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“Faço para limpar o meu karma”, diz o ator João Signorelli, de “Gandhi, A Ética Inspiradora”

Desde 2003, o ator João Signorelli, de 57 anos, faz das palavras do líder indiano Mahatma Gandhi (1869-1948) seu melhor ganha-pão. O monólogo “Gandhi, Um Líder Servidor” foi rebatizado de “Gandhi, A Ética Inspiradora”, mas o conteúdo continua o mesmo que o consagrou. Numa espécie de palestra, o líder pacifista indiano aponta possíveis soluções para […]

Por Dirceu Alves Jr. Atualizado em 26 fev 2017, 20h58 - Publicado em 12 set 2014, 08h56
João Signorelli como Gandhi: temporada no teatro e sessões para empresas (Foto: Alexandre Schneider)

João Signorelli como Gandhi: além do teatro, sessões para empresas (Foto: Alexandre Schneider)

Desde 2003, o ator João Signorelli, de 57 anos, faz das palavras do líder indiano Mahatma Gandhi (1869-1948) seu melhor ganha-pão. O monólogo “Gandhi, Um Líder Servidor” foi rebatizado de “Gandhi, A Ética Inspiradora”, mas o conteúdo continua o mesmo que o consagrou. Numa espécie de palestra, o líder pacifista indiano aponta possíveis soluções para os conflitos mundiais e repassa sua biografia na forma de uma agradável conversa. A montagem está em cartaz na Sala Myriam Muniz do Teatro Ruth Escobar, todos os domingos, às 17h45, com ingressos a R$ 30,00. Mas não é só isso. Signorelli faz uma média de oito apresentações fechadas por mês, com cachês que variam de  1 500 reais a 7 500 reais.

Por que Gandhi?

Eu fui chamado pelo Miguel Filiage, que é autor e diretor da peça, para fazer a abertura de um fórum de recursos humanos em 2003. O tema era lideranças. Ensaiamos dois meses, li todos os livros que pude encontrar sobre Gandhi e sobre a Índia e vi várias vezes o filme dirigido pelo Richard Attenborough. No Youtube, tem vários vídeos com os discursos do Gandhi. Essas foram as minhas principais fontes no processo de criação, além dos livros “Esta Noite a Liberdade”, de Dominique Lapierre e Larry Collins, e a autobiografia “Minha Experiência com a Verdade”. Quando acabamos a primeira apresentação nesse fórum, o Miguel me disse que uma empresa já tinha comprado dois espetáculos. Então pensei que um trabalho tão lindo não podia acabar assim e decidimos tocar em frente. Senti ali um caminho muito positivo.  Comecei uma temporada no Mojave Jazz Bar, na Vila Madalena, que cobrava ingresso de trinta reais. Eu ficava com quinze reais e o proprietário com o resto. O público tinha duas opções de pratos para o jantar. Repetimos essa fórmula no restaurante Sattva Natural, no ano seguinte, e só depois comecei a me apresentar em teatros. Logo começou um boca a boca incrível, vieram outros convites de empresas e virou esse trabalho.

O que o fato de interpretar Gandhi interferiu ou mudou em sua vida?

Não dá para passar incólume por um personagem desse porte. O compromisso com a equipe foi de não mentirmos mais, nem mesmo socialmente, e cumprirmos tudo o que for prometido. Isso transforma sua relação com as pessoas. Você fica verdadeiro, e as pessoas automaticamente se tornam verdadeiras com você. No mais, eu sempre fui muito tranquilo.  Pratico tai chi chuan desde 1980 e já tinha um pezinho no Oriente. Aliás, acho que o Gandhi surgiu na minha vida por causa dessa prática disciplinada. Desde dezembro de 1990, eu não falho um dia. Fui criado numa casa católica, mas sempre fui muito curioso sobre o que estamos fazendo aqui e para onde vamos. Então, desde menino, tenho muita fé no ser humano e nas forças espirituais.

Como explicar a empatia do público com a peça?

Acho que a empatia com o publico vem da maneira simples e direta que Miguel construiu a dramaturgia. O texto toca direto no coração das pessoas e, por essa verdade interior que cultivo no trabalho, o publico percebe quando o ator é sincero em cena e aí embarca junto dele. Já passei por quinze Estados do Brasil e cheguei a me apresentar no Porto, em Portugal, em um festival de teatro. Fora os teatros convencionais, eu levo o espetáculo para empresas, hospitais, universidade, colégios, escolas de ioga, presídios e até para casas particulares.

Qual foi o retorno mais significativo de público que você recebeu depois de uma apresentação?

Dias depois de uma apresentação na penitenciária feminina de São Paulo, uma mulher revelou uma coisa muito tocante para a diretora da cadeia. Essa detenta disse que, logo depois da peça, quando foi recolhida para a cela, sentiu pela primeira vez uma mão amiga em seu ombro. E era Gandhi. Fiquei muito emocionado quando a diretora da penitenciária me ligou, no dia seguinte, para contar isso.

Existe um retorno financeiro significativo?

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O  maior recurso financeiro vem das apresentações fechadas em empresas, universidades e hospitais. Faço também algumas sessões para órgãos dos poderes executivo e judiciário. Fora a temporada convencional, eu faço uma média de oito apresentações por mês. No teatro, eu não ganho quase dinheiro, mas é uma grande vitrine. Se alguém quer me contratar, vai até lá me ver e conversamos.

Qual é seu cachê por apresentação?

Tenho várias faixas de preços, que podem variar de 1 500 reais até 7 500 reais. Tudo depende do local, das condições do contratante e da estrutura oferecida. Não é por causa do dinheiro que vou deixar de fazer a peça. Para mim, o mais importante é saber que mais e mais pessoas estão ouvindo as palavras de Gandhi.

Já te fiz essa pergunta tempos atrás, mas vou refazê-la… O cabelo raspado exigido para Gandhi não limita suas opções de trabalho?

O fato de estar careca limita muito, claro, mas eu não ligo. Posso até deixar de ganhar um bom dinheiro com outros papéis ou até mesmo com campanhas publicitárias, mas interpretar Gandhi é o mais importante trabalho da minha vida. Alguns diretores me chamam e topam deixar o personagem careca. Outras vezes, uso boné ou chapéu. O Gandhi é realmente a minha missão como artista e cidadão.

Por outro lado, você já chegou a recusar personagens por questões filosóficas, não?

Tenho recusado, sim, alguns trabalhos, como papéis de vilão na televisão. Eu acho que o que é mostrado na TV fica muito forte na mente do público. Na série “Amazônia, De Galvez a Chico Mendes”, da querida Glória Perez, eu fui chamado para fazer um dos matares do seringueiro acreano. Eu falei para o Marcos Schechtman, diretor da série, que faço Gandhi para limpar o meu karma. Então, eu não teria condições de apresentar a peça à tarde e, horas depois, meter uma bala na cabeça do Chico Mendes. O público iria dizer que eu era um picareta. Como é possível o Gandhi matar o Chico Mendes? O Marcos e a Glória entenderam a minha posição e me deram um outro personagem na história, o fotógrafo do jornal de Rio Branco.

Você não sente vontade de fazer coisas novas no teatro e ou deixa esse desafio para outros veículos, caso esses trabalhos apareçam?

O desafio é manter a concentração e entrar em cena para fazer sempre como se fosse o primeiro espetáculo da temporada. Não dá para cair no automático e preciso sempre manter o frescor. Tenho participado de outros trabalhos. Acabei de filmar “Mondo Cane”, dirigido pelo Marcos Jorge, e ainda participarei de dois outros longas-metragens até o final do ano, um do cineasta Toni Venturi e outro do Marcos Schechtman. Este último vai tratar sobre a história que culminou na Lei Maria da Penha. Atualmente, também faço uma participação na novela “Chiquititas”, no SBT. Então, o trabalho continua firme. Mas o Gandhi é uma prioridade.

João Signorelli: (Foto: Letícia Primez)

João Signorelli: “Gandhi é minha missão como artista e cidadão” (Foto: Letícia Primez)

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