Profissão

De batom, esmalte e megahair, mulheres renovam a construção civil

Multiplicação das "pedreiretes” se explica, entre outras razões, pela falta de mão de obra

Por: João Batista Jr. - Atualizado em

Pedreiretes 2274 - Mulheres na construção civil
Izoubetty, Elaine, Maria, Iraeth, Elizângela, Eli e Leidiane (da esq. para a dir.): mão na massa (Foto: Mario Rodrigues)

Um aplique de cabelo sintético importado da China, um fogão de cinco bocas e, em ato de protesto contra as bijuterias usadas até pouco tempo atrás, conjuntos de colares e pulseiras de “prata verdadeira, dessas que brilham”. Pagos à vista ou parcelados em até dez vezes, esses itens foram as primeiras compras feitas pela paulistana Elizângela Conceição, de 39 anos, após assumir seu novo emprego, há três meses. Depois de ver um anúncio de jornal e ser aprovada em processo de seleção, hoje ela trabalha como auxiliar de montagem em um condomínio residencial da construtora Even, no Morumbi, que terá sete torres de apartamentos e 287 casas. “Sou a top model da obra, mas não tenho regalia por ser mulher”, diz ela, com a boca rebocada de batom lilás. “Instalo janelas e portas, algumas com mais de 30 quilos.”

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Divorciada e mãe de dois filhos adolescentes, Elizângela abandonou o namorado quando decidiu trocar o emprego de auxiliar administrativa, pelo qual ganhava 850 reais, para trabalhar na construção civil, onde recebe 1.200. “Ele ficou com ciúme porque eu iria passar o dia todo cercada de homens.” Num universo majoritariamente masculino, as cantadas como “que esquadro bonito” são recorrentes. A regra do canteiro, no entanto, é clara: deu trela, perdeu o emprego. “Podemos até nos vestir como periguetes fora da obra, mas aqui não damos bola a nenhum pedreiro”, afirma Leidiane Assis, 22 anos, ex-pintora de frascos de perfume.

Pedreiretes 2274 - Maria Auxiliadora
Maria Auxiliadora: “Ser pintora é muito melhor do que esfregar o chão da casa dos outros” (Foto: Mario Rodrigues)

A entrada feminina na profissão é um fenômeno recente. Segundo dados da Fundação Seade, em 2008 havia 22.000 mulheres no setor. No ano passado, esse número saltou para 30.000. Comparado ao de homens, isso representa apenas 0,7% do total. “No entanto, a participação delas cresceu 20% no último ano”, afirma Antonio de Sousa Ramalho, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de São Paulo. Há diversas razões que explicam a multiplicação das “pedreiretes”. A principal delas é a falta de mão de obra. O segmento sofre com um déficit de 250.000 trabalhadores. Isso justifica a alta dos salários: um pedreiro ganha a partir de 1.168 reais, 30% mais do que em 2009.

“Eu tirava menos de 600 reais fazendo faxina. Hoje, recebo o dobro”, conta a atual pintora Maria Auxiliadora, de 32 anos. Dora, como é chamada, não se queixa de montar e desmontar andaimes de 10 metros de altura. “É muito melhor do que esfregar o chão da casa dos outros”, diz ela. Tem mais. O alcoolismo, um problema comum entre os pedreiros, não aparece na mesma proporção no universo feminino. “Elas costumam chegar no horário, são caprichosas no serviço e não abandonam a obra antes de concluí-la”, completa Ramalho.

Pedreiretes 2274 - Marina Barbosa e Giselda de Souza
Marina Barbosa e Giselda de Souza: no time de setenta mulheres que ajudam a construir o Itaquerão (Foto: Mario Rodrigues)

Enquanto ocupações como doméstica e auxiliar de cozinheira têm perspectivas reduzidas de carreira, na construção civil ocorre o oposto. Marina Barbosa, de 31 anos, desde janeiro é segurança do trabalho na obra do estádio do Corinthians, em Itaquera. Há três anos entrou na construtora Odebrecht na função de auxiliar de produção. “Quero cursar engenharia de segurança do trabalho”, afirma.

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Marina cuida do bem-estar de 1.100 funcionários, dos quais setenta são mulheres — entre elas a ex-operadora de telemarketing Giselda de Souza. “Embora seja são-paulina, tenho orgulho de ajudar a construir esse estádio”, conta Giselda, agora responsável pelo controle do estoque. “Canteiro de obra também é lugar de mulher.” Homens como Wilson Soares, encarregado dos funcionários do setor de esquadrias da Even, concordam. “Sem dúvida, o ambiente fica muito, muito mais perfumado”, diz ele.

Manual de etiqueta nos canteiros

• Barriga de fora, salto alto e cílios postiços são proibidos

• Roupas justas, como calças de elastano, também não são bem-vindas

• Anéis e pulseiras devem ser evitados por questão de segurança. Há o risco de enganchar em algum instrumento

• Maquiagem pode ser usada à vontade

• Uma touca sob o capacete de segurança evita que o cabelo fique impregnado de poeira

• Calças jeans são mais indicadas, pois a sujeira se torna menos evidente

• Um aperto de mão é suficiente para cumprimentar colegas de equipe. Trocar beijos no rosto não é recomendável

Fonte: VEJA SÃO PAULO