Memória

Lugares, objetos e personagens campeões de longevidade em São Paulo

Confira pontos como o posto de gasolina e o barbeiro mais antigos em atividade por aqui

Por: Douglas Nascimento

Pando, jogador do Juventus, durante jogo contra o Santos de Pelé
Pando, jogador do Juventus, durante jogo contra o Santos de Pelé (Foto: José Dias Herrera)

A igreja da época dos bandeirantes, a padaria do século XIX, o posto de gasolina do tempo dos calhambeques, o barbeiro em atividade desde antes da II Guerra Mundial e outros locais e profissionais remanescentes de uma São Paulo do passado que continuam vivos no presente

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CAMPO ROMÂNTICO

Juventus
A Rua Javari, nos anos 30: sobrevivente do futebol romântico (Foto: Acervo Clube Atlético Juventus)

Seu nome oficial é Conde Rodolfo Crespi, em homenagem ao industrial italiano que o construiu. Mas o lugar é mais conhecido pelo apelido de Rua Javari, referência à vizinha via da Mooca. Inaugurado em abril de 1925 para ser a casa do Juventus, só foi adquirido defnitivamente pelo clube em 1967 — até então pertencia à empresa do conde. Mantém a charmosa arquibancada antiga, o placar manual e até hoje não tem refetores. A aura de antiguidade se completa pelo fato de o local ter abrigado o famoso “gol mais bonito de Pelé”, eleito pelo próprio craque, em um Juventus x Santos, em 2 de agosto de 1959. Na ocasião, o Rei driblou três adversários e, antes de mandar a bola para as redes, deu um chapéu no goleiro.

MARCO DO SÉCULO XIX

Obelisco do Piques
O largo, em foto do século XIX: referência para viajantes (Foto: Acervo São Paulo Antiga)

Em 1814, o governo da Província de São Paulo determinou a abertura de uma nova estrada entre a capital e o oeste do estado, partindo do centro e seguindo por uma rota hoje ocupada pela Rua da Consolação e pela Avenida Rebouças. Para marcar seu início, foi erguido um marco chamado de Obelisco do Piques, onde atualmente está o Largo da Memória, próximo ao Vale do Anhangabaú, no centro. Trata-se, basicamente, de um chafariz, que cumpria função dupla: servia de referência aos viajantes e também para coleta de água pela população em tempos de abastecimento precário.

Esculpido pelo pedreiro português Vicente Gomes Pereira, o monumento é formado por pedra de cantaria, bastante utilizada na produção de paralelepípedos. A estrutura passou por uma reforma em 1919, quando ganhou um chafariz modernizado, a atual escadaria e também um pórtico de azulejos. Essas peças trazem desenhos produzidos pelo artista plástico Wasth Rodrigues que ilustram o próprio Largo do Piques, nome antigo do espaço.

NAVALHA TRADICIONAL

chiquinho barbeiro
Seu Chiquinho em 1961: tesoura em prefeitos (Foto: Acervo Pessoal)

Em desuso há vários anos, a expressão barbearia voltou à baila recentemente com a proliferação de casas moderninhas com pegada retrô. Para Francisco Villano, no entanto, esse termo nunca saiu de moda. Mais conhecido como Seu Chiquinho, o barbeiro de 99 anos — completa 100 em janeiro próximo — começou no ramo aos 10, em 1927, ao lado de um tio. Abriu seu salão em 1935, na Rua França Pinto, na Vila Mariana. De lá para cá, trocou de imóvel algumas vezes, mas nunca deixou a via. Hoje mora no andar de cima de seu negócio. “Não saio deste bairro por nada no mundo”, diz ele, nascido na vizinha Rua Umberto I. Em seus 89 anos de carreira, recebeu personalidades como os ex-prefeitos Prestes Maia e Jânio Quadros. Em idade avançada, não cumpre horário fixo nem atende clientes todos os dias. Para manter o espaço em funcionamento, conta com a ajuda de mais quatro profissionais.

BALCÃO DE 1933

Mercado Municipal - Mercado
Funcionários no Mercadão, nos anos 50: a origem do sanduíche de mortadela (Foto: Acervo Pessoal)

O Mercadão abriga boxes de variados produtos, como frutas, peixes, temperos, especiarias e massas. Em 1933, o mesmo ano em que o espaço abriu suas portas, apareceu por ali uma casa criada por dois primos de origem portuguesa. O estabelecimento só passaria a ser conhecido por seu nome atual, Bar do Mané, na década de 70, quando foi assumido por Manoel Cardoso Loureiro, filho de um dos fundadores. Atualmente tocado pela terceira e pela quarta gerações da família, oferece um saboroso bolinho de bacalhau.

Mas não é por essa iguaria que o lugar é conhecido. Reza a lenda que, nos anos 60, durante uma brincadeira entre os funcionários, surgiu um sanduíche com recheio exagerado de mortadela. O inusitado lanche despertou a curiosidade, agradou à clientela e, nos anos seguintes, passou a ser copiado por muitos outros bares e lanchonetes da capital. Nascia assim um mito da gastronomia paulistana.

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CEMITÉRIO PIONEIRO

Cemitério da Consolação
Cemitério da Consolação (Foto: Arquivo Pessoal)

Até 1858, a maior parte dos mortos da capital era sepultada em igrejas. Isso começou a mudar com a inauguração do Cemitério da Consolação. No fim do século XIX, o local ganhou moradores ilustres, a exemplo do ex-presidente Washington Luís e do escritor Monteiro Lobato. Passou a receber também esculturas de nomes como Victor Brecheret. Ele e outros artistas eram contratados pelas famílias mais abastadas para decorar os jazigos com suas peças.

BOMBA PRESERVADA

Posto - Centro automativo Paraíso
O posto, ainda com a bandeira Atlantic, nos anos 40: sessenta anos de história (Foto: Acervo Pessoal)

Seria um estabelecimento semelhante a qualquer outro dos 1 800 do ramo espalhados pelas esquinas paulistanas. Mas uma preservada bomba de combustível com mais de sessenta anos de história, logo em sua entrada, entrega a idade do negócio. Localizado no número 1694 da Rua Vergueiro, o Centro Automotivo Paraíso foi inaugurado na década de 40 pelo empresário Sérgio Giorgetti.

Considerado modelo pela extinta bandeira Atlantic, o posto chegou a ser homenageado pela matriz americana. Em 1995 foi comprado pela família dos irmãos Vinícius e Mário Bartalotti, que administram a empresa, e incorporado à rede Ipiranga. Embora tenha sido reformado nessa época, mantém um grande painel com uma imagem do local em seu período de abertura, além de várias fotografias antigas na loja de conveniência.

GARÇOM DE 95 ANOS

Luiz de Oliveira, garçom mais antigo do Bar do Léo
Luiz de Oliveira, garçom de 95 anos (Foto: Mario Rodrigues)

Poucos points boêmios da capital são tão famosos como o Bar Léo, inaugurado em 1940 na Rua Aurora, no centro, com seus chopes e pratos da culinária alemã. Outra de suas inegáveis atrações é o garçom Luiz de Oliveira, de 95 anos, funcionário da casa desde 1962. Ou seja, ele passou mais da metade da vida no mesmo estabelecimento. Estima-se que, até hoje, já tenha servido mais de meio milhão de canecas de chope. Suas bandejas já atenderam celebridades como o ex-presidente e ex-prefeito Jânio Quadros e o cantor Sílvio Caldas.

ÁRVORE TOMBADA

Sem idade exata, uma figueira-brava do Sacomã é personagem de poemas históricos desde o século XIX. Em seu tronco, mães e esposas choraram ao ver filhos e marido partir em viagem ou para a Guerra do Paraguai (1864-1870). Tanto drama rendeu à árvore o apelido de Figueira das Lágrimas. Situada na altura do número 515 da estrada homônima, é tombada pelo patrimônio histórico municipal, mas seu muro e gradil, erguidos há um século, estão abandonados.

DOS TEMPOS DA REALEZA

Padaria Santa Tereza
A padaria em 1988: a coxa-creme é a estrela do menu (Foto: Monica Maia/Estadão Conteúdo)

Quando a Santa Tereza foi inaugurada, em 1872, o Brasil ainda era uma monarquia e São Paulo não tinha eletricidade. Inicialmente localizada na rua homônima, mudou-se pouco depois da abertura para a Praça Dr. João Mendes, atrás da Catedral da Sé. Comprada pelo empresário Jesus Maturana em 1995, hoje está sob o comando da terceira geração da família, os irmãos Juliana, Marco Antônio e Natalia. Seu carro-chefe é a coxa-creme, com 1 500 unidades vendidas por semana, a 6,60 reais. Outros dois produtos concorridos no balcão são os tradicionais torresminhos e a canja.

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PARADA TRADICIONAL

Praça Coronel Cipriano de Morais
Praça Coronel Cipriano de Morais (Foto: Douglas Nascimento)

Ao se desgastarem com o tempo, mobiliários urbanos costumam ser substituídos por equipamentos mais modernos. Por isso, chama atenção um ponto de ônibus na Praça Coronel Cipriano de Morais, na Lapa. Construída nos anos 60 pela extinta Companhia Municipal de Transportes Coletivos, a estrutura de ferro é fixada na calçada com concreto. Seu estilo arquitetônico começou a sumir da cidade na década seguinte, mas o exemplar sobreviveu e tornou-se xodó local. Há alguns anos, quando as recentes peças de vidro começaram a ser instaladas nas ruas, moradores chegaram a temer pela derrubada do “vovô dos pontos”. A prefeitura reconheceu sua relevância histórica e o restaurou.

PALÁCIO DA LEI

1º Distrito Policial, Rua da Glória,  Liberdade
1º Distrito Policial, na Rua da Glória, na Liberdade (Foto: Douglas Nascimento)

Nenhum outro departamento da Secretaria de Segurança Pública está instalado em imóvel tão charmoso quanto o do 1º Distrito Policial, na Rua da Glória, na Liberdade. Construído no fim do século XIX, o palacete é um dos poucos remanescentes no bairro de um período em que a região começava a se remodelar depois de ter sido conhecida como cemitério de escravos e local de execução de criminosos condenados à forca. Um pouco dessa história, inclusive, continua presente por ali. Uma lenda recorrente entre os moradores mais antigosconta que os escuros e sinistros porões da construção são frequentemente tomados por gritos e barulhos de correntes de escravos aprisionados ou mortos por ali.

CAPELA JESUÍTA

Capela de São Miguel Arcanjo
A construção, em imagem dos anos 30: fundada em 1560 (Foto: Acervo Capela de São Miguel Arcanjo)

Fundada em 1560 pelo padre José de Anchieta em São Miguel Paulista, na Zona Leste, a Capela de São Miguel Arcanjo foi erguida com o objetivo de evangelizar os índios guaianazesda região. Em 1622, a construção original seria substituída por uma nova, em estilo barroco, que continua em pé até hoje. Passou por reformas em 1691 e em meados do século XVIII, além de processos de restauração, um em 1939 e o outro mais recente, concluído em 2011. Desde então, mantém-se aberta para visitação aos sábados, das 10h às 12h e das 13h às 16h. Marco da colonização e símbolo da influência dos jesuítas, sua importância histórica para o Brasil é tanta que acabou sendo um dos primeiros imóveis tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1938.

SORVETE ANTIGO

A cidade de São Paulo foi tomada nos últimos anos pela inauguração de várias sorveterias com sabores e propostas diferentes. Todos esses estabelecimentos devem tributo à pioneiraAlaska. Inaugurada em 1910, na Rua Doutor Rafael de Barros, no Paraíso, ela é conhecida pelas porções generosas e clássicos como o sundae, a vaca preta (sorvete de chocolate com Coca-Cola), o ice cream soda (sorvete de creme com refrigerante de limão), a cassata (bolo de sorvete de 1,5 quilo com chantili e frutas em calda) e o marshmallow. Nenhum produto, no entanto, faz mais sucesso que a banana split, famosa por servir com folga duas pessoas por 42 reais. A casa está há mais de quarenta anos sob a mesma administração e mantém o visual das tradicionais sorveterias do passado.

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NEGÓCIO CENTENÁRIO

Quitanda do Seu Porfírio
Porfírio da Massa Valente, dono da Quitanda do Seu Porfírio (Foto: Douglas Nascimento)

Ninguém arrisca dizer a data exata de inauguração da quitanda localizada na Alameda Glete, 226, nos Campos Elíseos. Sabe-se apenas que funciona ininterruptamente desde a última década do século XIX. Em 1954, o imigrante português Porfírio da Massa Valente comprou o negócio logo ao desembarcar no Brasil. Naquele mesmo ano, casou-se com Maria de Lourdes, com quem divide as funções no balcão. Hoje com 88 anos, dos quais 62 à frente da Quitanda do Seu Porfírio, ele viu inúmeros políticos ocupar o Palácio dos Campos Elíseos, ex-sede do governo estadual, a poucos metros de seu negócio.

Também acompanhou a degradação da região, a partir dos anos 60, com a instalação de uma rodoviária diante da Estação Júlio Prestes, e mais recentemente a transformação do pedaço na famigerada Cracolândia. “São doentes que precisam de compreensão e tratamento”, diz, sobre os viciados em drogas, vários deles clientes de seu mercado, que oferece cigarro, cachaça, vegetais, doces e salgados.

Fonte: VEJA SÃO PAULO