Saúde

Moradores usam até galinha para caçar escorpiões

Chuvas de verão e acúmulo de lixo levam ao aumento de ocorrência dos bichos, e o número de vítimas de picadas atendidas em hospital referência da metrópole quase dobra

Por: Ana Carolina Soares

Vanessa e o filho Lucca
Vanessa e o filho Lucca, em condomínio no Morumbi: galinhas d’Angola para perseguir os escorpiões (Foto: )

Da varanda do apartamento, o pequeno Lucca, de 2 anos, olha o parquinho do prédio e aponta o escorregador, seu brinquedo predileto."Não pode. Lá tem bicho", explica sua mãe, a assessora de casamentos Vanessa Buck. "Que tal descer para ver as galinhas pintadinhas?" Ao ouvir o nome de suas pop stars, o menino abre um sorriso, ansioso para se divertir com 22 aves d'Angola, as mais recentes moradoras do condomínio de classe média alta no Morumbi. Mais do que proporcionarem um clima de hotel-fazenda às alamedas do empreendimento, as penosas foram convocadas no mês passado para uma missão importante: ajudar a exterminar uma infestação de escorpiões. A praga tomou conta do residencial no fim de dezembro. "Contabilizamos mais de 100 deles nas áreas comuns em apenas três dias", conta Vanessa.

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O bairro nobre não é o único afetado na capital. Em 4 de janeiro, a prefeitura distribuiu um comunicado em que alertava sobre o aumento de ocorrência dos bichos, especialmente nas regiões de Pirituba, Itaquera e Butantã. Mas eles também têm circulado por Pinheiros, Osasco e Barueri. A espécie que está proliferando por aqui é a Tityus serrulatus, conhecida como "escorpião amarelo". Trata-se de um tipo urbano, frequentador de esgotos ou redes pluviais, e considerado o mais perigoso da América Latina. "Sua picada é muito dolorida, provoca náuseas, vômitos, sudorese, e o veneno pode matar crianças de até 12 anos e idosos após causar arritmia cardíaca e edema pulmonar", diz o imunologista Luiz Vicente Rizzo, presidente do conselho curador do Instituto Butantan. "Os feridos devem ser levados o mais rápido possível ao hospital mais próximo", recomenda. Para não correr risco de morte, a pessoa tem de ser atendida em, no máximo, quatro horas. É preciso tomar soro contra o veneno e analgésico para aliviar a dor.

Tityus serrulatus, o "escorpião amarelo"
Tityus serrulatus, o "escorpião amarelo" (Foto: )

O número de ocorrências relacionadas ao bicho quase dobrou nos últimos três anos no Hospital Vital Brazil, no Butantã, referência na metrópole no atendimento a pacientes feridos por animais peçonhentos. Após serem contabilizados 77 casos em 2012, esse índice saltou para 129 em 2015, um recorde histórico da instituição. Somente nas duas primeiras semanas de 2016, oito pessoas já haviam sido medicadas por lá, a mesma quantidade recebida durante todo o mês de janeiro do ano passado. Em 2015 também se deu o registro da primeira morte no município por causa de uma picada de escorpião. A vítima era um morador do Capão Redondo.

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Entre as causas apontadas para a proliferação recente desses aracnídeos estão as chuvas de verão. "As águas enchem galerias e esgotos, e eles saem pelas casas próximas em busca de locais secos”, explica a médica-veterinária Rosiani Bonini, do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ). Mas há outros fatores. “São Paulo tem cada vez mais habitantes e, consequentemente, mais lixo, que atrai baratas e seus naturais predadores, os escorpiões”, afirma Giuseppe Puorto, do Conselho Regional de Biologia. “A questão não é exterminá-los, mas controlar sua população, pois são animais importantes no equilíbrio do ecossistema ao se alimentarem de insetos”, completa.

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Biólogo Randy Baldresca
O biólogo Randy Baldresca, com um espécime: o mais venenoso do continente (Foto: )

Após avistar um escorpião em casa, o paulistano deve ligar para a prefeitura, pelo número 156, e solicitar uma vistoria. O problema é a longa espera, de até dois meses, pela visita dos agentes municipais. “Há muitas pessoas para atender, mas tentamos orientar o cidadão por telefone”, diz uma funcionária do CCZ.

As principais diretrizes são preventivas: fechar os ralos internos ao entardecer, vedar frestas em paredes, pisos, muros, tetos e espelhos de luz; tapar a soleira da porta com rolinhos de areia; não deixar que entulhos se acumulem; manter os móveis afastados das paredes, além de checar roupas e sapatos na hora de se vestir. Vale também contratar um serviço especializado, pois venenos caseiros ou inseticidas vendidos no comércio não são suficientes.

“Esses produtos só obrigam os escorpiões a abandonar seus esconderijos, e ainda por cima estressados”, alerta o biólogo Randy Baldresca, diretor da Biópolis, empresa que combate pragas urbanas. Mas e as galinhas? Vale a pena recrutá-las como uma tropa de elite nesse combate? “São predadores naturais, mas há um grande problema: as aves são diurnas e dormem à noite, período em que os Tityus deixam as tocas para circular pelas ruas e casas”, pondera Baldresca.

A FICHA CORRIDA DA PRAGA:

Nome científico: Tityus serrulatus

Nome popular: escorpião-amarelo

Classe: aracnídeo

Veneno: considerado o da espécie mais perigosa da América Latina

Tamanho: entre 2 e 10 centímetros

Dieta: insetos rastejantes como baratas, aranhas e até mesmo outros escorpiões; mas pode sobreviver até um ano sem comida

Habitat: urbano — vive em esgotos e caçambas de lixo, com preferência por ambientes quentes, úmidos e sujos

Reprodução: as fêmeas não precisam de machos para procriar e representam quase 90% da espécie; cada uma gera cerca de sessenta filhotes por ano

Tempo de vida: de dois a cinco anos

Evolução das ocorrências: segundo dados da prefeitura, a média anual de notificação de acidentes chegou a 133 entre 2012 e 2014; em 2015 foram 160, com a primeira morte registrada

COMO PROCEDER NO CASO DE UM ACIDENTE

Lavar a picada com água e sabão

Fazer uma compressa morna

Não usar garrote nem mesmo cortar ou perfurar ao redor da lesão

Também não é recomendável colocar objetos estranhos, como folhas e pó de café, no local da ferida

Procurar o hospital mais próximo, imediatamente: crianças de até 12 anos e idosos podem morrer por edema pulmonar ou arritmia cardíaca

Se possível, levar o animal morto à unidade médica para identificação

Ligar para o número 156 e notificar a prefeitura sobre a presença da praga

Fonte: VEJA SÃO PAULO