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Marcelo Médici sobre comédia: “Dizem ‘teatro comercial’, como se todos não o fossem”

Vinte anos após a estreia, ator volta aos palcos com o sucesso 'Cada Um Com Seus Pobrema', peça que ainda provoca debates sobre o humor popular

Por Júlia Rodrigues
23 fev 2024, 06h00

Marcelo Médici, 52, perdeu as contas de quantas pessoas assistiram à peça Cada Um Com Seus Pobrema, comédia que estreou em 2004 em São Paulo e, desde então, encheu teatros em várias cidades do país. Sete anos após a última temporada, o espetáculo retorna à capital no dia 5 de março, no Teatro Opus Frei Caneca, para comemorar duas décadas da estreia.

A procura tem sido tão alta que Médici já abriu cinco sessões extras. Diz estar ansioso, até voltou para a academia a fim de ficar em forma para o desafio. Afinal, sozinho no palco, ele interpreta oito personagens, entre eles o motoboy corintiano Sanderson — pelo qual ganhou o Prêmio Multishow de Humor, em 1998, o que lhe abriu as portas para a comédia —, o último mico-leão-dourado do planeta e a Tia Penha, uma apresentadora de programa infantil sem filtros.

A peça estreou em 2004. Qual o segredo para essa longevidade?

O espetáculo tem um significado muito especial na minha vida. Nunca imaginei que fosse dar tão certo. A peça estreou em um teatro de 100 lugares, foi uma “ação entre amigos”, ninguém que participou recebeu, foi trabalho voluntário, mesmo. Eu não tinha dinheiro para nada, o cenário na época eram caixas de papelão. Não estreou e foi de cara um fenômeno. Depois de um ano em cartaz, eu fiz minha primeira novela da Globo, e levei o espetáculo de novo para o Rio. Um dia, eu olho e tem uma fila que ia até o final da rua. É inexplicável, essas coisas que acontecem no teatro. Claro que eu estava fazendo novela, eu era um “lançamento,” pois vinha do segmento de programas humorísticos, então, isso tudo conta.

Você teve de mudar algo no texto ao longo dos anos?

Sim, toda vez que monto a peça, eu a atualizo. Eu assisto a vídeos dela e vou analisando, cortando. Hoje em dia, muitas pessoas dizem: ‘Essa piada não dá mais’. Para mim, nunca deu. Sempre me preocupei com isso. Me perguntam se sou a favor do politicamente correto. Sou, porque precisamos evoluir. Quando a peça estreou, eu usava referências da minha infância, que não cabem mais. Um exemplo é o personagem Johnson, irmão do protagonista. Ele fala muitas grosserias, então eu comecei a perguntar a opinião de amigas mulheres e me direcionar a partir disso. Nesse quesito, concordo com a Bibi Ferreira. Ela disse uma vez que, no teatro, você precisa respeitar o público, pois ele compra um produto sem ver. Outra mudança no Johnson é que, se antes ele era um modelo que virou ator, agora ele é um ex-participante de reality show.

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A peça é o seu maior sucesso e você sempre disse que a apresentaria quantas vezes quisesse e precisasse. Nunca teve medo de ficar marcado por um trabalho ou um personagem só?

Tive. Quando eu fazia A Praça É Nossa, fazia outra versão do Sanderson, porque já tinha feito ele duas vezes no teatro. Você fica com um pouquinho de medo quando as pessoas começam a te chamar pelo nome do personagem na rua. Mas foi com o Sanderson que ganhei o Prêmio Multishow de Humor, em 1998, algo que nunca imaginei ganhar, porque era um prêmio de comediantes e, até então, eu nunca tinha feito comédia, só uma coisinha ou outra. Eu nunca fui humorista, não por achar que é algo inferior, pelo contrário, acho que o humorista é o gênio, é o Ronald Golias, a Dercy Gonçalves, mas por achar que é outra categoria. Sempre me considerei ator. E, claro, também como ator não queria ficar preso a um personagem. Para ser feliz, o ator precisa experimentar.

Você sempre teve versatilidade: atuou em comédias populares, em musicais como Wicked (2023) e em espetáculos mais complexos, como O Mistério de Irma Vap (2008), pelo qual foi indicado ao Shell de melhor ator. Como equilibrar papéis tão distintos?

Ano que vem, vou fazer um espetáculo chamado Hangmen, que foi escrito pelo Martin McDonagh, diretor do filme Os Banshees de Inisherin (2022), que concorreu ao Oscar no ano passado. Fiz outra peça dele há alguns anos. Também recebi agora o convite para dublar o Mágico de Oz no filme de Wicked. Quando se lembram de nós, é incrível, eu amo ser chamado para coisas diferentes. Às vezes temos de fazê-las, também, para sair um pouco desse carimbo que colocam na gente. Não tenho queixas nesse sentido, sou muito feliz. A comédia veio como uma surpresa para mim, é maravilhoso você ser reconhecido como comediante. Nem tenho problema em ser popular.

Já sofreu preconceito no seu meio por ter apostado na comédia?

Já. Já ouvi coisas agressivas. De forma geral, existe uma parte do meio, não todos, principalmente diretores de audiovisual, que acham que comediantes não são capazes de fazer personagens sérios. Tem autor de novela que acha que eu só posso fazer núcleo de comédia e, além disso, preciso de alguma coisa como apoio para o personagem, uma característica cômica. Já ouvi que só loto as apresentações porque é comédia, porque é “teatro comercial”, como se qualquer teatro não fosse comercial. Ninguém faz peça de graça. Não tenho do que reclamar sobre prêmios, ganhei muitos, mas tenho que falar o que acontece de forma geral com comediantes. Eu já soube de jurados que se recusaram a assistir a meu espetáculo porque era comédia. Não é uma coisa brasileira, só. Essa resistência é histórica, vem desde o bobo da corte, na Idade Média.

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É comum que atores escalados para novelas da Globo se mudem para o Rio. Há também um grande mercado de comédia por lá. Por que decidiu permanecer em São Paulo?

Tive um apartamento no Rio enquanto fui contratado (pela Globo). Chegou uma hora que não fazia mais sentido, porque a empresa também fornece hospedagem, passagens aéreas… Foi uma questão de praticidade e economia. Nunca fechei minha casa em São Paulo, porque sou absolutamente dependente dessa cidade. Acho que é uma coisa atávica, por ter nascido aqui. Gosto de andar por São Paulo, da bagunça de São Paulo. Eu acho São Paulo bonita, quando falam que São Paulo é feia, fico bravo. Temos muitas opções… E se você não quiser ver uma pessoa nunca mais na vida, você não precisa, porque São Paulo é grande (risos). No Rio, é impossível você não encontrar com as pessoas, você encontra mesmo que não queira. Quando fico muito tempo fora, a primeira coisa que eu faço quando volto a São Paulo é passear de carro em volta do Parque Ibirapuera e na Avenida Paulista. Eu sou esse nível de paulistano (risos).

Publicado em VEJA São Paulo de 23 de fevereiro de 2024, edição nº 2881

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