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Janaina Leite traz à tona “Conversas com Meu Pai”: “mantive o processo vivo respeitando seus limites”

A atriz paulistana Janaina Leite, de 32 anos, é conhecida por memoráveis trabalhos do Grupo XIX de Teatro, como “Hysteria”, “Hygiene” e “Arrufos”. Com o documentário cênico “Conversas com Meu Pai“, ela busca uma experiência familiar para levar à cena a dramaturgia construída por Alexandre Dal Farra, seu marido. Em um cenário-instalação, “Conversas com Meu Pai” mescla […]

Por Dirceu Alves Jr. Atualizado em 26 fev 2017, 22h09 - Publicado em 24 abr 2014, 19h21
Janaina Leite em "Conversas com Meu Pai": documentário cênico (Foto: Fernanda Preto)

Janaina Leite em “Conversas com Meu Pai”: documentário cênico (Foto: Fernanda Preto)

A atriz paulistana Janaina Leite, de 32 anos, é conhecida por memoráveis trabalhos do Grupo XIX de Teatro, como “Hysteria”, “Hygiene” e “Arrufos”. Com o documentário cênico “Conversas com Meu Pai“, ela busca uma experiência familiar para levar à cena a dramaturgia construída por Alexandre Dal Farra, seu marido. Em um cenário-instalação, “Conversas com Meu Pai” mescla fatos verídicos e ficcionais para narrar uma história de pai e filha. Janaina se baseou em bilhetes de seu pai, Alair Pereira Leite (1950-2011), que passou por uma traqueostomia e perdeu a capacidade de falar. Nos derradeiros anos de vida, ele se comunicou unicamente por escrito e, agora, esses pequenos recados são transformados em teatro. O espetáculo pode ser ser visto na Oficina Cultural Oswald de Andrade, que fica na Rua Três Rios, 363, no Bom Retiro, em temporada gratuita. As sessões se realizam de quinta a sábado, às 20h, até 17 de maio, e os ingressos são distribuídos meia hora antes. A atriz fala um pouco mais dos limites que envolvem o humano e a arte.

Foram sete anos de pesquisa. Acredito que esse período seja o tempo em que seu pai ficou impossibilitado de se comunicar e passou a usar a escrita como expressão. Em que momento você começou a mexer nos bilhetes imaginando um espetáculo?

São quase sete anos de pesquisa mesmo e produção ininterrupta de materiais. Meu pai parou de falar em 2005 e essa história de recolher os bilhetes começou cedo, mas sem ideia de nada ainda. Eu sou meio lixeira e tenho o hábito de guardar tudo quanto é cacareco da família. Em 2008, eu tive a primeira ideia de fazer algo artístico com base nesses fragmentos. Considerei um bom ponto de partida o que a caixa com bilhetes trazia de lacunar, cifrado, fragmentário, alusivo. Mas esse era muito mais o disparador. As causas mais profundas do processo foram podendo ganhar forma com o tempo. E o tempo foi fator fundamental nessa história toda. Fundamental permanecer buscando, buscando a forma de falar disso. O trânsito entre as linguagens também se mostrou muito forte já que foram anos de filmagens.

Ele chegou a ter conhecimento da ideia?

Sim, nesse sentido, ele tinha alguma noção de que eu estava gerando material com base nele. Durante três anos, o cineasta Bruno Jorge foi comigo para Cubatão, lá no meio do mato em que meu pai vivia, e ficava filmando o cotidiano dele e muitos esboços de obras dramatúrgicas e literárias. Tem um cara que eu estudo, Lejeune, que fala que “é preciso encontrar a forma que convém a cada experiência”. Hoje, a peça fala mais dessa busca do que propriamente de uma relação de pai e filha.

Na hora de mexer em um tema delicado, qual é o limite entre a dor e a saudade?

O passo a passo com a vida era muito estreito mesmo. Hoje é evidente que eu não poderia ter chegado a uma forma antes da morte dele, porque sem saber, os anos de 2008 a 2011 eram uma preparação pra esse momento, o da despedida. Não faria o menor sentido ter gerado um trabalho antes disso. E nem imediatamente após, já que existiu um processo longo de decantação dos materiais depois que ele morreu.

Existe alguma fronteira para separar a atriz da filha ou é fundamental estar tudo misturado?

Nunca houve separação alguma já que eu não precisava de uma peça de teatro. Até janeiro desse ano, eu ainda não sabia se haveria peça. Pelo fato de que não era a atriz que precisava de um novo trabalho, era a pessoa que eu sou – mulher, filha, mãe e. sim, artista – e encontro na arte meu lugar de elaboração e expressão. Mantive o processo vivo respeitando seus limites. E o limite poderia ser não ter peça nenhuma ao final de tudo.

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Janaina Leite: "Conversas com Meu Pai" faz temporada na Oficina Oswald de Andrade

Janaina Leite: “Conversas com Meu Pai” faz temporada gratuita na Oswald de Andrade

O fato de o Alexandre ser seu marido e, imagino, ter convivido com seu pai ajuda no desenvolvimento do espetáculo?  

Certamente o resultado seria muito outro se fosse um outro dramaturgo. Precisou de muito tempo para o Alê se aproximar de todos os lados da história e poder construir também o olhar dele dentro disso. Ou ainda, encontrar no meu material algo que ele identificasse como dele também. Acho que foi a parceria mais feliz nesse sentido. Era a mediação necessária para dar mais um passo com tudo. Nas últimas aberturas do “work in process” a minha relação direta demais com um material muito pessoal vinha se esgotando. Eram coisas que eu não queria ver desgastadas pela repetição/representação.

Você se tornou mãe no ano passado. Esse fato colaborou para a montagem e pode ter transformado sua imagem e sua relação com seu pai?

Nossa, que pergunta importante! (risos). Sim, o Plínio muda tudo, todos os dias em mim. E ele é parte desse processo, sem dúvida. Engravidei no ano seguinte à morte do meu pai, e o Plínio é uma continuidade disso tudo, ao mesmo tempo, que é a possibilidade de romper, de transformar, de fazer diferente. Tem um texto na peça que é sobre fazer algo para “resguardar uma herança em risco”. De algum modo, esse processo foi para isso. Buscar alguma paz em relação ao passado e poder oferecer isso ao meu filho.

Em “Festa de Separação”, de 2009, você já buscou inspiração no fim do casamento com o músico Felipe Teixeira Pinto para criar um espetáculo. As questões que envolvem o artista e o ser humano são cada vez mais estreitas mesmo?

Eu acho que sempre foi assim. É sempre dessa associação de artista e ser humano que a arte nasce. Agora, a explicitação de um certo caráter autobiográfico também é muito antiga. Na literatura, nas artes plásticas e no cinema vem gerando infinitas obras há bastante tempo também. Nas artes cênicas, talvez seja um fenômeno mais recente, mais a partir dos anos 70 mesmo, e, aqui no Brasil, estamos falando de um “boom” atualíssimo – falo dessa explicitação autobiográfica – que vem gerando certo frisson. Tanto no sentido de uma exaltação, quando no sentido de um certo repúdio. Como se “em si”, o fato de ser autobiográfico significasse “alguma coisa”. As obras, os artistas e seus processos precisam ser olhados em suas singularidades. Não há pressupostos. O fato de ser pessoal e autobiográfico não leva necessariamente a um tipo de peça por parte do artista ou de experiência por parte do público.

Existe uma megaexposição de todo mundo nas redes sociais… Transformar a vivência em arte é o melhor dos caminhos, pelos menos para um ator, um escritor, não? Pode ser o mais relevante pelo menos nesse momento…. 

Acho curiosa a certa expectativa que rapidamente se constrói quando dizemos que algo é autobiográfico. Este é um campo a ser criado como qualquer outro. Agora é claro que existem diferentes pactos que uma obra constrói com seu público, e o pacto autobiográfico é algo que vem alimentando intensos debates em várias áreas, principalmente na literatura. Eu não sou da turma que acha que é tudo a mesma coisa, que tudo é ficção. Acho que a prerrogativa documental engendra processos com algumas questões como, por exemplo, o papel do acaso e a questão da ética em relação a pessoas que existem na vida real. E o enunciado autobiográfico modifica sim a recepção e sela com o público acordos que engajam a plateia em sentimentos distintos daqueles que uma ficção provoca. Aversão, cumplicidade, empatia, condenação, esses sentimentos não recaem sobre uma personagem, mas sobre o sujeito que decide apresentar uma certa experiência como sendo a dele próprio. Eu sou atriz há muito tempo e posso dizer que, na minha trajetória, a experiência de “Festa de Separação” junto ao Felipe e o “Conversas com Meu Pai” são experiências únicas, irrepetíveis e coladas, radicalmente, a encontros que a vida me ofereceu. Nada garante que eu vá fazer outra coisa autobiográfica nas minhas criações. Espero que não. Como diz meu querido amigo e diretor Luiz Fernando Marques, são peças que a gente faz pra poder se livrar delas!

Confira imagens registradas pelo cineasta Bruno Jorge usadas na montagem.

//player.vimeo.com/video/92194819

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