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Iron Maiden reúne gerações de fãs em show no Anhembi

Conheça histórias de pais e filhos que fazem tudo (e mais um pouco) pela banda inglesa, que volta ao Brasil em apresentação na sexta (20)

Por: Tiago Faria - Atualizado em

Em um show da banda de heavy metal Iron Maiden, algumas tradições se mostram duradouras. O uniforme dos fãs não sofre alterações – o preto segue um clássico – e os gritos de guerra podem lembrar os de torcidas de futebol. Uma característica não tão óbvia em espetáculos do gênero, no entanto, pode chamar atenção: as apresentações do grupo inglês viraram ponto de encontro para diferentes gerações de metaleiros. Em resumo: são programas “família”.

Na próxima sexta (20), a reunião de pais e filhos (e irmãos, tios) ocorrerá na Arena Anhembi, onde os veteranos encenam a Maiden England Tour, que recria o espetáculo Seventh Son Tour, de 1988, nunca apresentado no Brasil. As expectativas, portanto, são altas entre quem faz loucuras por uma banda que segue popular mesmo sem tocar nas rádios ou “bombar” na internet. “É como uma seita”, explica o músico Lennon Biscasse, 40 anos.

A admiração por astros do metal como Steve Harris e Bruce Dickinson é transmitida ainda na infância. Lennon foi influenciado pelo pai, um fã de rock. Já o engenheiro e músico João Bustamante Jr , 40 anos, ensina o filho Pedro, de apenas 4 anos, a balbuciar trechos de músicas como Fear of the Dark. “Assim como eu aprendi a gostar do Iron na escola, a geração antiga está mostrando a banda aos filhos. Quando as crianças veem o Eddie (a criatura monstruosa que virou mascote da banda), os caras correndo, as explosões, elas ficam loucas e adoram”, resume.

A seguir, veja histórias de fãs de várias idades que, em comum, têm o amor incondicional pelo Iron Maiden. 

Lennon Biscasse e Steve Harris, do Iron Maiden
Lennon Biscasse e Steve Harris, do Iron Maiden (Foto: Arquivo pessoal)

“Quando ouvi pela primeira vez, o disco me hipnotizou”

O rock está na certidão de nascimento do músico Lennon Biscasse, 40 anos. Mas, ainda que o pai tenha pensado nos Beatles, o filho preferiu uma opção um pouco mais pesada. “Quando ouvi Powerslave pela primeira vez, o disco me hipnotizou”, conta. O irmão Lely, dois anos mais novo, ouvia os álbuns do Iron Maiden e, por tabela, Lennon virou fã. Era pequeno quando o grupo tocou no Rock in Rio, mas no início dos anos 90 resolveu formar a The Best Iron Maiden Tribute, em que toca baixo. Segundo ele, trata-se da “banda com performance mais idêntica ao Iron” no Brasil.

Em 2009, no Hotel Transamérica, Lennon conheceu seu maior ídolo: o baixista Steve Harris. “Ele recebeu a gente de braços abertos, elogiou a banda, fizemos fotos. Depois que o conheci, finalmente fiz minha tatuagem em homenagem ao Iron”, conta. Ganhou, em retribuição pelos “serviços prestados” à banda, um presente que guarda a sete chaves: uma munhequeira personalizada. “Foi uma forma de agradecimento por eu fazer cover dele aqui no Brasil há mais de vinte anos”, explica. “O que me impressionou nele foi a humildade. Ele é o cara.” 

João Bustamante Jr e Christina: o filho Pedro já canta trechos das músicas
João Bustamante Jr e Christina: o filho Pedro já canta trechos das músicas (Foto: Fernando Moraes)

 “Quero levar meu filho para tirar uma foto com eles”

Nos tempos de colégio, aos 12 anos de idade, o adolescente João Bustamante Jr. foi mais um que não resistiu ao apelo espetacular do Iron Maiden. “Quando vi alguns vídeos na TV, a imagem do Eddie, aquelas luzes todas... Fiquei encantado”, lembra o engenheiro e músico, hoje com 40 anos. Agora, ele se entusiasma ao notar que o filho Pedro, de apenas 4 anos, também parece ter captado a “magia” de seu grupo preferido. “Nos primeiros seis meses, ele já cantava o refrão de Fear of the Dark. Antes até de aprender a falar. Ficava olhando, acompanhando. Tem todos os bonequinhos do Iron e sabe o nome do baixista”, conta.

Pode-se dizer que João vive em uma “família Maiden”. Além de Pedro, a sua mulher, Christina Ferreira, 29 anos, também é fã. “Quando nos conhecemos, ela já gostava da banda. Era pré-requisito para o namoro”, brinca o músico, que havia se desentendido com uma ex-namorada por causa da decisão de comprar um DVD do Iron.

Pela banda, ele fez ao menos uma loucura. Em 1992, no dia seguinte ao show do Parque Antártica, entrou escondido no hotel Hilton e fez o desjejum na companhia dos ídolos. “Fui pegar meu suquinho e atrás de mim estava o Steve Harris. O cara que eu mais admirava estava na fila tomando suco”, narra. Do show, o primeiro dos cinco a que assistiria, ele lembra pouco. Mas o café foi inesquecível. 

Piotr Wifniewski e Bruce Dickinson, do Iron Maiden
Piotr Wisniewski e Bruce Dickinson, do Iron Maiden (Foto: Arquivo pessoal )

“Cada fase da minha vida está ligada a uma fase do Iron”

O dia a dia de Piotr Wisnievski divide-se entre um consultório odontológico e os palcos. Durante a semana, exerce a profissão de dentista. Nos fins de semana, toca guitarra na banda Children of the Beast, que fundou há 20 anos e atualmente faz uma média de setenta shows por ano. O grupo cover nasceu de um desejo de fã: no fim dos anos 80, após a passagem histórica pelo Rock in Rio, poucos acreditavam que o Iron Maiden voltaria a se apresentar no Brasil. Na época, turnês internacionais eram consideradas um luxo para o roqueiro brasileiro.

Quando o heavy metal virou moda nas rádios daqui, nos anos 80, Piotr descobriu o Iron. Só viu o primeiro show da banda em 1992, no Parque Antártica. “Fiz até uma camiseta exclusiva”, conta. “Minha vida gira em torno da banda. É uma vida temática”, resume. Com o tempo, se tornou tão próximo dos ídolos que os próprios integrantes do Iron já conheceram o grupo, assistiram ao DVD e aos shows. “Quando eles vêm ao Brasil, vamos ao hotel, tomamos uma cervejinha com eles, trocamos uma ideia.”

Desde 1992, Piotr viu quinze shows do grupo. “No palco, o que impressiona é a energia, a honestidade, aquela coisa de olhar no olho da plateia. Você vê que eles estão curtindo o que estão fazendo”, avalia. Uma herança musical que vem sendo transmitida aos poucos, “sem pressão”, para a filha de sete anos de idade. “Ela ouve por osmose, por enquanto.” 

Eric Claros e Bruce Dickinson, do Iron Maiden
Eric Claros e Bruce Dickinson, do Iron Maiden (Foto: Arquivo pessoal)

“Comprei a bateria que o Nicko McBrain usou no Brasil”

Quando a MTV ainda preenchia a programação com clipes de hard rock e, de vez em quando, heavy metal, Eric Claros, 31 anos, acompanhava cada novidade do Iron Maiden. Era 1991. “Parei de cortar o cabelo, comecei a tocar bateria, tudo por influência do Iron”, lembra. O entusiasmo aumentou quando, aos 24 anos, ele decidiu morar por um tempo na Inglaterra e acabou acompanhando a banda por um mês. “Viajei para a Suécia, Noruega, Finlândia. Eles começaram uma turnê de verão e eu fui atrás.”

Ele calcula ter visto 22 shows da banda. Em junho deste ano, por exemplo, ele viu a apresentação no Monsters of Rock da Inglaterra. Em 1996, quando o Iron veio ao Brasil, ele comprou a bateria que Nicko McBrain usou. Resultado: foi aceito na banda cover Children of the Beast, onde toca até hoje. “No primeiro ensaio, ficamos três horas tocando músicas do Iron. Eu conhecia todas”, diz. Já encontrou integrantes da banda “umas vinte vezes”. “Na verdade, os caras estão um pouco cansados do assédio dos fãs. Já estão mais velhos. É uma parte desgastante de ser um ídolo.”

Iron Maiden - Bruce Dickinson
Bruce Dickinson lidera os metaleiros do Iron Maiden (Foto: Divulgação )

“Na música, o Iron é minha influência para tudo”

O estudante de história Marcus Oliveira, 18 anos, ainda não havia nascido quando o Iron Maiden se apresentou pela primeira vez em São Paulo, em 1992, no Parque Antártica. Quando a banda passou a visitar o país com mais frequência, há dez anos, enfrentou outro problema: era jovem demais para ir aos shows. Mesmo à distância, ele seguiu o gosto musical dos pais e se tornou um fã dedicado dos ingleses. “Cresci ouvindo a banda. Desde os cinco anos de idade”, lembra.

Em vez de optar por grupos de metal de sua geração, preferiu o Iron. “Rolou uma química”, diz. “O Iron tem um impacto por causa das letras, das capas dos discos”, explica. O paulistano resolveu aprender a tocar baixo, aliás, por influência do grupo. Nesta semana, prepara-se para assistir ao primeiro show dos ídolos. “A expectativa é imensa. É minha banda preferida, a fonte de tudo. Hoje, com a internet, você não precisa esperar um tempão para ouvir as músicas, os discos. Mas continuo comprando CDs e prestando atenção às letras da banda.”

Fonte: VEJA SÃO PAULO