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Arte ao Redor Tatiane de Assis é repórter da Veja SP. Acredita que as artes visuais podem aproximar pessoas e descortinar novas facetas da vida.

A famosa tela Independência ou Morte (1888) foi restaurada

Obra apelidada como O Grito do Ipiranga, teve sua restauração finalizada em 21 março. A aplicação final de verniz ficou para 2022

Por Tatiane de Assis Atualizado em 8 Maio 2020, 14h04 - Publicado em 8 Maio 2020, 06h00

Em outubro de 2019, nove profissionais, sob o comando de Yara Petrella, de 71 anos, iniciaram o processo de restauro da tela Independência ou Morte (1888), de Pedro Américo (1843-1905). A pintura é parte do acervo do Museu Paulista, localizado no Parque da independência. Apelidada de O Grito do Ipiranga, a obra fazia parte do dia a dia da funcionária da instituição, também chamada de Museu do Ipiranga. “No salão nobre, onde ela fica, ouvíamos queixas dos visitantes sobre o seu aspecto desgastado”, relembra Yara. “Já havia pedido outras vezes para fazer essa restauração, mas não tinha dado certo”, afirma ela, em tom resiliente. Na reta final de alcançar seu objetivo, agora em 2020, foi pega de surpresa: “com a pandemia de Covid-19, fui afastada do trabalho, por ser parte do grupo de risco”. Em uma força-tarefa da equipe, o restauro foi concluído em 21 de março, restando a aplicação de verniz, que deve ser feita em 2022, antes da reabertura do museu.

Moldura tinindo

José Rosael/Divulgação

Quatro profissionais da equipe de Yara ficaram a cargo da restauração da moldura. entre os problemas detectados estavam a perda de ornamentos originais e do acabamento na parte inferior. Essa última questão foi solucionada com a aplicação de folhas de ouro. Para que elas não destoassem do conjunto, utilizou-se pátina para a uniformização da estrutura. Outra curiosidade: os ventiladores instalados no salão nobre foram desligados para que as folhas não voassem. Os equipamentos eram importantes para fazer circular o ar no ambiente, que muitas vezes era tomado pelo cheiro forte de solventes.

Trabalho nas alturas

Instalada no salão nobre do Museu Paulista, que tem pé-direito de 10 metros, a tela de Pedro Américo é um gigante com mais de 4 metros de altura e 7 de largura. Para dar conta dela, a equipe de Yara contou com a ajuda de andaimes. “Era uma estrutura multidirecional, então podíamos percorrê-la”, explica a restauradora. “Assim conseguíamos acessar diferentes áreas da pintura simultaneamente”, detalha ela. A primeira fase do restauro começou, no entanto, em 2017, com um levantamento de documentos sobre a pintura. Nessa ponta do iceberg foram obtidos detalhes sobre as cores originais, bem como as áreas retocadas nos três restauros anteriores, sendo o último de 1972.

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Palitinhos de bambu

José Rosael/Divulgação

A segunda etapa do restauro foi a realização de fotografias do quadro, com lâmpadas ultravioleta, no ambiente escuro. “Um procedimento ajuda a confirmar as informações obtidas no outro, o que nos dá mais certeza no trabalho”, elucida Yara. Com o diagnóstico que constatava o craquelamento e tons alterados na região do céu nas mãos, a equipe se defrontou com o quadro. Para eliminar a sujeira acumulada ao longo do tempo foi feita uma limpeza. Palitos de bambu com algodão enrolado na ponta foram usados para isso. Eles eram embebidos com água deionizada (sem sais minerais).

Faz e desmancha

José Rosael/Divulgação

Com as imagens conseguidas com lâmpada ultravioleta, confirmou-se que havia na pintura marcas de figuras desfeitas por Pedro Américo. “Ele mudou sua assinatura de lugar. No centro da tela, encobriu uma folha de bananeira”, revela Yara. Uma informação interessante nesse apaga-esconde é que o pintor deixava entrever as figuras anteriores no resultado final, por meio da aplicação de uma tinta transparente. “É algo bem sutil. Mantemos porque o restaurador nunca pode interferir nas obras dos pintores”, pontua, em tom firme, Yara.

 

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 13 de maio de 2020, edição nº 2686.

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