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Renato Prieto, o astro do teatro espírita: “minha escolha filosófica não vale como desculpa para falta de competência”

Renato Prieto passou pelas novelas da Rede Globo na década de 80, mas foi no teatro que conquistou um público realmente abrangente e fiel. O ator e diretor capixaba radicado no Rio de Janeiro tem 59 anos e reina absoluto em um filão: o dos espetáculos espíritas. Em 25 anos, ele já foi visto por […]

Por Dirceu Alves Jr. - Atualizado em 26 Feb 2017, 23h43 - Publicado em 25 Sep 2014, 17h06
Renato Prieto em "Encontros Im(Possíveis): sessões no Teatro Jaraguá (Fotos: Divulgação)

Renato Prieto em “Encontros Im(Possíveis): sessões no Teatro Jaraguá (Fotos: Divulgação)

Renato Prieto passou pelas novelas da Rede Globo na década de 80, mas foi no teatro que conquistou um público realmente abrangente e fiel. O ator e diretor capixaba radicado no Rio de Janeiro tem 59 anos e reina absoluto em um filão: o dos espetáculos espíritas. Em 25 anos, ele já foi visto por mais de seis milhões de espectadores que buscam em montagens como “Além da Vida”, “E a Vida Continua” e “A Morte É uma Piada” uma dose de emoção permeada pela doutrina codificada por Allan Kardec. Também protagonizou o filme “Nosso Lar”, que levou mais de quatro milhões de pessoas aos cinemas em 2010.

A mensagem da vez é “Encontros Im(Possíveis)”, cartaz do Teatro Jaraguá, Escrita por Rodrigo Fonseca e dirigida por Gustavo Gelmini, a peça apresenta um jornalista (interpretado por Prieto) que recebe a visita de pessoas que sempre quis entrevistar. Entre elas, Freud, Marilyn Monroe, Gandhi, Madre Teresa de Calcutá, Chico Xavier e Frank Sinatra, todas mortas. A temporada paulistana se realiza aos sábados, às 19h, e aos domingos, às 17h, com ingressos a R$ 60,00, até 23 de novembro.

Como o espiritismo entrou em sua vida?

Eu cresci com esse tema muito próximo. Quando era um bebê, fui praticamente desenganado. Os médicos tinham até desistido de encontrar uma salvação. Todo mundo estava conformado, menos minha mãe, que sempre procurou ajuda de todas as formas. Um dia, misteriosamente, “apareceu” uma mulher chamada Noêmia na varanda da nossa casa. Pediu um copo de água e disse para minha mãe que estava ali para dar uma solução ao seu filho doente. Falou de algumas ervas, como usá-las e que minha mãe não se preocupasse mais com nada, que a moça que trabalhava em nossa casa saberia onde encontrá-las. E desapareceu. Nossa empregada realmente sabia onde achar as tais ervas medicinais. Mamãe seguiu todas as orientações e cá estou. Fiquei bom em poucos dias e cresci ouvindo a história de um anjo bom que cuidaria para sempre de mim, a Noêmia.

E as suas experiências iniciais? Você frequenta algum centro espírita regularmente?

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Sim, frequento. Com uns 15 ou 16 anos, passei a buscar as minhas próprias respostas e encontrei na doutrina codificada por Allan Kardec o retorno para as minhas perguntas. De onde vim? O que estou fazendo aqui? Por que estou aqui e para onde vou? Compreendi a razão de tanta diferença moral, cultural e social no nosso planeta. Vivo em paz com tantas respostas convincentes.

Como separar para o espectador o ator e artista de um pregador?

Teatro é bem realizado ou mal realizado. Não estou no palco ou no cinema para pregar. Estou ali para contar uma boa história e emocionar o público. A espiritualidade é um tema que posso exercer. Minha profissão está dentro de um projeto que vai além do palco. Com nossos espetáculos, nós já ajudamos mais de 2 000 instituições de todo o Brasil a abrirem ou a não fecharem suas portas. O público que assistiu a todos os meus espetáculos em mais de 25 anos é superior a seis milhões. São pessoas que me enxergam como um artista. E sou. Eu me preparei academicamente a vida inteira. Conheci e aprendi muito com os métodos de Jerzy Grotowski e Robert Lewis. Sou formado pela Escola Nacional de Teatro do Rio de Janeiro e estudo o tempo inteiro para crescer como artista. Minha escolha filosófica não vale como desculpa para falta de competência.

+ João Signorelli interpreta Gandhi no teatro. 

Eu me lembro de você em novelas da Rede Globo nos anos 80. Você não faria mais novelas ou filmes que não fossem relacionados à doutrina espírita?

Acabei de rodar um filme dirigido pelo Vicente Amorim, “Irmã Dulce”, e, em novembro, já começo outro trabalho no cinema, “A Menina Índigo”. Sou movido a desafios e se o personagem é bom eu aceito, independente da minha filosofia. Sou muito grato por poder escolher.

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Mas você ainda recebe convites para televisão?

Sempre recebo convites. Mas só vou aceitar se for uma nova contribuição para meu crescimento artístico. Como as propostas são sempre dentro de uma zona de conforto e repetem a mesma fórmula, prefiro dar minha contribuição em áreas em que posso evoluir sem depender de um formato que, vamos combinar, está desgastado. Na televisão, gostaria muito de fazer uma série em um canal fechado, por exemplo, mas para isso eu também preciso que seja respeitado o horário sagrado do teatro.

Hoje, todo mundo diz que é impossível fazer teatro sem patrocínio e apoios culturais. Você é patrocinado ou se banca com o ingresso?

Temos alguns parceiros, mas sofro como qualquer nome da classe por causa da falta de patrocínio. Sou um trabalhador. O boca a boca funciona muito comigo e não posso me queixar da imprensa. Sempre foram bacanas com meus projetos. Também recebo apoio das leis de incentivo. Recentemente, eu me apresentei em todas as lonas culturais do Rio de Janeiro apoiado pela Secretaria de Cultura do Estado, que sabe da honestidade da minha proposta. Qualquer espaço que vejo aberto, eu vou lá para divulgar o que estou fazendo. Por outro lado, como estou há muito tempo nessa estrada também tenho um público fiel que sempre volta acompanhado de novos espectadores.

Seu ingresso sai por R$ 60,00. Não é um pouco caro? 

Olha, o ingresso para essa temporada em São Paulo é de R$ 60,00 mesmo. Mas existe a meia-entrada, que é maioria, e sai por R$ 30,00. Também atendemos a grupos e, nesse caso, custa R$ 20,00. Todos podem ir ao teatro.

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"Nosso Lar" (2010): Renato Prieto protagonizou o sucesso de bilheteria

“Nosso Lar” (2010): Renato Prieto protagonizou o sucesso de bilheteria

O sucesso de “Nosso Lar” transformou seu público no teatro?

“Nosso Lar” me deu ainda mais visibilidade e uma camada muito grande de jovens começou a se aproximar. Em 2015, a continuação de “Nosso Lar” deve ser lançada e espero solidificar essa relação de artista e público.

Parte da crítica nem sequer assiste aos espetáculos espíritas e, quando vai, faz muitas restrições em relação à dramaturgia e direção. Existe esse preconceito e de que forma isso pode afetar o público do segmento?

Que venham assistir ao espetáculo então… “Encontros (Im) Possíveis” conta com um belo texto do crítico de cinema Rodrigo Fonseca e uma direção do talentoso Gustavo Gelmini. Eu nunca senti realmente um preconceito da parte dos críticos, mas, se ele existe, eu aconselho que esses jornalistas procurem um tratamento terapêutico. Preconceito é uma doença muito feia e pode ser curada.

Como é sua relação com o público e com os colegas artistas? Sente que pode existir alguma inveja ou desprezo, afinal, você atinge um público tão grande com teatro…

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O público é o nosso patrão. Sou muito grato a ele. Eu sonho e ele me ajuda a realizar e, de coração, os meus colegas artistas sempre vão ver os espetáculos e recebo muitas demonstrações de carinho e respeito. Inveja e desprezo são sentimentos absolutamente pequenos. Penso assim… Enquanto os invejosos sofrem, eu trabalho. Caminho em paz e feliz.

Você pode dizer que ganha muito dinheiro? Ficou rico?

Não ganho tanto dinheiro assim. Sou rico de saúde, mas venho de uma família bem estruturada e posso garantir que estou muito feliz com as escolhas que fiz. Estou sempre pronto para o trabalho e boas oportunidades. Como dizem por aí, não sou bobo nem nada. Seguro firme e vou adiante.

Depois que você passou a aplicar o espiritismo na arte, pode dizer que se transformou em uma pessoa melhor?

O espiritismo tem sido um grande colaborador para meu crescimento, mas estou longe de achar que cheguei a algum lugar, que sou o melhor. Continuo dando um passo a cada dia.

Sua família também segue o espiritismo?

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Ninguém na minha família segue o espiritismo. Tenho quatro filhos, o Thiago, a Alessandra, a Maria Eduarda e o Rafael. Eles perguntam muito, querem saber o ponto de vista sobre vários temas. Na minha casa, sempre foi um kit religião, muitas escolhas diferentes, mas todos sempre com muito respeito uns pelos outros. Mamãe, no esplendor de sua sabedoria, quando perguntavam a ela sua religião, sempre respondia: “mãe não tem escolha religiosa ou filosófica. A minha é sempre a dos meus filhos”.

O inédito filme "Irma Dulce": Renato Prieto contracena com Regina Braga

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