Padre conhecido como Elvis atrai mais de 1 000 fiéis por missa

Carismático e com um visual que lembra o rei do rock, o sacerdote é o novo fenômeno católico da cidade; ele acaba de lançar um CD para terminar a construção de igreja no Butantã

 Toda quinta-feira, a empresária Silvia Cristina Souza Lima, de 42 anos, sai de casa, na Freguesia do Ó, pontualmente às 17 horas e percorre 17 quilômetros até o Rio Pequeno, no Butantã. A missa da Paróquia Santíssima Trindade só começa às 20 horas, mas é preciso chegar com bastante antecedência. “Quem se atrasa fica em pé ou nem entra”, explica. Ela frequenta o local desde 2011 e afirma ter sido libertada das dores da alma causadas pela depressão. Nas celebrações na Zona Oeste dedicadas à cura e à libertação, mais de 1 000 pessoas se espremem na igreja, com espaço para 650 fiéis sentados. Muitos ficam de pé nos corredores e há quem acompanhe  tudo da rua. O responsável por esse novo sucesso  católico de público na capital é Marcos Roberto Pires, de 45 anos, mais conhecido por seu rebanho como o padre “Elvis”. A razão para o apelido é o estilo do religioso, com direito a topete, sem um fio grisalho fora do lugar, costeleta e vozeirão e desenvoltura para cantar louvores dignos do rei do rock.

 

Durante aproximadamente duas horas, Marcos Roberto parece uma versão mais agitada do padre Marcelo, referência por aqui na arte de incrementar a missa com músicas e danças agitadas. O sacerdote do Butantã, de microfone na mão, abre os trabalhos apresentando cerca de seis músicas, com a multidão reproduzindo os gestos das suas coreografias. “Se é para louvar, eu fico louco”, diz ele, em um dos hinos. Na frente, um grupo de jovens pula abraçado durante o louvor. A performance do sacerdote é digna da alcunha que recebeu. O “Elvis” de batina não para um minuto. Ergue as mãos ao céu, remexe-se e faz caras e bocas como se encarnasse mesmo uma versão católica do ídolo americano. “Cantar é rezar duas vezes”, justifica o padre, citando Santo Agostinho. Um de seus ajudantes nessa hora é o vendedor Fábio Menegato, de 39 anos. “Ele é acolhedor e revestido do Espírito Santo”, elogia.

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Quando termina o repertório musical, o padre dá início à liturgia. O momento é sério e Marcos Roberto muda radicalmente o comportamento. Na homilia, aborda temas como os transtornos da   vida na grande metrópole, sempre no tom coloquial (há duas semanas, por exemplo, recorreu à palavra “porrada” como sinônimo de provações). Em determinado momento, concentra forças para expulsar dali o Satanás. De semblante fechado, percorre o ambiente com a cruz em mãos. Algumas pessoas passam mal e caem sobre bancos. Uma mulher precisa ser segurada por seis pessoas. Aos domingos, quando reza três missas (às 8h, 10h e 18h30), só que seguindo um padrão mais tradicional, o clima costuma ser mais tranquilo e o público, menor. Ao término da última delas, coloca-se à porta da paróquia para atender os que formam fila no local. Abraça os fiéis e abençoa as fotos levadas por eles. “O papa Francisco diz que o pastor precisa ter o cheiro de suas ovelhas. Também gosto de estar perto do povo”, afirma.

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Quando assumiu a Santíssima Trindade, há quatro anos, a paróquia comportava 220 pessoas. Na base da propaganda boca a boca, o público foi crescendo de forma rápida. Logo o espaço se tornou pequeno e acabou sendo desativado. Ao lado, foi erguida a atual igreja, cuja inauguração ocorreu há pouco mais de um ano. Na última quarta (10), o padre lançou no lugar seu primeiro CD. Com o título Eu Vou por Amor, foi gravado de forma independente, com canções católicas  clássicas e apenas duas músicas inéditas. O disco começou a ser vendido na igreja por 23 reais, e o dinheiro será usado para finalizar a obra do templo,  que ainda carece de acabamento na parte externa e na decoração. No interior, tirando a cruz no altar, não há outras imagens sacras. Ao avisar aos fiéis que o álbum estava quase pronto, Marcos Roberto brincou: “Em um só CD vocês vão levar um misto de Elvis Presley, Fábio Junior e Sidney Magal”. Do meio do público, a aposentada Maria Raimundo, de 60 anos, gritou: “Eu quero um DVD. O senhor tem de ir para a televisão”.

Fiel Silvia Lima

Fiel Silvia Lima

 

Embora não fique muito confortável em ser conhecido dessa forma, padre “Elvis” confessa ter realmente uma queda pelo cantor americano. Sua lembrança mais antiga remonta aos 8 anos de idade, quando ouviu pela TV a notícia da morte do astro, em 16 de agosto de 1977. Ainda na infância, começou a colecionar discos e a ver filmes estrelados pelo rei do rock. Mais tarde, o interesse cresceu ao tomar contato com as gravações gospel do músico.  Mas Marcos Roberto diz que a admiração para por aí. “Não sou um imitador dele e não entendo o porquê de tanta comparação”, jura. O cabelo volumoso seria uma graça divina a serviço da evangelização. Não precisa ser penteado estrategicamente para parecer com o do ídolo.

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Como os fios são grossos, basta passar a mão para ajeitá-los. Garante que não faz escova nem passa creme. “Deus dá dons para atrair os fiéis. Se minha estética ajuda, que as pessoas venham e encontrem a  espiritualidade e a fé. Mas não é um show do Elvis”, avisa. De acordo com os especialistas no assunto, gente como Marcos Roberto ajuda a Igreja Católica a combater a perda de fiéis  para os evangélicos e a indiferença religiosa na metrópole. “Ter padres que consigam atrair multidões sem ser celebridades é uma dádiva”, diz o teólogo Jorge Claudio Ribeiro, da PUC-SP.

Filho de um tapeceiro e de uma dona de casa, Marcos Roberto é um paulistano criado no bairro da Vila Santa Maria, na Zona Norte. Aos 22 anos, frequentava o grupo de jovens da igreja da região, mas não pensava em virar padre. “Eu sonhava em transmitir a palavra de Deus, mas como um pai de família”, conta. A vocação religiosa apareceu muito tempo depois. Essa mudança ocorreu em 2001, após romper um relacionamento de cinco anos com uma garota. Ao começar os estudos no seminário, avisou aos superiores que nunca tinha roubado, matado ou usado drogas, mas havia sido muito namorador. “Tive experiência com várias mocinhas. Então sei a questão do afeto, do namoro e das tentações”, confessa.

O desejo de vestir a batina veio justamente quando começou a se preparar para o casamento, ao ficar noivo diante de 40 000 pessoas no palco de um acampamento da comunidade católica da Canção Nova, em Cachoeira Paulista, no Vale do Paraíba. A decisão, maturada ao longo de dois anos, foi tomada com a ajuda do padre Alex Hernan Bodero Coelho (morto em 2013) e do monsenhor Vicente Ancona, vigário regional da prelazia do Opus Dei no Brasil. “Eu sabia que não a estava fazendo feliz. Nem eu estava feliz, apesar de gostar muito dela”, lembra Marcos Roberto. Depois disso, ele nunca mais teve contato com a ex.

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Para abraçar o sacerdócio, o padre abdicou também da carreira de professor. Antes havia trabalhado como motoboy, office-boy e analista de fotolito. Formado em geografia pelas Faculdades Integradas Teresa Martin e pós-graduado pela PUC-SP, lecionou por sete anos em escolas particulares e públicas da Zona Norte. No Colégio Centenário, na Casa Verde, onde deu aula no fim dos anos 90 para estudantes do ensino médio do período noturno, era respeitado pela turma e pelos colegas. “Ele era bonitão, mas não era uma pessoa que queria chamar atenção”, lembra a diretora da escola Rosina D’Asti Ventura. Ao descobrir, recentemente, que Marcos Roberto havia se tornado sacerdote, ela não ficou surpresa. “Marcos já era muito certinho.” O dom da palavra, no entanto, surpreendeu a mãe do padre, a dona de casa Almerinda de Jesus Quintal Pires, de 67 anos. “Ele era tímido e gago”, revela.

Arquivo Padre

Arquivo Padre

Apesar do sucesso recente e do lançamento de um CD, Marcos Roberto quer continuar levando sua vida pacata, dividindo-se entre o trabalho na paróquia e as visitas aos doentes no bairro do Butantã.   Para conseguir fôlego para as nove celebrações semanais que realiza, ele frequenta a academia quatro  vezes por semana; lá, corre e faz musculação. Só não revela onde é. “Até Jesus precisava de um momento sozinho”, desconversa. Nas horas vagas, torce pelo Palmeiras. Queixa-se de que Deus não andou ouvindo suas orações nessa área e sofreu até a última rodada do Campeonato Brasileiro para ver o alviverde escapar do rebaixamento. Mas nunca perdeu a fé. Aos torcedores que andavam aflitos com a situação, costumava dizer, parafraseando Jesus: “Não tenha medo, eu venci o mundo”.

Padre Marcos

Padre Marcos

Fé, Palmeiras e musculação

Alguns dados pessoais e curiosidades sobre o sacerdote

Nome: Marcos Roberto Pires

Idade: 45 anos

Naturalidade: nasceu na capital e cresceu na Vila Santa Maria, na Zona Norte

Família: o pai, morto em 2005, era tapeceiro e a mãe é dona de casa. Tem três irmãos (é o segundo mais velho; nenhum deles entrou para a vida religiosa)

Sacerdócio: entrou para o seminário em 2003 e foi ordenado padre em 2007

Paróquia: Santíssima Trindade, na Avenida Marechal Fiúza de Castro, 861, no Butantã

Fiéis: mais de 1 000 pessoas nas missas de cura e libertação, às quintas-feiras. Aos domingos, celebra três missas com cerca de 800 pessoas em cada uma

Hábito: visitar doentes da região do Butantã e abraçar fiéis após as missas de domingo

Música: acaba de lançar o primeiro CD, Eu Vou por Amor (23 reais). A verba será usada para finalizar a construção da paróquia

Mentores espirituais: padre Alex Hernan Bodero Coelho (morto em 2013) e monsenhor Vicente Ancona, vigário regional da prelazia do Opus Dei no Brasil

Antes da igreja: perdeu a conta de quantas namoradas teve e foi noivo por dois anos e meio. Terminou o relacionamento para virar padre

Profissões: foi professor de geografia em escolas particulares e em colégio público por sete anos, motoboy, office-boy e analista de fotolito

Hobbies: futebol, ouvir música e ver filmes clássicos

Time: Palmeiras

 Atividades físicas: corre e faz musculação quatro vezes por semana

Elvis e ele: tornou-se fã do rei do rock aos 8 anos, quando ouviu Cid Moreira noticiar a morte do cantor pela televisão. Passou a ver seus filmes e colecionar discos. Sua música preferida do astro é Suspicious Minds

Vaidade: diz ser privilegiado com o cabelo farto e grosso. Uma ajeitadinha, segundo ele, é suficiente para deixá-lo com topete

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