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Neurologista Fabiano Moulin de Moraes dá dicas de como se aposentar bem

Fabiano Moulin de Moraes é médico neurologista, coordenador da Unifesp e professor da Casa do Saber

Por Fabiano Moulin de Moraes - Atualizado em 15 Mar 2019, 17h45 - Publicado em 15 Mar 2019, 06h00

“Quando os deuses querem nos punir, eles respondem às nossas preces”, disse Oscar Wilde. “Não vejo a hora de me aposentar” é uma frase que expressa um desses grandes desejos. O que vem à sua mente quando pensa em aposentadoria? Se pensou naquela imagem de propaganda de TV em que pessoas de cabelos brancos correm na grama, dão cambalhotas e sorriem, saiba que talvez você esteja errado. Como neurologista, atendo no consultório muitos pacientes nessa condição que começam a expressar sintomas depressivos ou queixas de memória. Outros relatam perda de propósito e desengajamento social, traços que dão chance para a manifestação de doenças. Os estudos científicos que acompanham milhares de adultos antes e depois da aposentadoria apresentam resultados variados quanto às suas consequências na saúde e no bem-estar. Então, quais fatores estão relacionados a uma aposentadoria mais feliz?

1. O motivo da aposentadoria: aqueles que se aposentam por problemas de saúde ou por obrigação têm quedas de qualidade de vida importantes. No entanto, quando a aposentadoria é planejada e encarada como uma “promoção na carreira”, há um aumento de satisfação.

2. A maneira como o trabalho era encarado: pessoas que relatam que o serviço era estressante e sem sentido percebem melhoras na qualidade de vida. Aquelas que viam no trabalho parte da sua identidade ou que o enxergavam como algo maior demonstram queda na qualidade de vida.

3. O que fazer com o tempo livre: pessoas que passaram a realizar mais atividades domésticas ou físicas, a dormir mais (especialmente aquelas antes privadas de sono pelo trabalho), pessoas envolvidas em trabalhos voluntários e que passaram a se engajar em tarefas silenciosas, como leitura, escrita ou meditação, tiveram ganho na saúde, com redução dos níveis de depressão e stress. Já ficar só sentado em frente à TV não traz nenhuma felicidade.

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4. A presença ou não de um trabalho transitório: em quase todas as pesquisas, trabalhos distintos que permitam uma transição mais suave estavam relacionados a menor stress, ansiedade e depressão na hora da mudança.

Transições de vida, como a aposentadoria, envolvem uma reorganização obrigatória na maneira como usamos nosso tempo, e esse remanejamento influencia diretamente nossa saúde, tanto física quanto mental. Esses momentos podem ser cruciais quando as pessoas decidem conscientemente adotar hábitos de vida mais saudáveis e sustentáveis ou quando caem em uma sucessão de comportamentos deletérios que aumentam o risco de doenças graves, como a demência pelo Alzheimer, entre outras. Para desfrutar as virtudes no futuro, é preciso evitar os vícios no presente. A aposentadoria deve ser muito bem planejada, tanto do ponto de vista financeiro como do cognitivo. E pode, sim, representar uma mudança para melhor na sua vida. Muito cuidado com o que deseja, e, ao desejar, planeje-se!

Graziella Fraccaroli / Acervo pessoal/Divulgação

Fabiano Moulin de Moraes é médico neurologista, coordenador da Unifesp e professor da Casa do Saber. No consultório, ajuda os pacientes a desenvolver hábitos saudáveis no presente (para aproveitá-los também no futuro) e a encontrar propósito e satisfação tanto no trabalho quanto na aposentadoria.

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 20 de março de 2019, edição nº 2626.

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