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São Paulo nas Alturas Por Raul Juste Lores Redator-chefe de Veja São Paulo, é autor do livro "São Paulo nas Alturas", sobre a Pauliceia dos anos 50. Ex-correspondente em Pequim, Nova York, Washington e Buenos Aires, escreve sobre urbanismo e arquitetura

Ícaro de Castro Mello (1913-1986), o arquiteto-atleta

Autor de projetos esportivos como Ginásio do Ibirapuera, foi campeão sul-americano de salto em altura e também realizou edifícios comerciais e residenciais

Por Raul Juste Lores Atualizado em 14 Maio 2020, 14h44 - Publicado em 8 Maio 2020, 06h00

Em cinquenta anos de carreira, Ícaro de Castro Mello (1913-1986) foi o maior nome da arquitetura nacional para desenhar projetos esportivos. Autor do Ginásio do Ibirapuera, das unidades do Sesc Consolação e Itaquera, das piscinas do Parque da Água Branca e do Clube Sírio, do Ginásio do Sesc Bertioga, dos estádios Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas, e Mané Garrincha, em Brasília, entre muitos outros. Nascido em São Vicente e tendo estudado no Mackenzie e na Poli, o engenheiro-arquiteto tinha uma vantagem comparativa: ele foi campeão brasileiro e sul-americano de salto em altura e salto com vara, e participou da equipe brasileira de atletismo na Olimpíada de Berlim, em 1936. O arquiteto-atleta, que também foi grande nadador, desenhou a sede social do clube que defendeu em tantas provas, o Esporte Clube Pinheiros. Ainda fez o complexo aquático do Parque São Jorge e um estádio para o Corinthians, que nunca foi construído, trinta anos antes do Itaquerão.

Quebra-sóis fixos para proteger escritórios do sol; no topo, antigas cores do edifício da Rua Jaguaribe, hoje pintado de gelo e azul Raul Juste Lores/Veja SP

Faceta menos conhecida, ele também teve uma pequena construtora e realizou edifícios comerciais e residenciais, como vemos nestas páginas. O primeiro, o Souto de Oliveira (de 1945), tem entrada tanto para o Viaduto Nove de Julho quanto para a Major Quedinho. A fachada que recebe o sol ameno da manhã tem janelões chanfrados, enquanto o outro lado, que recebe sol mais forte à tarde, ganhou quebra-sóis fixos de placas de Eternit.

Já o Edifício Arthur Teixeira de Carvalho, de 1956, resiste bem à vizinhança do Minhocão (o elevado chegou lá catorze anos depois). Infelizmente, as cores da fachada foram mudadas recentemente, sem a menor atenção ao projeto original. O que era forte se tornou um genérico aguado — sinal de que é necessário resgatar o valor da obra de Ícaro das mãos de síndicos insensíveis.

Raul Juste Lores/Veja SP

Esse esquecimento não é de hoje. Sua morte, às vésperas de completar 73 anos, foi praticamente ignorada pela mídia à época. Em uma carta revoltada ao Estadão, o colega Roberto Cerqueira César reclamava do “inexplicável silêncio dos nossos órgãos de classe” sobre homenagear o antigo presidente e fundador do IAB. Pelo menos os filhos Eduardo e Vicente mantiveram a qualidade das pranchetas: foram responsáveis pela reforma do estádio de Brasília para a última Copa, a mesma arena projetada pelo pai quatro décadas antes.

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 13 de maio de 2020, edição nº 2686.

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