Entrevista

Veja São Paulo entrevista Paulo Maluf

Uma de suas propostas é colocar uma laje sobre o Rio Tietê para melhorar o trânsito na Marginal

Por: Alessandro Duarte e Alvaro Leme - Atualizado em

Veja São Paulo – Por que o senhor quer voltar a ser prefeito?

Paulo Maluf – Considero a vida pública uma vocação. Escolhi a carreira de engenheiro, mas o destino me levou por esse caminho. Na presente quadra da história de São Paulo, mais do que nunca, devo prestar meus serviços novamente. Posso resolver a questão do trânsito.

Veja São Paulo – O maior problema da cidade hoje é o trânsito?

Maluf – É o único. O ú-ni-co! Hoje não existe horário de pico. Você enfrenta congestionamento 24 horas. Graças a Deus, tenho uma trajetória de audácia. Quando construí o Aeroporto de Guarulhos, a Rodovia dos Imigrantes e a dos Trabalhadores, hoje Ayrton Senna, por exemplo, as obras foram classificadas como faraônicas. Agora tenho mais um projeto ambicioso.

Veja São Paulo – Que projeto?

Maluf – Construir uma laje sobre o Rio Tietê para aumentar cinco ou seis faixas de tráfego de cada lado, invadindo o rio, sem semáforos, para os carros circularem a 100 quilômetros por hora. Se olhar o tampão que fiz no Tamanduateí, é a mesma coisa.

Veja São Paulo – Não teríamos mais rio para ver?

Maluf – Um pedaço. Mas, se pensar, não é mau abafar aquele cheiro desgraçado.

Veja São Paulo – O senhor foi prefeito duas vezes...

Maluf – (interrompendo) Quase três. Vou dizer por quê. Quando governador, nomeei o Reynaldo de Barros, que foi um prefeito excepcional. Aí eu também dava uma olhada, como tenho certeza de que hoje o José Serra faz, de vez em quando, para ver o que está acontecendo com o pupilo dele, Kassab. Eu dava palpites, o Reynaldo executava.

Veja São Paulo – Suas obras sempre deram prioridade aos automóveis. Não acha que tem uma parcela de responsabilidade pelo caos no trânsito?

Maluf – Eu gostaria muito de ter responsabilidade e ser condenado pelo progresso.

Veja São Paulo – Então o senhor reafirma, como disse em outras ocasiões, que considera os congestionamentos um sinal de progresso?

Maluf – Sim. Qual é o primeiro desejo de um jovem? Um carro. Nunca rebato meus críticos, mas as pessoas se esquecem de que quem começou o metrô de São Paulo foram o Faria Lima e o Paulo Maluf. Mais da metade do transporte coletivo da cidade hoje tem o meu dedo. Nem por isso ia deixar de construir obras viárias como a Faria Lima, a Jacu-Pêssego e a Água Espraiada.

Veja São Paulo – Como explica que a Água Espraiada, hoje Jornalista Roberto Marinho, com 5 quilômetros de extensão, tenha custado 800 milhões de reais? Por quilômetro, custou dez vezes mais que a construção da Rodovia dos Bandeirantes.

Maluf – Você pega uma rodovia. Qual é o custo? É por alqueire. E dentro da cidade? Por metro quadrado, cujo preço varia muitíssimo, dependendo do processo de desapropriação. Sem contar as remoções de adutoras da Sabesp, fios de eletricidade e telefonia, canos... Construímos ali, na Água Espraiada, um piscinão. A obra foi inaugurada há doze anos e, até hoje, ninguém viu inundação. Então, é evidente que por quilômetro custou, sim, muito mais.

Veja São Paulo – Mas tudo isso não estava previsto no custo da obra?

Maluf – O Paulo Maluf criou um instrumento chamado Certificado de Potencial Adicional de Construção (Cepac). Preciso dar crédito aqui a um dos meus secretários de planejamento, o Marcos Cintra, que me ajudou na discussão e aprovação do projeto. Os Cepacs permitem às construtoras erguer, em determinadas áreas, prédios acima da altura prevista para a região. A Faria Lima custou 20 milhões de reais, gastamos outros 200 milhões em desapropriações e, por causa dos Cepacs, ela rendeu 600 milhões de reais. Quer dizer, a avenida deu lucro. Os dois tuneizinhos, aquelas pinguelas que dona Marta construiu, foram feitos com dinheiro de Cepacs. E são os dois únicos túneis do mundo que terminam em semáforo.

Veja São Paulo – O que passa por sua cabeça quando ouve a frase "Maluf rouba, mas faz"?

Maluf – Essa é uma frase de quem não sabe fazer. Fiz muitas obras e não roubei. E não porque, como católico, sou um fiel observador dos Dez Mandamentos. Eu não preciso. Meu pai era dono da maior serraria da América Latina. Quando entrei na política, eu e meu irmão Roberto já éramos donos da Eucatex. Se tivesse algum interesse econômico, não entraria na política. Quando presidente da Caixa Econômica, em 1967, eu era mais rico do que hoje. Em quarenta anos, derreti.

Veja São Paulo – Qual é seu patrimônio hoje?

Maluf – Meu pai e meu irmão, que está no céu, ajudaram a construir o patrimônio da família. E 99% dos meus bens de raiz são formais de partilha.

Veja São Paulo – Sim, mas de quanto é seu patrimônio?

Maluf – Eu não poderia dizer. Na Justiça Eleitoral, tenho declarado sempre o valor histórico dos meus bens. Minha casa, por exemplo. Se hoje valesse 5 milhões e, na próxima eleição, 6 milhões de reais, diriam que fiquei 1 milhão mais rico. Ao declarar o valor histórico, evito essa confusão. Tenho a Eucatex, propriedades que herdei do meu avô e do meu pai.

Veja São Paulo – O senhor já foi acusado de ter contas no exterior.

Maluf – Essa é a maior mentira histórica. Há anos dizem isso, e desafio que mostrem qualquer documento. Não encontram, não mostram e sou sempre obrigado a me defender. Não tenho nem tive. E é preciso deixar claro que não é crime ter conta no exterior, desde que você declare seu imposto e siga os meios legais. Eu não preciso ter dinheiro lá fora porque, como acionista principal da Eucatex, que tem escritório em Atlanta há 53 anos, disponho de suporte da empresa.

Veja São Paulo – Nas pesquisas, o senhor aparece com menos de 10 pontos porcentuais. Não é pouco para quem sempre começou as campanhas disputando as primeiras posições?

Maluf – Só perde eleição quem não disputa. Quando a Marta diz que vai constituir grupo de trabalho para resolver o trânsito, está fazendo a campanha do Paulo Maluf. Ela não tem a imagem de solução de trânsito coisa nenhuma. Quando eu mostrar meus projetos, tenho certeza de que a população, ainda que não goste de mim, vai pensar que eu posso ser útil. Os números da pesquisa não têm a menor importância. Servem como estímulo para eu ganhar essa eleição.

Veja São Paulo – A taxa de rejeição a seu nome gira em torno de 50%. Como imagina ser eleito?

Maluf – Esses índices retratam sempre um momento. Se estou com 50%, vou estudar pesquisas qualitativas para saber a razão pela qual tenho essa rejeição.

Veja São Paulo – O senhor sabe exatamente a quantos processos responde no momento?

Maluf – Quando saí da prefeitura, tinha mais de 150 processos. Agora, posso lhe dizer que tenho 41 anos de vida pública e nenhuma condenação.

Veja São Paulo – Como o senhor descreveria a experiência de ter passado quarenta dias preso, em 2005?

Maluf – Outra grande injustiça, principalmente com meu filho Flávio. Ele nunca entrou na política, por que machucá-lo? Eu poderia ter pegado um avião a jato e fugido para a Argentina, mas me entreguei e disse que meu filho faria o mesmo logo cedo no dia seguinte. Às 6 horas, quando o Flávio estava acionando o helicóptero para vir da fazenda, apareceram três agentes armados. Pegaram carona com ele no vôo. Flávio queria pousar no heliponto da Polícia Federal, mas foi impedido. Mandaram-no para um do Morumbi, onde estava armado o circo. O cir-co! Estava lá o César Tralli, repórter da Rede Globo, fantasiado de policial, com uma câmera oculta. Obrigou o delegado a algemar meu filho. Aliás, tem um processo administrativo sobre isso. Como é que se permitiu que uma propriedade privada fosse invadida por um repórter disfarçado de PF? E para quê? Para satisfazer o espírito bestial de um repórter da Globo chamado César Tralli?

Veja São Paulo – Que tal a comida da cadeia?

Maluf – Aquele arroz nem cachorro comia. O pior é que a diferença entre arroz bem-feitinho e duro é saber se você cozinha cinco minutos ou uma hora.

Veja São Paulo – O senhor se arrepende de ter dito, na campanha de 1996, que, se Pitta não fosse bom prefeito, ninguém mais deveria votar no Maluf?

Maluf – Eu errei, mas de absoluta boa-fé. Ninguém sai da prefeitura com 90% de aprovação, como eu, e apóia um sucessor que vai se sair mal no cargo. Pitta tinha todas as condições para administrar bem a cidade.

Veja São Paulo – Se eleito, pretende cumprir seu mandato até o fim?

Maluf – Até mesmo o tempo me obrigaria a isso. Se for eleito, terei 77 anos. O que desejo é sair do cargo com a imagem de o melhor prefeito que São Paulo já teve.

Veja São Paulo – Como está sua saúde?

Maluf – Só fiz três cirurgias na vida. De apêndice, aos 14 anos, nas amígdalas, aos 30, e de próstata, em janeiro de 1997. Às vezes, pego um resfriado.

Veja São Paulo – O senhor já fez plástica?

Maluf – Não. Só dois implantes capilares.

Veja São Paulo – E Botox?

Maluf – Isso é especialidade de outro candidato. Eu ia dizer candidata, mas ficaria muito óbvio. Se bem que a Soninha é candidata também.

Veja São Paulo – O senhor, como homem rico, permite-se que luxos?

Maluf – Não gosto da palavra rico. Prefiro dizer que sou independente economicamente. Quando viajo para o exterior, gosto é de ler jornais estrangeiros como o Le Figaro, o New York Times...

Veja São Paulo- – E de comprar gravatas Hermès, como essa que está usando...

Maluf – Ah, sim. Mas não compro muita coisa. Quase não perco roupas. Sapato, há mais de dez anos que não compro. Eu só ando em tapete.

Veja São Paulo – O que gosta de ler?

Maluf – Leio, toda semana, a revista The Economist. (Pega um exemplar, que tem como título de capa "Iraq starts to fix itself".) Olha aqui: "O Iraque começa a se fixar". (A tradução correta seria "O Iraque começa a se consertar".) Gosto de ler coisas que me sirvam num debate. Estou absolutamente atualizado.

Veja São Paulo – O senhor disse que seu irmão Roberto está no céu. Acredita que vai para lá quando morrer?

Maluf – Tenho certeza absoluta. Deus vai colocar numa balança o que fiz e as críticas dos adversários. Vai ver se eles tinham razão. Nunca tive raiva dos que me agrediram, nem fiz o mal. Não mesmo.

Fonte: VEJA SÃO PAULO