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“Nossa surdez não atrapalhou na criação dos nossos filhos”

Andréa e Juliano Savietto nasceram surdos e são amigos de infância. Eles se afastaram por anos, se reencontraram adultos e se casaram

Por Andréa Savietto, 48 anos, em depoimento a Fernanda Campos Almeida Atualizado em 3 dez 2020, 23h48 - Publicado em 4 dez 2020, 06h00

Minha mãe contraiu rubéola no primeiro trimestre de gravidez e eu nasci surda. Meu marido, Juliano, 46, também nasceu com deficiência auditiva grave, de origem genética. Eu o conheci aos 4 anos em uma festa junina, convidada pelo tio dele, que na época namorava minha irmã. Nossas famílias se tornaram próximas, e minha mãe me levou na mesma instituição que Juliano tratava a fala, a Ateal (Associação Terapêutica de Estimulação Auditiva e Linguagem). Com fonoaudiólogas, aprendi o significado das palavras e a falar por volta dos 9 anos. Minha comunicação é feita principalmente por leitura labial — mais tarde, Ju me ensinaria a linguagem de sinais —, mas na Ateal eu e ele aprendemos a nos comunicar melhor e nossa amizade ficou mais forte.

Com o trabalho da associação, conseguimos frequentar escolas convencionais, mas sem acessibilidade era complicado fazer amigos e entender o conteúdo das aulas. Sendo os únicos surdos em salas separadas, faltava entendimento com os colegas ouvintes. Era recorrente precisar da escrita para me comunicar. Às vezes também não entendia o que o professor falava, as frases simplesmente não faziam sentido na minha cabeça.

Na adolescência tive aquelas brigas de criança com o Ju. Eu rio só de lembrar que ele dizia que não gostava de mim, e eu retrucava que ele era chato. Acabamos não nos encontrando por alguns anos, mas ainda conversávamos por cartas. Até que um dia, por acaso, encontrei-o em uma agência bancária. Quando olhei para ele, meus olhos brilharam e me vi apaixonada. Começamos a conversar e, mesmo tendo outros afazeres, os dois ficaram presos ali naquele momento.

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Primeiro ano de namoro, em 1991
Primeiro ano de namoro, em 1991 Arquivo Pessoal/Divulgação

Voltamos a nos aproximar e combinamos um encontro em um shopping. Para minha surpresa, ele chegou carregando uma cartinha e, dentro dela, um pedido de namoro, seguido do nosso primeiro beijo. Foram sete anos maravilhosos namorando. Decidimos nos casar na igreja, e meu primeiro filho, Mateus, veio um ano depois. Minha família ficou preocupada porque eles pensavam ‘e agora, como vão cuidar de um bebê sendo surdos?’. Como nossa surdez é severa, só conseguimos sentir vibrações de barulhos altos. Eu estava tranquila porque, com Juliano ao meu lado, tinha confiança de que cuidaríamos bem dele. Tivemos de nos adaptar com a tecnologia disponível na época. Compramos um aparelho importado chamado Sonic que acendia luzes toda vez que Mateus chorava. Três anos depois veio nosso segundo filho, Lucas.

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Quando Mateus e Lucas aprenderam a falar (instruídos por outros familiares), perceberam logo cedo que não ouvíamos, então pararam de nos chamar pelo nosso nome e nos tocavam ou viravam nossa cabeça com as mãos para ter nossa atenção.

Andréa e Juliano no casamento, em 1998
Andréa e Juliano no casamento, em 1998 Arquivo Pessoal/Divulgação

Desde pequenos eles atendem o telefone, agendam consultas médicas e nos acompanham no hospital, já que a comunicação pode ser um obstáculo entre o profissional e o surdo. O grande desafio, no entanto, é com a sociedade. Quem tem deficiência auditiva precisa enfrentar, além da falta de inclusão, o preconceito das pessoas. Algumas não sabem como se comportar e se comunicar com os surdos. Brincam para comprovar se a pessoa realmente não escuta ou não articulam muito bem as palavras, assim acabamos não conseguindo fazer a leitura labial. Acredito que seja falta de empatia ou de paciência.”

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Publicado em VEJA São Paulo de 09 de dezembro de 2020, edição nº 2716.

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