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Arte ao Redor Tatiane de Assis é repórter da Veja SP. Acredita que as artes visuais podem aproximar pessoas e descortinar novas facetas da vida.

Como começar a montar seu acervo pessoal de obras de arte

Segundo colecionadores e especialista em conservação, é preciso avaliar a trajetória de um artista e os cuidados de manutenção da peça

Por Tatiane de Assis Atualizado em 2 abr 2021, 01h38 - Publicado em 2 abr 2021, 06h00

Ler, ver e colecionar

“Comecei a colecionar de verdade em 2011. Demorou um tempo até me sentir seguro para comprar uma obra de 5 000 reais. Hoje já tenho trabalhos que custaram mais de 20 000”, detalha o publicitário Edmar Costa Pinto, de 35 anos, que tem um acervo pessoal com mais de 400 peças, com nomes do naipe de José Bezerra e Conceição dos Bugres (1914-1984) e voltadas para a chamada arte popular.

“Esse termo [arte popular] é reducionista. põe muita gente diferente no mesmo lugar. E mais: classifica um tipo de arte pela origem social de quem a produz, que, na maioria das vezes, tem pouco poder aquisitivo”, argumenta ele, que leva a busca de artistas e obras a sério. “Colecionar é pesquisar. Leio livros, revistas sobre o tema, frequento exposições e vou a ateliês.”

Edmar com o artista Estevão Silva (à esq.) e pintura de Antônio Roseno (à dir.): coleção e pesquisa
Edmar com o artista Estevão Silva (à esq.) e pintura de Antônio Roseno (à dir.): coleção e pesquisa Reprodução/Instagram/Divulgação

Busca no Instagram

Antônio Elias mora em um prédio próximo ao Shopping Pátio Higienópolis. “Tenho obras do chão ao teto”, diz ele, que é representante comercial. “Com essa crise, minha renda caiu 80%, então parei de comprar”, explica o colecionador, que dispõe em seu acervo pessoal de cerca de 100 trabalhos, a maior parte feita por artistas ligados à street art, como Ozi Stencil e Gabs Instinto Coletivo. “Em tempos de isolamento social, uma boa é falar com os artistas pelo Instagram”, sugere ele, que já chegou a gastar 1 800 reais em uma obra de Tito Ferrara. Sua postura na compra é reta e direta: “O cara coloca a alma dele lá, então não pechincho. Se eu tenho o dinheiro, pago. Se não tenho, deixo para lá”.

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antônio elias e suas obras de arte
Antônio Elias e sua coleção: street art do chão ao teto Antônio Elias/Divulgação

Como escolher obra e artista?

“Saber se uma obra vai se valorizar ao longo dos anos é a pergunta de 1 milhão de dólares na arte. Não tem bola de cristal para isso, mas há alguns indícios”, explica Camila Yunes, de 28 anos, que comanda uma consultoria para novos colecionadores, o Kura. “É preciso saber de que exposições o artista participou, se os trabalhos dele integram coleções e quais são elas”, complementa Camila, que também atua na gestão de um dos acervos mais importantes do país, com mais de 30 000 obras, iniciado pelo avô, o empresário Jorge Yunes (1932-2017). “É fundamental também que o artista escolhido tenha consistência. O entorno o influencia, mas o mais importante são suas motivações internas.”

Sobre a compra de trabalhos pela internet, ela dá uma dica: “Por causa das camadas e das cores, é mais difícil comprar on-line a pintura, mas você pode pedir um vídeo que mostre a obra filmada por diferentes ângulos”. A consultora indica ainda o certificado de autenticidade. “É fundamental que o colecionador tenha esse documento, emitido pelo artista com detalhes como ano, técnica e nome do trabalho, acompanhado de um registro fotográfico da peça.”

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Dicas para conservação de obras em coleção pessoal

Cuidar das obras de arte de uma coleção pessoal é tão importante quanto adquiri-las. “Elas são parecidas com seres humanos. É preciso higienizá-las, observar a temperatura a que estão sendo submetidas, e por aí vai”, resume a conservadora e restauradora Tatiana Russo, de 40 anos. Sua primeira dica é sobre a escolha de um ambiente para colocar os trabalhos artísticos. “É preciso evitar o sol. A luminosidade altera as cores de pinturas, desenhos e fotografias. O aumento da temperatura, por sua vez, acelera o processo de oxidação. Obras em papel nessas condições tendem a ficar amareladas rapidamente.”

A umidade, ela aponta, é outra vilã: “Podem aparecer fungos. Eles vão tomando as telas da parte de trás para a frente. Quando se fazem perceptíveis, pode ser tarde demais”. Na limpeza de molduras, Tatiana aconselha o uso de uma flanela macia e seca. No caso dos vidros protetores, é possível usar essa mesma flanela, com uma pequena quantidade de álcool. Não é indicado borrifar o líquido diretamente sobre a superfície.

A profissional fala ainda da retirada de poeira de uma pintura: “É algo mais complicado, mas você pode fazer com um pincel macio, bem de leve, quase sem tocar na tela”. Ficou com dúvida? A restauradora aponta outro caminho: “Você pode contratar uma equipe de conservadores para fazer o trabalho ou para dar um treinamento a você e seus funcionários”.

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Publicado em VEJA São Paulo de 07 de abril de 2021, edição nº 2732

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