Carreira

No coração do Google paulistano

Cerveja e guloseimas grátis na geladeira, mesa de sinuca para relaxar no expediente e outras regalias que fazem o escritório ser até quatro vezes mais disputado que o vestibular de medicina da USP

Por: Daniel Bergamasco - Atualizado em

Google - Cantina
A cantina, batizada de Baixo Augusta: escritório pouco convencional (Foto: Fernando Moraes)

Há pouco mais de um ano, um representante do bilionário Eike Batista tinha reunião agendada no escritório paulistano do Google, na época localizado no cruzamento das avenidas Faria Lima e Juscelino Kubitschek, com o principal executivo da empresa, o diretor-geral Fábio Coelho. Era o Dia do Rock, e o anfitrião havia ido trabalhar a caráter, fantasiado de Lenny Kravitz, com trajes reluzentes e tinta escura na pele. Ao passar pelo diretor de comunicação Felix Ximenes, que também participaria do encontro, Coelho reprovou suas roupas triviais e o convenceu a colocar peruca e óculos escuros, de modo a se transformar em um clone de Joey Ramone. O convidado não disfarçou o espanto quando se encontrou com a dupla de roqueiros. “Ele depois entendeu o espírito da coisa e até achou tudo muito engraçado”, lembra Ximenes.

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Google
Priscila Vieira (à esq.) e Karina Roque, da área comercial: ambientes para pausas (Foto: Fernando Moraes)

A cena seria improvável na maior parte das empresas da cidade, mas não no Q.G. brasileiro do gigante do Vale do Silício. Desde janeiro, ele está instalado em novo endereço, em outro trecho da Faria Lima, no cruzamento com a Avenida Horácio Lafer, onde esse espírito corporativo pouco convencional ganhou mais espaço. São 9.000 metros quadrados ocupando o 18º, o 19º e parte do 20º andar de um dos três blocos do recém-inaugurado edifício Pátio Victor Malzoni, o mais caro da capital. O local é repleto de funcionários jovens (30 anos, em média) e instalações inusitadas, como sala de jogos de videogame, uma área com redes para cochilo e uma mesa de bilhar instalada num ambiente decorado como um boteco moderninho, com uma prateleira de garrafas coloridas ao fundo e luzes de LED mudando de cor no teto. “Pessoas inteligentes gostam de controlar o próprio tempo e de ser cobradas pelo desempenho”, diz Coelho. “Dispensar o terno ou usar o notebook na espreguiçadeira não significa ter menos concentração”, reforça o advogado Daniel Arbix, que elabora contratos.

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Na sede nacional da companhia que criou o mais eficaz programa de buscas pela internet e desenvolve protótipos de engenhocas inovadoras, de carros elétricos a óculos que funcionarão como smartphones, as mesas dos funcionários são em geral customizadas por seus ocupantes com objetos variados, como uma bandeira do Rio Grande do Sul ou bonequinhos no estilo toy art. A combinação tênis, jeans e camiseta está entre as prediletas dos que lá trabalham. Nas instalações quase sempre silenciosas, é comum ver alguém com seu notebook em um pufe ou em uma poltrona confortável. Alguns trabalham em pé, pois as mesas são ajustáveis para isso. Um painel eletrônico vai sendo atualizado a todo momento com os termos mais procurados por internautas do mundo inteiro. Em outro espaço, é possível navegar pelo programa Google Earth num conjunto de cinco TVs de plasma de 55 polegadas.  

A rotina incorpora numa escala acima da média várias das facilidades da tecnologia digital. Recrutar profissionais por videoconferência, sem nenhum contato presencial, mesmo para cargos altos, é algo rotineiro. Reuniões a distância são feitas o tempo todo. Para os encontros ao vivo, o maior espaço disponível é o Maracanã, como foi nomeada a sala com capacidade para 250 pessoas, acomodadas entre as cadeiras de uma grande mesa quadrada e alguns pufes coloridos ao seu redor. As várias áreas para lanches também levam nomes bem-humorados. Há, por exemplo, a Cantina do Bexiga, o Baixo Augusta e a Feira Livre, locais em que se podem consumir frutas, castanhas, barrinhas de cereal, refrigerantes, sucos e chocolates diariamente e, às quintas-feiras, cerveja no fim do dia. Tudo de graça, inclusive o almoço.

Google - Daniel Arbix
O advogado Daniel Arbix: revisão de contratos nas espreguiçadeiras (Foto: Fernando Moraes)

Os bônus, que eventualmente chegam a quatro salários em um ano, e outros benefícios generosos completam o pacote de características que ajudaram o Google a ser considerado um dos lugares para trabalhar mais cobiçados por jovens talentos. A empresa não cita valores, mas um recém-formado pode ter um salário inicial entre 4.000 e 5.000 reais, e não é incomum alguém com menos de 30 anos receber mais de 10.000 reais no contracheque. O resultado é que a disputa para ingressar ali faz o vestibular de medicina da USP, de 56 candidatos por vaga, parecer jogo de par ou ímpar. Houve 61.535 postulantes às 250 posições abertas em 2012, uma relação de 246 por um. Aos interessados, uma boa notícia. “Até o fim de 2013, criaremos mais de cinquenta vagas”, planeja Coelho. Não estão contabilizados aí os 25 postos para estagiários abertos na semana passada.

Fabio Coelho - Google
Fábio Coelho, o chefão da sede: reuniões semanais com toda a equipe e fantasia de Lenny Kravitz (Foto: Fernando Moraes)

O Google chegou ao país em 2005, quando inaugurou em São Paulo o centro de suas operações. No mesmo ano, os fundadores Larry Page e Sergey Brin estiveram aqui. As informações sobre o desempenho do negócio são tratadas como segredo de estado, mas circulam no mercado dados não oficiais que situam a filial brasileira já entre as cinco mais rentáveis do mundo. O anuário Melhores & Maiores da revista EXAME registrou que a receita cresceu 74% só entre 2009 e 2010. Em 2012, a publicação estimou o faturamento líquido em 728 milhões de reais. De dois anos para cá, o número de empregados praticamente dobrou — hoje há 400.

Google - estúdio de gravação
Ines Schinazi e André Menezes, do time de novos negócios: estúdio musical criado a pedido dos empregados (Foto: Fernando Moraes)

Um incentivo extra para atrair talentos é o fato de graduados em qualquer curso poderem se inscrever. Enquanto o endereço menor da companhia no país, localizado em Belo Horizonte, concentra a produção de tecnologia, no escritório paulistano praticamente todos atuam nas áreas de marketing e vendas, para as quais a empresa não exige formação específica nem experiência. “O que procuramos são pessoas com histórico de liderança, seja formando uma banda, seja ajudando uma comunidade carente”, explica a diretora de recursos humanos para a América Latina, Mônica Santos. “Interesses variados, de fotografia a esportes, também são uma característica comum entre os aprovados.”

Google - restaurante
Espaço de almoço a céu aberto: as refeições e as guloseimas são gratuitas (Foto: Claudio Pepper)

Como resultado desse critério de seleção, a variedade de perfis é comparável à de um câmpus universitário. A goiana Priscila Vieira, de 28 anos, viveu nos Estados Unidos desde a infância, época em que o pai, pastor presbiteriano, foi convocado para abrir uma igreja em Nova Jersey. Ela cursou neurobiologia em Harvard e, após a formatura, decidiu voltar à sua terra natal, onde o reluzente diploma não lhe serviu de nada. “Passei um ano deprê, não conseguia emprego nem como vendedora, até enfim ser contratada por uma indústria química”, conta. Em janeiro de 2012, depois de mandar o currículo para várias vagas do Google, conquistou a sua. Priscila tem como função orientar pequenos e médios anunciantes dos links patrocinados a se posicionar melhor no buscador, cadastrando as palavras mais certeiras, por exemplo. É uma tarefa semelhante à de Karina Roque, de 29 anos. Nascida no bairro de Santana, na Zona Norte, ela estudou a vida toda em escolas estaduais. Aos 15 anos, começou a trabalhar como secretária na corretora de seguros do tio. “Só consegui bancar o curso de publicidade no Mackenzie porque tinha bolsa de 90%, por representar a instituição em campeonatos de natação”, diz. Para completar o mosaico de origens, há dez estrangeiros, caso do libanês Khalil Yaghi, que em seu país foi socorrista voluntário de vítimas de atentados terroristas. 

Avisos do Google
Avisos engraçadinhos: cultura de humor e criatividade (Foto: Fernando Moraes)

Ao mesmo tempo em que valoriza a originalidade nos perfis, o Google incentiva suas equipes a cultivar hobbies no próprio ambiente corporativo. O maranhense Edson Jr. dá aulas de forró aos colegas em uma sala de reuniões, às segundas, após o horário comercial. Houve ainda ocasiões em que todos foram convidados a ir vestidos de pijama e a participar do “Bigoday”, usando um “bigode esquisito”, natural ou falso. Um lugar assim certamente não é unanimidade. “Muita gente acha isso a maior bobagem, mas sabe que perderá pontos se não entrar no clima”, observa um ex-executivo. Para quem se encaixa no espírito da coisa, as recompensas são boas. Uma delas é um estúdio de gravação, sugestão de um googler (como são chamados os membros do time) que atentou para as várias bandas formadas por colegas e a facilidade que elas teriam para ensaiar. “É uma pausa rápida, uma hora por semana, que faz toda a diferença”, afirma Ines Schinazi, de 26 anos, que entoa lá seus covers de Bob Dylan com André Menezes, 30, colega no setor de novos negócios e seu acompanhante no violão.

O conceito de gestão e algumas das políticas de recursos humanos, com o passar do tempo, acabaram sendo mimetizados por outras companhias, dentro e fora do setor tecnológico. “Esse perfil corporativo vanguardista constitui ótimo marketing para recrutar público jovem”, avalia Marcelo Cuellar, headhunter da consultoria Michael Page. “Além disso, muitos empreendimentos do universo pontocom optaram pelo formato desde o início porque os engenheiros de computação praticamente moravam no emprego.” No Google, a carga pode ser bem pesada. Na hora do almoço do último dia 29, uma terça-feira, o chefão Fábio Coelho parecia bem-disposto para quem havia saído do escritório de madrugada, depois da 1 hora, e retornado para lá bem cedo, por volta das 7h30. “Ocasiões assim são a exceção”, justificou. “Trabalho, em média, onze horas por dia.” Outros membros da equipe seguem ritmo semelhante. “É raro alguém varar a noite ou vir nos fins de semana, mas as pressões das metas e as avaliações rigorosas exigem grande estrutura emocional”, resume um deles. Como na maioria das empresas de alto desempenho, os ônus não são suaves. Os bônus, porém, financeiros ou não, fazem do lugar o escritório dos sonhos de muita gente.  

O Q.G. NA FARIA LIMA

Atuação: concentra as operações de vendas e marketing no Brasil

Funcionários: 400, o dobro de dois anos atrás

Idade média: 30 anos

Porcentual de mulheres: 35%

Área ocupada: 9.000 metros quadrados

Consumo mensal nas lanchonetes: 10.000 cápsulas de café, 1.300 frascos de Yakult, 1.000 potes de iogurte, 150 dúzias de banana e 300 litros de água de coco, entre outros itens

Fonte: VEJA SÃO PAULO