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“Não sou unanimidade nem quero ser”, afirma Bárbara Paz

Atriz fala da carreira também como diretora de cinema, comenta a relação com o cineasta Hector Babenco (1946-2016) e relata decepção com médium João de Deus

Por Tatiane de Assis Atualizado em 6 ago 2021, 00h47 - Publicado em 6 ago 2021, 06h00

A cadência da fala, rápida, e o ritmo de vida, intenso, de Bárbara Paz se complementam. Aos 46 anos, a atriz pavimenta, sem medir esforços, outra de suas verves, a cineasta. Depois de ganhar um prêmio no Festival de Veneza em 2019 com o filme em homenagem a seu marido, o também diretor de cinema Hector Babenco, morto em 2016 e celebrado por longas como Pixote — A Lei do Mais Fraco (1981), ela volta à competição europeia em 2021 com o curta-metragem Ato, que descreve como um grito gravado em meio à pandemia de Covid-19.

Quais questões lhe interessam como diretora de cinema?

Acima de tudo, o ser humano. Sou fã do (cineasta) Eduardo Coutinho. A princípio, sempre quis documentar o outro, as histórias. Tem outra vertente quando dirijo, tem meu lado visual. Consigo filtrar isso na direção, a imagem, a fotografia, o som, a vida. O Ato (curta-metragem selecionado pelo Festival de Veneza em 2021) é um grito, pega meu lado plástico, da videoarte, do poema visual. Mas não deixa de ser documental, porque foi gravado durante a pandemia. Um registro de quando todo mundo estava isolado, os artistas sem plateia.

Sente que há alguma resistência em falar de você como cineasta?

Não sinto, não, de forma alguma. Porque a gente mostra o nosso trabalho trabalhando. Há resistência a pessoas que não mostram a que vieram, mas comigo não. Não existe resistência quando você produz. Estou em uma transição de atriz para diretora, são dois ofícios que podem caminhar juntos, em paralelo, mas, nos últimos anos, a direção tem falado mais alto em mim.

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Como é o machismo no audiovisual?

É um problema estrutural, a sociedade foi moldada assim. A gente ainda está mudando a casca, são novos tempos. Tem aumentado o número de mulheres diretoras, pequeno ainda, mas isso não tem volta, não tem retrocesso. Estou caminhando para frente, junto com todas.

Sente desunião das mulheres no segmento?

Sinto que a gente tem de se unir cada vez mais. Quanto mais a gente se apoia, mais se admira, mais a gente caminha. Competição há, mas isso não tem a ver com gênero. São seres humanos. Muitas vezes a competição nos fortalece. Na medida certa, é bom a gente querer mais. Eu sou uma pessoa que sempre quer mais, que nunca está satisfeita.

De onde vem o sobrenome Paz?

Do meu pai. Ele era político na minha cidade, Campo Bom (RS). Quando morreu, deram o nome dele a uma rua. Eu também virei nome de uma sala audiovisual lá. Falei: “Mas, gente, ainda estou viva”. É porque, depois que me tornei uma pessoa pública, eu falava muito que lá não tinha cinema. Agora, tem um centro cultural e duas salas. Mas não sei a origem do sobrenome, é meio português, meio espanhol. Estou fazendo minha árvore genealógica, quero pegar passaporte (estrangeiro). Tem uma parte italiana e uma alemã, minha origem é alemã. Minha avó só falava em alemão. Ela morreu quando eu era muito nova.

O Babenco dizia que gostava mais do Brasil do que da Argentina, que aqui muitas vezes a realidade superava a ficção. E você, por que escolheu São Paulo?

Não fui eu que escolhi a cidade, foi ela que me escolheu. Eu não tinha muita opção e onde tinha trabalho era aqui. Não sabia se ia ser recebida bem, mas vim. Com os braços abertos, entre curvas, altos e baixos. Tudo que quis sempre tive aqui. Se você quer trabalhar, São Paulo dá trabalho, em todas as áreas. E é uma mistura, de pessoas de todos os lugares do Brasil e do mundo.

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“Todo mundo baixava a guarda para o Babenco. Eu não. A gente batia de igual para igual. O que era bom, deixava ele louco, mais criador”

Algo a assustava quando chegou aqui?

Sim, a cidade não para. Vim do interior do Rio Grande do Sul, onde não tem pressa de chegar. Tive de equalizar essa urgência que é São Paulo com a minha poesia gaúcha.

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A gente fala do Babenco como uma entidade, como um grande cineasta. O que nele a encantava?

Exatamente o que eu deixei registrado no filme (Babenco — Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, primeiro longa-metragem da atriz, premiado no Festival de Veneza e indicado por representantes brasileiros para concorrer em duas categorias no Oscar 2021). Ele era um leão que lutava para sobreviver, um homem que sonhava filmes. O cinema o manteve vivo. (O cineasta argentino, naturalizado brasileiro, lutou contra um câncer por mais de trinta anos.) Seu corpo estava envelhecido, mas sua alma era muito jovem, louca. Um beatnik. Um cara contraditório, que morreu brigando pela própria criação. Ele morreu sendo filmado.

Como era sua convivência com ele?

Também sou uma leoa, tenho muita personalidade. Não era fácil. Todo mundo baixava a guarda para o Babenco. Eu não. A gente batia de igual para igual. O que era bom, deixava ele louco, mais criador. A gente tem de enfrentar, tem de estar sempre pronta para a guerra.

Como lida com críticas que tiram de você o merecimento pelo filme e o creditam ao assunto tratado?

Eu não paro para pensar nesse tipo de comentário. A vida inteira eu fui criticada. Eu vivo minha vida independentemente do que é falado. O meu trabalho é a melhor resposta. Não sou uma unanimidade nem quero ser. E quem fica na internet, nessa maldade, não tem muito o que fazer.

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Após a morte de Babenco, você foi à casa Dom Inácio de Loyola, mantida por João de Deus. Como foi saber dos crimes que ele cometeu?

Foi muito triste, porque era um lugar de meditação e descanso. Acredito muito que a corrente positiva que existia lá era de verdade, assim como as maldades que aconteceram. É muito chocante ver que tantos gurus estão ligados a crimes de assédio sexual. Em todas as culturas e países isso acontece. É inexplicável como um ser humano pode chegar a esse lugar. Te faz perder a fé no divino, apesar de que eu não a perco nunca.

Você foi a primeira ganhadora de um reality show aqui, Casa dos Artistas. Acompanha programas do gênero?

Estava sempre trabalhando, então não conseguia. Vi parte das últimas edições do Big Brother. Torci para o Babu e para a Juliette.

Como vê a supercelebrização dos participantes?

Na minha época, as redes sociais estavam começando, não tinham essa repercussão. É diferente também estar no SBT, que não tem tanta publicidade quanto a Rede Globo. Eles fazem merchan, hoje eu ganharia muito mais dinheiro.

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Publicado em VEJA São Paulo de 11 de agosto de 2021, edição nº 2750

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