Comportamento

Álbum de figurinhas da Copa bate recorde de vendas

O livro de colantes do Mundialmovimenta colecionadores de todas as idades num circuito que vai de salas de aula a bares

Por: Marcus Oliveira [Com reportagem de Ricardo Rossetto] - Atualizado em

Álbum figurinha Copa
Turma do São Luis: brincadeira liberada às sextas (Foto: Lucas Lima)

Por volta das 10 horas do dia 8 deste mês, a banca de jornal da Praça Professora Emilia Barbosa Lima, na Vila Madalena, sofreu um arrastão. Sem nenhum tipo de arma, os invasores não eram criminosos contumazes. O alvo era mais banal: um álbum oficial da Copa do Mundo, que começa em 12 de junho. Aproximadamente trinta adolescentes, com uniforme da escola particular Vera Cruz, que tem ao lado uma unidade de ensino fundamental, espremiam-se no pedaço. Quando a funcionária do estabelecimento estava atendendo uma cliente, alguns dos meninos apanharam a última unidade da versão de capa dura do livro e partiram em disparada.

 

O sucesso do negócio, no entanto, vem compensando largamente o prejuízo de 24,90 reais. Desde o mês passado, o ponto comercializou em torno de 17 000 figurinhas, movimentando com isso aproximadamente 3 400 reais (a banca lucra 30% desse valor). O episódio da escola, ainda que de péssimo exemplo (o colégio diz que vai investigar o caso), ilustra bem a euforia em torno da coleção.

A Grande São Paulo concentra 35% das vendas do produto no Brasil, que é o maior consumidor desses cadernos no mundo, à frente da Alemanha, o segundo mercado. Neste ano, foram impressos 8,5 milhões de exemplares, ante 5 milhões na Copa da África do Sul, de 2010, um crescimento de 70%. O total de colantes quadruplicou segundo a editora Panini, detentora dos direitos de comercialização, com base na aposta de um interesse maior dos torcedores pelo torneio no Brasil.

Nesse cenário, a inédita versão de capa rígida se tornou mais difícil do que qualquer figurinha, apesar do preço quase cinco vezes maior que o do álbum simples. A procura motivou a confecção de uma nova fornada, que chega às bancas nesta semana. No total, porém, a opção de “luxo” corresponderá a menos de 3% do volume total.

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Passi (à esq.) em evento de troca na terça (15): ele organiza quinze encontros regulares na cidade (Foto: Fernando Moraes)

O desejo de entrar na brincadeira e ter uma lembrança do Mundial, que não era sediado no país desde 1950, movimenta a cidade. Escolas têm tido de estabelecer regras para que os escambos, os jogos de bafo (ainda muito comuns) e as traquinagens como colar o rosto de Lionel Messi de ponta-cabeça para secar a Argentina não prejudiquem as aulas. No Colégio São Luis, nos arredores da Avenida Paulista, a farra está liberada durante os intervalos e também às sextas, em horário definido. No Dante Alighieri, no Bandeirantes e no Etapa, a autorização se restringe ao recreio.

Cenas semelhantes ao redor da capital têm adultos como protagonistas. Na última terça (15), alguns deles acompanhados dos filhos, se reuniram no bar Tchê Café, em Santo Amaro, para intercambiar as gravuras. O organizador é o empresário Gustavo Passi, de 26 anos, que criou uma página no Facebook com 7 500 membros. Ele está no comando de quinze eventos paulistanos com o mesmo propósito, em endereços como o Shopping Eldorado, o vão do Masp e o Parque da Juventude (veja o quadro na pág. 40). “Monto álbuns desde a Copa de 1994, mas perdi todos em uma enchente”, lamenta.

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(Foto: Reprodução / Veja São Paulo)

Ele criou uma espécie de código de ética: 1) chegar com o “bolinho” de repetidas organizado, em ordem crescente; 2) não “regular” figurinhas, escondendo aquelas que acha mais valiosas; 3) não iniciar as colagens no local, para não fazer sujeira. Para breve, Passi deseja que os torcedores literalmente deem sangue pelos cromos. Isso mesmo. As pessoas iriam a um hemocentro atrás de cromos inéditos e aproveitariam a visita para doar material ao banco do local.

Como o assunto é recorrente na metrópole, não faltam polêmicas. Uma delas: haveria cromos difíceis? A resposta é não, enfatiza a Panini — todas têm a mesma tiragem. Outra história, porém, irritou colecionadores: a criação de nove estampas liga-das a três patrocinadores (Liberty Seguros, Johnson & Johnson e Wise Up). “Não comprei o álbum até agora, apesar da insistência da minha filha de 14 anos, porque acho estelionato receber propaganda em vez de figurinha”, reclama o apresentador Marcelo Rezende, do Cidade Alerta, da Record.

Com a pressão, a editora divulgou uma nota oficial dizendo que não se trata de publicidade, e sim de apoio institucional. E anunciou que, caso alguém se sinta prejudicado, deve entrar em contato para substituir esses cromos por outros de seu interesse.

O pacote com cinco unidades sai por 1 real. Completar as oitenta páginas e os 649 espaços vazios custa ao menos 130 reais — isso na hipótese de alguém conseguir barganhar todas as repetidas. “O mais provável é que, se não interagir com outros colecionadores, o consumidor desembolse entre 900 e 930 reais para cumprir o desafio”, calcula o matemático Carlos Yuzo Shine.

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Banca na Zona Oeste: garotos surrupiaram livro de capa dura (Foto: Fernando Moraes)

A própria Panini aproveitou a fissura para lançar um aplicativo que favorece a comunicação entre os fãs. Ele é usado em smartphones e tablets. Por meio de um sistema de leitura óptica, armazena as informações do status atual do álbum para que o dono não precise carregá-lo aos eventos de troca.

O vocalista da banda Fresno, Lucas Silveira, vê mais graça em fazer a operação “na raça”. Depois de comentar a mania no Twitter, fãs apareceram no camarim de um show no Beco 203, na Rua Augusta, municiados com pilhas de colantes. “Fazer o álbum virou a minha terapia”, afirma.

A tecnologia é também uma aliada para o ilusionista Anderson Teixeira (“Não faço mágica com figurinhas”, avisa), colecionador desde a Copa de 2006, da Alemanha. Criado por Teixeira, o grupo Troca de Cromos chegou a ter mais de 15 000 mensagens no WhatsApp em apenas um fim de semana, mesmo com o limite de cinquenta usuários por vez na conversa do aplicativo de comunicação instantânea. “Quem conta que completou é excluído na hora para dar chance a outros”, explica.

O próximo passo é um encontro marcado para sexta (18), no Parque do Ibirapuera, de modo a possibilitar as negociações ao vivo. “Tem um pessoal que fez amizade e está junto agora indo para a balada.” Imagine na Copa.

ONDE TROCAR

Alguns dos locais onde ocorrem os escambos

› Banca do Chileno

  • Quando: segunda a sexta, às 11h

› Bar Tchê Café

  • Quando: terças, 19h

Estádio do Pacaembu (em frente)

  • Quando: domingos, 9h

Museu do Futebol 

  • Quando: nos sábados 3/5, 17/5 e 31/5, das 10h às 17h

Parque da Juventude (entrada principal)

  • Quando: sábados, após as 10h

Shopping Bourbon (praça de alimentação)

  • Quando: sábados, 16h

Shopping Eldorado (praça de alimentação)

  • Quando: sextas, 18h; domingos, 15h

Shopping Ibirapuera (praça de alimentação)

  • Quando: domingos, 15h

Shopping Metrô Tatuapé (praça de alimentação)

  • Quando: domingos, 14h

Vão do Masp

  • Quando: sábados, após as 14h

Fonte: VEJA SÃO PAULO