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Ynaê Lopes dos Santos: “Celebrar o 20 de novembro é fundamental”

Especialista em história da escravidão no Brasil, Ynaê Lopes fala sobre racismo na instituição, critica o Estado e aponta avanços no combate ao preconceito

Por Melina Dalboni
14 nov 2025, 08h00
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"O Brasil não é um país pacífico, basta ler os jornais", diz Ynaê  (Camilla Maia/Divulgação)
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Paulistana com bacharelado, mestrado e doutorado pela USP, Ynaê Lopes dos Santos é professora de história da América na Universidade Federal Fluminense. Uma das maiores referências em história da escravidão no Brasil, ela foi consultora de projetos audiovisuais como a série Independências (TV Cultura), dirigida por Luiz Fernando Carvalho, e o musical Viva o Povo Brasileiro, baseado no livro homônimo de João Ubaldo Ribeiro. Autora do livro Racismo Brasileiro: Uma História da Formação do País (Todavia, 2022), entre outros, ela acaba de lançar Irmãs do Atlântico (Civilização Brasileira, 2025), em que aproxima Rio de Janeiro e Havana a partir do conceito de cidade escravista.

Filha de um líder do movimento negro, Luiz Carlos dos Santos, mestre em sociologia pela USP, e de uma coordenadora pedagógica e doutora em antropologia pela mesma universidade, Ana Lucia Lopes, Ynaê escancara o racismo na USP nesta entrevista, a partir de um caso recente — em outubro, foi anulado o concurso para professor de literaturas africanas e da diáspora depois que a doutora Erica Bispo, mulher negra, foi aprovada, o que foi questionado por parte dos candidatos. Na conversa a seguir, Ynaê destaca ainda a importância de celebrar os trinta anos do Dia da Consciência Negra.

Qual a importância da celebração dos trinta anos do Dia da Consciência Negra?

Durante muito tempo, entendeu-se que a questão racial no Brasil se circunscrevia à escravidão. Então, acabada a escravidão, entendia-se que não havia racismo no Brasil. A data usada para comemorar o fim da escravidão e, em tese, do racismo era o 13 de Maio, em torno da princesa Isabel. Porém, o abolicionismo foi um movimento social nacional. No final do século XIX, o país estava próximo de uma convulsão social, e a assinatura da Lei Áurea foi uma resposta para contê-la. Então, celebrar o 20 de Novembro novembro é fundamental porque conta duas histórias: a de Zumbi dos Palmares e a do movimento negro que decide disputar o 13 de Maio, trazendo o protagonismo negro. Embora tenha sido criada há trinta anos, a data só se tornou feriado nacional em 2024.

Quais os três principais avanços no combate ao racismo no Brasil?

O reconhecimento do racismo como estrutura de poder no Brasil, porque o país era considerado um paraíso racial; outro avanço são as cotas raciais nas universidades públicas; e temos ainda a ampliação de repertório, com mais figuras públicas, pensadores, ídolos e personagens negros.

Qual sua opinião sobre o cancelamento da participação da princesa belga Marie-Esméralda Léopoldine em um debate da Bienal de São Paulo por oposição do diretor artístico desta edição, o camaronês Bonaventure Soh Bejeng Ndikung?

Fez todo o sentido. A riqueza que a Bélgica recebeu por ter colonizado alguns países africanos não mudou depois de um eventual pedido de desculpas. Uma coisa é a reparação simbólica, outra é a reparação material efetiva. Por mais que seja de outra geração, ela é princesa por conta do Leopoldo II, um dos maiores sanguinários de todos os tempos. Se tem um nome para entender como e por que a África foi colonizada no fim do século XIX é Leopoldo II.

Como era a questão racial na USP, do ponto de vista da aluna?

O número de alunos negros na graduação (nos anos 2000) era pequeno. Quando entro no mestrado, esse número cai significativamente, e quando entro no doutorado eram pouquíssimos. Tive um único professor negro durante toda a minha formação no departamento de História. Experimentei a estrutura racista da USP, uma estrutura que agora está sofrendo transformações.

“Tive um único professor negro em toda a minha formação na USP. Há urgência de ações afirmativas para mudar o corpo docente, não só o corpo discente”

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O que representa o silêncio em torno da anulação do concurso público para a vaga de professor de literaturas africanas e da diáspora da USP, que a doutora Erica Bispo, uma mulher negra, havia conquistado?

A USP é uma instituição imersa e também promotora da estrutura de poder no Brasil, e, portanto, uma estrutura também racista. O caso Erica Bispo é um exemplo do pacto da branquitude. Ela é uma mulher negra, uma doutora, que foi aprovada em primeiro lugar por uma banca de cinco pessoas do departamento de Letras da universidade. Parte dos concorrentes dela, todos brancos, questionou, pediu a anulação e conseguiu.

O que poderia mudar este quadro na universidade?

A entrada de professores negros é urgente na USP. Há uma urgência de ações afirmativas para mudar também o corpo docente, não só o corpo discente.

Qual a sua visão sobre a matança ocorrida em outubro, comandada pelo governo do estado do Rio de Janeiro, na chamada megaoperação contra o tráfico?

Essa chacina tem uma exacerbação do que é constitutivo do Brasil. Não é uma novidade. O Brasil foi marcado por chacinas, geralmente perpetradas contra a população pobre e negra. Do ponto de vista político, a extrema direita, cada vez mais numa lógica fascista, parte do pressuposto de que há sub-humanização desses sujeitos. Os jovens negros pobres são tratados como uma subcategoria de ser humano. É a prova de que o racismo científico não acabou.

Vidas negras e pobres ainda valem menos para o Estado?

A gente vive as heranças deletérias de uma escravidão que ainda é muito mal compreendida. Desde a nossa independência, em 1822, o Estado brasileiro é conivente e também produtor de práticas e lógicas racistas que mantêm os poderes nas mãos das mesmas pessoas, ao mesmo tempo que naturaliza a violência e o pouco acesso a direitos básicos para a população racializada de um país que, há 137 anos, não vive mais sob o jugo da escravidão.

A arte é um caminho importante para romper o silêncio?

A gente acabou de ter a primeira mulher negra empossada na Academia Brasileira de Letras. A obra da Ana Maria Gonçalves Um Defeito de Cor é um exemplo de como a arte é capaz de restituir a humanidade, justamente o que o racismo tira. Agora quero ver a Conceição Evaristo eleita também.

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Qual a maior mentira que nos contaram nos bancos escolares?

Que o Brasil é um país pacífico. Para desmentir isso, basta ler o jornal todos os dias.

 

Publicado em VEJA São Paulo de 14 de novembro de 2025, edição nº2970.

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