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Petit, o caçador de livros

Em 2011, a livraria Freebook abriu na Rua da Consolação 1.924; conheça Petit, o homem que encontra os livros dos sonhos de qualquer um

Por: Milena Emilião - Atualizado em

Livraria Freebook - Petit
A primeira vista da livraria Freebok, que fica na Rua da Consolação, 1924 (Foto: Divulgação)

Foi por influência da mulher, Cris, que Manuel Dias Teixeira Neto se transformou em um livreiro, ou seja, um negociante de livros. Petit, como é chamado desde a infância – foi a primeira palavra dita pelo irmão caçula –, é amigo de famosos e fornecedor de gente importante - como estilistas e empresários. Nomes, ele diz poucos, por discrição e por não se lembrar deles mesmo. Sabe do que os clientes gostam, do que costumam pedir ou comprar, mas com nomes ele nunca foi bom.

Livraria Freebook - Petit
Petit (Manuel Dias Teixeira Neto) na livraria Freebook, quando o depósito era na Rua Augusta na década de 90 (Foto: Arquivo pessoal)

Paulista de Santos, veio para São Paulo aos 22 anos fazer um curso de fotografia com o hoje amigo J.R. Duran. O pai é filatelista, e é da paixão pela coleção herdada que veio o jeito com os livros. Viveu por anos na Rua Peixoto Gomide – mas trocou a facilidade do centro pela tranquilidade da Granja Julieta.  Ali  cria seus dois cachorros e um papagaio, cuida do jardim e assiste aos macaquinhos passearem entre as árvores.

Gosta mesmo é de gastar seu tempo com os livros. Tanto que fez do garimpo, do trabalho de detetive, sua profissão. Na ditadura precisou explicar para os oficiais que o Kama Sutra não é leitura de subvertidos. Durante 34 anos,  importava livros e nunca teve um espaço público para expor suas conquistas. Em suas visitas às maiores feiras de livro do mundo (lembra-se do tempo em que esses eram os grandes eventos da cidade e até  de  festa no último andar do Rockefeller Center e no MoMa – em Nova York – já participou), fazia contato com importantes editoras e sabia de antemão o crème de la crème prometido para os próximos meses. É dele, por exemplo, o primeiro lote de Harry Potter que chegou ao Brasil, em inglês. E foi ele quem separou um exemplar e enviou para o Paulo Rocco (da Editora Rocco) que foi providenciando a tradução para o português. Este foi o seu maior lucro. E torce para que o mercado editorial tenha um Harry Potter por ano.

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No final de 2011, cedeu à pressão dos filhos Maíra e Ivo (que mantêm um blog sobre livros) e abriu uma loja para a Freebook (a empresa já existe com esse nome desde os anos 1980). Aceitou a sugestão, mas não quis uma loja qualquer. No meio da Rua da Consolação (número 1.924), entre as incontáveis lojas de iluminação e ao lado do cemitério, abriu as portas para o público, mas apenas para os que tocam a campainha e se identificam. E justifica: “Não vendemos CD ou DVD, não tenho livros nacionais, não vendo lustres. Com a porta aberta entra alguém ‘Pô, meu, é sebo? Você tem o Pato Donald?’ Não”. “E a poeira? Se eu deixar a porta aberta os livros vão se encher de poeira."

O atendimento é o mesmo de quando a loja era só no tête-à-tête. O cliente explica o que está procurando e Petit, sua mulher, filha ou uma das poucas funcionárias tentam ajudar. O trunfo é o inesperado. Petit sabe como agradar. Ele se lembra de quando uma senhora foi procurá-lo porque precisava presentear um ricaço que gostava de gamão e golfe. “O que dar para quem tem tudo?”, afinal. Petit tinha a resposta: uma coleção impossível de arte (Impossible Collection: The 100 Most Coveted Artworks of the Modern Era, ao preço de quase 2 000 reais, reúne obras de arte que são propriedade de museus e nunca poderão ser arrematadas num leilão). O presente foi dado, o presenteado adorou e a presenteadora se sentiu orgulhosa, e fez questão de agradecer ao Petit.

Paper Passion - livro à venda na Freebook
Paper Passion fragância de Geza Schoen, Gerhard Steidl e revista Wallpaper, com embalagem criada por Karl Lagerfeld e Steidl - à venda na Freebook (Foto: Divulgação)

Livros como os que ele vende ou é capaz de encontrar a pedido de um amigo nunca vão deixar de existir. “Esse aqui é um perfume com cheiro de livro  (Paper Passion), só foi feita essa edição. Acabou, acabou. Tive que trazer como bagagem de mão no avião, porque é produto inflamável, pra despachar ia ficar caro demais”, explica. “Abre o livro (que fica no armário chaveado), mexe. Onde você já viu um livro assim no mundo? Sente o cheiro (abre o frasco de perfume que está dentro do livro). É um livro e, ao mesmo tempo, uma embalagem para um perfume com cheiro de livro novo.” 

Dentro do livro, um frasco de perfume criado por Karl Lagerfeld recria o cheiro das páginas recém-impressas.  É por isso que não teme em afirmar que o livro impresso nunca vai acabar.  A raridade, na Freebook, custa R$ 312,00. Petit sabe que o que vende é especial e trata seu acervo com o cuidado de um curador de Bienal.

Fonte: VEJA SÃO PAULO