Bichos

Zoológico de Taboão da Serra enfrenta crise

O projeto de reforma do espaço, que contabilizou seis mortes de bichos nos últimos meses, tenta acabar com os problemas de sua estrutura decadente

Por: Carolina Giovanelli - Atualizado em

Leão no Zoológico de Taboão da Serra
A leoa Helga: sozinha após a morte de quatro felinos no ano passado (Foto: Mario Rodrigues)

Em outros tempos, o Parque das Hortênsias, localizado em Taboão da Serra, na região metropolitana, era motivo de orgulho para a população local. Fundado em 1978 em um terreno de 48 000 metros quadrados, atraía visitantes também dos municípios vizinhos, interessados principalmente em seu zoológico, que se formou na década de 80. Nos últimos anos, entretanto, os passeios no parque — que ganhou seu nome por causa das 5 000 mudas de hortênsia plantadas na inauguração — não deixam mais os cerca de 15 000 visitantes mensais tão satisfeitos. Não só não se encontram mais as flores como também fica bastante visível um descaso duradouro, principalmente em relação aos animais. As jaulas, em grande parte vazias, têm grades enferrujadas, quebradas e emendadas com arame. Há paredes pichadas e placas deterioradas ou escritas a mão. Bichos que deveriam viver com companheiros levam uma vida solitária. Alguns dos recintos são pequenos (impedem, por exemplo, o voo mais livre das aves), com muito concreto e pouca vegetação.

 

 

As reclamações de frequentadores vinham sendo cada vez mais constantes, mas a crise chegou ao ápice no segundo semestre do ano passado. A morte de uma jaguatirica, em julho, seguida da de um tigre, em agosto, além da de um leão e uma tigresa, em novembro, desencadeou uma série de protestos de ativistas da proteção animal. Segundo o zoológico, os felinos não morreram por falta de assistência. “A jaguatirica teve parada cardíaca, o tigre possuía problemas renais, o leão sofria em razão de um parasita sanguíneo e a tigresa, por causa de tumores generalizados, precisou ser sacrificada”, diz Talita Gonçalves, veterinária do zoo há dois anos. 

Zoológico de Taboão da Serra
Espaço dos saguis, com grades enferrujadas: descaso (Foto: Mario Rodrigues)

Esses graves episódios provocaram protestos, abaixo-assinados, bloqueio de estrada e até o acampamento de manifestantes durante um mês no estacionamento do espaço. Em mais de uma ocasião, o parque fechou as portas com medo de invasão e furtos e de uma reprise do caso dos beagles. Munidos de vídeos e fotos, os ambientalistas conseguiram aliados na internet. “Já sou contra a existência de zoológicos, nesse estado então...”, afirma a ativista Neusa Kuraoka. “Eu procuro nem ir aonde estão os animais, porque sempre choro.” Também entraram na conta recente de óbitos um pavão e um gavião, que precisou ser sacrificado. “Se não mudarem as condições, mais bichos vão morrer”, alerta a bióloga especializada em animais silvestres Elizabeth Teodorov. Ao lado da advogada Antília Reis, da Comissão de Proteção e Defesa Animal da OAB de São Bernardo do Campo, Elizabeth faz parte do grupo que luta por mudanças. “Os profissionais não têm a experiência necessária. As enfermidades dos felinos poderiam ter sido diagnosticadas muito antes. Animais doentes não devem ficar expostos, isso os estressa”, critica ela.

 

O estardalhaço foi suficiente para que a prefeitura tomasse providências. “O zoo foi construído por intuição, naquela época não havia legislação como a de hoje”, afirma o prefeito de Taboão da Serra, Fernando Fernandes Filho, que acusa a administração passada de descaso. “Com o tempo, não foram realizados os ajustes necessários.” Em fevereiro, o município e o Ministério Público assinaram um termo de ajustamento de conduta (TAC) que trata das tão esperadas reforma e regularização do parque. O tempo estimado para as obras é de dois anos, com custo de 1,2 milhão de reais, quase o orçamento anual do espaço, de 1,5 milhão de reais.

Zoológico de Taboão da Serra
Talita, veterinária do zoológico há dois anos: ela afirma que os bichos são bem tratados (Foto: Mario Rodrigues)

Alguns entraves, porém, ainda impedem o sucesso da operação. Os projetos arquitetônicos revisados foram entregues em 14 de abril ao Departamento de Fauna da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, que precisa aprovar tudo. “Nosso prazo para análise é de 180 dias, mas prevemos fazê-la em quarenta dias”, promete Daniel Glaessel, coordenador de recursos naturais e biodiversidade do órgão. “Para alguns recintos não basta reforma, eles terão de ser completamente reconstruídos.” Pequenas mudanças que não dependem de burocracia já foram concluídas, como a construção de um playground e o recapeamento do asfalto.

Durante as obras, espera-se que o parque não seja fechado. Algumas espécies, porém, precisarão ser removidas temporariamente. A leoa Helga, de 14 anos, que vive sozinha após a morte de seus companheiros felinos, será transferida para a ONG Mata Ciliar, em Jundiaí. O prazo original de migração era o fim deste mês, mas surgiu um imprevisto. O zoológico de Americana, a 125 quilômetros da capital, apelou para a associação acolher o leão Panta para exames, após a divulgação pela internet de uma foto do felino magérrimo. Enquanto não se descobre seu problema de saúde, Panta ocupa o lugar de Helga. “Pretendemos recebê-la em meados de junho”, diz Cristina Adania, coordenadora de fauna da Associação Mata Ciliar. Alguns macacos-prego e aves de rapina também passarão “férias” ali.

 

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No projeto de reforma, incluem-se recintos mais espaçosos. No caso dos saguis, suas jaulas deverão ficar a 1,5 metro de distância dos frequentadores. Hoje, o público consegue tocá-los. Em uma das visitas da reportagem de VEJA SÃO PAULO ao local, no último dia 20, alguém havia esmagado uma fruta para dentro da jaula. Poderia ter sido outra coisa. Demais questões que envolvem segurança também devem ser sanadas. Entre 2012 e 2013, por duas vezes, vândalos invadiram as jaulas dos jabutis, de fácil acesso, e os jogaram para os jacarés comerem. Um deles morreu. Logo, os répteis foram removidos, assim como os pavões, que precisaram ir de improviso para uma jaula inicialmente construída para felinos, pois pombos invadiam seu cercado. Além disso, ratos costumavam comer a comida das araras e pets dos vizinhos, como gatos, ainda entram em alguns dos cubículos. Os ambientalistas conseguiram que a queima dos fogos de artifício da encenação da Paixão de Cristo, realizada tradicionalmente no estacionamento, não acontecesse ali neste ano para não atrapalhar os bichos. Com estrutura fora dos padrões exigidos pelo Ibama, o zoológico não recebe novos animais há tempos. Hoje, são cerca de 200 exemplares, muitos idosos. Por isso, existem espécies solitárias e jaulas vazias. Somente com uma boa faxina geral será possível mudar esse quadro de decadência que ameaça a segurança dos animais e dos visitantes.

Fonte: VEJA SÃO PAULO