Battibugli/Veja SP

O período de alfabetização é um dos principais desafios para os pais. Com medo de ver a filha Angelina, 5, aprender a escrever pelo computador, a dentista Luciana Marocchio dos Santos, 40, resolveu segurar a menina mais um ano na educação infantil. Só mudou de escola e agora optou pelo colégio Jardim Colibri, na região de Santo Amaro.

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No ano passado, quando se deu conta de que as escolas não voltariam a funcionar tão cedo, a dentista foi pesquisar sobre o tempo recomendado de exposição às telas para crianças pequenas e ficou muito incomodada em ter de manter as filhas (a outra, Helena, tem 3 anos) por horas na frente do computador. “No meu trabalho não existe home office e é muito difícil segurar crianças nessa idade na frente da tela. Por isso, neste ano, eu preferi mantê-la na educação infantil porque não vai rolar alfabetizar on-line”, conta.

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Maria Eduarda, com a mão no queixo, olhando para a câmera e a mãe, sentada no chão, olha para a filha
Maria Eduarda e a mãe, Alessandra: dilemas Alexandre Battibugli/Veja SP
Gráfico com o título
Marcelo Cutti/Veja SP

A discussão entre mandar ou não os filhos para a escola em 2021, após a reabertura parcial, tomou conta de boa parte dos grupos de WhatsApp neste um ano de pandemia. Sem um consenso, cada família decidiu de forma individual. Mãe da adolescente Maria Eduarda, 15, aluna do 1º ano do ensino médio do Colégio Nossa Senhora da Misericórdia, em Osasco, a administradora de empresas Alessandra Cruz Fernandes, 46, pensou em autorizar o regresso presencial, mas optou por manter a menina no ensino on-line, a despeito dos efeitos sentidos pela jovem. “Ela é muito ansiosa, passou a roer as unhas, a ficar horas no celular, a ter dificuldades para dormir”, afirma a mãe. “Muitos amigos dela decidiram voltar, mas agora, com a suspensão das aulas presenciais, sinto que tomei a decisão certa.”

Pelo menos o fechamento das escolas neste momento de aumento de casos de coronavírus era esperado pela maior parte dos colégios — alguns deles contrataram consultorias de grandes hospitais para adaptar seus protocolos. “Quando reabrimos nossa escola, sabíamos que poderíamos realizar futuras rodadas de fechamentos”, afirma Silmara Casadei, diretora do Colégio Visconde de Porto Seguro, cujas mensalidades variam de 3 300 a 4 700 reais. Ali, as aulas seguirão remotas.

À esquerda, sala de aula do colégio pentágono vazia; à direita, Camila sorrindo para a foto
Colégio Pentágono (à esquerda) e Camila Sabóia: salas vazias e alunos perdidos Arquivo pessoal/Divulgação

 

Gráficos com os seguintes títulos:
Marcelo Cutti/Veja SP

No Pentágono, que adotou o sistema de “bolhas” — a medida consiste na separação das turmas —, os próprios pais que mandaram seus filhos a partir de fevereiro deste ano começaram a segurar os filhos em casa nas duas últimas semanas. “A situação estava bem difícil. Algumas famílias não estavam mais mandando os filhos. Era uma providência esperada (o fechamento)”, reconhece a diretora Patrícia Nogueira. No Pentágono, a mensalidade média é de 3 600 reais e a opção foi pela continuidade do ensino remoto.

Junto com o temor dos pais e alunos há os novos desafios que a pandemia provoca para os educadores. No Poliedro, que possui três unidades e mensalidades em torno de 3 000 reais, o diretor Rodrigo Fulgêncio começou a perceber no ensino remoto situações até então inexistentes no ambiente presencial. “Muitos alunos assistem às aulas com as câmeras desligadas. Quando fomos investigar, verificamos situações corriqueiras, como falha nos equipamentos, até mesmo receio de sofrer bullying caso algum colega tirasse print da tela. Outros, principalmente os mais humildes, demonstraram preocupação em mostrar o ambiente íntimo da casa.”

Gráfico com o seguinte título:
Marcelo Cutti/Veja SP

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Não foi por falta de aviso de médicos que as escolas não reabriram no ano passado na cidade. “As crianças não são as introdutoras das epidemias nas famílias. Mas houve muita resistência, pressão de professores, falta de participação do Ministério da Educação”, afirma o pediatra e infectologista Renato Kfouri, presidente do departamento de imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria. Agora é diferente. “A situação atual virou calamidade, essa é a palavra. As escolas têm de ser as últimas as ser fechadas, como agora. Estamos no momento que tanto temíamos.”

Em outros países, mesmo com o aumento dos índices epidemiológicos, escolas foram mantidas abertas até o limite. Na França, em janeiro, enquanto parte do país entrava em lockdown, 12 milhões de alunos da pré-escola, ensino fundamental e médio participaram do programa de “volta às aulas”.

Dados da Unesco, de fevereiro, mostraram que 80% dos países do mundo estavam com aulas presenciais mantidas. “Tanto as escolas quanto pais e alunos vão ter de estar preparados para o abre e fecha dos colégios aqui no Brasil”, afirma o ex-secretário de educação paulista Alexandre Schneider, presidente do Instituto Singularidades. “Até a imunização total da população, vai ser assim.” Vai ser preciso muita conversa com os pequenos.

Metade de um final de feliz

“Pedi demissão do trabalho em 2 de março porque a pessoa que cuidava da minha filha, a Marya Eduarda, (6), não quis ficar com ela. A Duda está muito agitada e com crises de ansiedade. Faz um ano que ela não vai para a escola. Ela está matriculada em uma escola estadual na Pompeia, que ficava perto de um antigo trabalho, e não consegui transferência para o Sacomã, onde moramos.

Eu fui até o colégio e imprimi as lições, mas, sozinha, eu não sei ensinar. A minha filha ficava com uma cuidadora, mas devido à agitação dela, a mulher disse que não poderia mais ficar com a menina. Graças a Deus eu consegui nesta semana a transferência para uma escola municipal do bairro, em período integral, e vou poder procurar emprego quando tudo voltar ao normal. Para me manter, estou fazendo bico de faxineira.”
– Patrícia Coutinho, 23

Mãe olhando para a filha, que está fazendo uma lição em cima da cama
Patrícia e Duda: um ano sem escola Alexandre Battibugli/Veja SP

SOBRE OS GRÁFICOS

  • Pesquisa realizada entre os dias 12 e 13 de março de 2021 na cidade de São Paulo.
  • Abrangência: Residentes da capital paulista que possuem estudantes em casa.
  • Foram realizadas 1418 entrevistas proporcionalmente às regiões do município.
  • A margem de erro é de 2,6% com 95% de confiança.
  • As pesquisas foram feitas por telefone, via URA ativa, e coletadas de forma automática

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Publicado em VEJA São Paulo de 24 de março de 2021, edição nº 2730

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