Crônica

Progressos

Você lembra do seu primeiro carro? Ivan Ângelo fala sobre os progressos da cidade

Por: Ivan Ângelo

Crônica da edição 2400
(Foto: Veja São Paulo)

Um presidente fanfarrão disse num dia de 1990 que os carros brasileiros eram umas carroças, comparados com os estrangeiros. Oooooh, indignou-se a indústria, sem razão. Quem compra um automóvel nacional de hoje, bem melhorado, não imagina como eram as “carroças”, ou já se esqueceu delas. O carro vinha menos do que básico, e o vendedor ia empurrando ao freguês uma lista de “opcionais”, pagos por fora. Direção esportiva, por exemplo, que era um volante de menor diâmetro, forrado, estiloso. Se o comprador não levasse, o carro ficava com aquela direção enorme, tipo roda de bicicleta, de plástico pelado. Calha para chuva; chamava-se calha, mas era um toldozinho de plástico encaixado no alto das janelas laterais. À falta de um sistema de ventilação interna, tinha-se de trafegar com os vidros laterais semiabertos em dias de chuva, senão embaçava todo o interior, e daí, sem a tal calha, chovia dentro do carro.

Quebra-ventos, com ou sem? Eram pequenos vidros laterais que giravam, permitindo maior ou menor entrada de ar. O rádio era pago à parte, simples ou com toca-fitas (tocador de música que rodava fitas magnéticas tipo cassete), modelo fixo ou de gaveta. Este último, a pessoa retirava e carregava consigo, para casa, para o trabalho, para o restaurante, para o cinema, ou escondia debaixo do banco, senão o ladrão arrombava o carro para levar. Quando não era de gaveta, ele arrebentava o painel. Trava de segurança na direção, ou tranca, que impedia o volante de girar, em caso de roubo. Tapete: ou se comprava à parte ou se pisava no revestimento, de limpeza mais difícil. Cromados? O comprador podia escolher alguns cromados a mais, para melhorar a aparênciado carro. Extintor de incêndio pagava-se por fora, antes da obrigatoriedade. Peito de aço era um revestimento para proteger o cárter e as partes baixas do motor, opcional. Arquente? Em dias muito frios, abria-se uma passagem opcional para o ar, que entrava pela grade frontal do carro, era aquecido ao passar pelo motor e depois canalizado para dentro do veículo, cheirando um pouco, mas quentinho. Bizarro, não? E não faz tanto tempo assim...

Mais progressos: o telefone. Muita gente usa a expressão “caiu a ficha” sem atinar para a origem. Os moços não imaginamo tormento que eram as ligações interurbanas. Era preciso agendar hora para a ligação com uma telefonista, e às vezes demorava mais de um dia. Faltavam telefones nas casas, as pessoas de um lado e de outro tinham de se deslocar até acompanhia telefônica, sempre longe. Se chovesse, azar. Para ter um telefone em casa, comprava-se uma linha, pagava-se caro no mercado paralelo ou esperavam-se anos por novos planos de expansão. Na rua, era um problema ligar para alguém, dar um recado, combinar um encontro. Pagava-se para usar o telefone do bar ou da padaria. Vieram as cabines de rua, com porta que fechava por dentro, e não duraram porque se tornaram abrigo de mendigos; pessoas faziam xixi lá dentro. Foram substituídas pelos orelhões. O telefone público funcionava com pequenas fichas de metal, do tamanho de uma moeda, que eram colocadas na entrada de um cofre acoplado. Discava-se o número e esperava-se. Atendiam, e a comunicação se dava quando caía a ficha. Entendeu? Caiu a ficha?

Outra coisa que avançou muito foi o beijo. Tempos atrás, era uma conquista demorada e emocionante, antecipada por suores e tremores, encorajada pelo amor. Hoje, fiquei sabendo pela Vejinha que há um rolê do beijo, centenas de jovens que nunca se viram vão a um canto do Parque do Ibirapuera e se beijam em rodízio. O beijo se libertou do amor.

ivan@abril.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO