Letras negras

Conheça a história e o projeto da escritora Conceição Evaristo, vencedora na categoria Cultura, no Prêmio CLAUDIA 2017

O Prêmio CLAUDIA não é exatamente um evento artístico. Também não fala de sonhos sem lastro, mas de projetos realizados. Sua essência é a boa reportagem, que, ao longo dos últimos 22 anos, tem descoberto e promovido brasileiras que batalham para construir ou consertar o país. Na grande festa de premiação, porém, o jornalismo ganha tons de arte e contagia. Na noite de 2 de outubro, 1,1 mil pessoas estiveram na Sala São Paulo, na capital paulista, para conhecer o perfil e a obra de 24 finalistas e acompanhar de perto o anúncio dos nomes vencedores.

A seguir, conheça a história da escritora Conceição Evaristo, 70 anos, premiada na categoria Cultura.

O que ela faz: É autora de seis livros, todos sobre a realidade dos descendentes de escravos africanos, moradores de favelas brasileiras

Conceição costuma dizer que não nasceu em uma família de letrados, mas cresceu rodeada por palavras. Na favela Pindura Saia, em Belo Horizonte, seus parentes se reuniam para contar histórias ao final do dia. Os temas eram variados – iam desde clássicos do folclore brasileiro até causos vividos por seus antepassados, ainda no tempo da escravidão. Além disso, sua mãe, Joana, confeccionava bonecas de pano. “Elas já nasciam com enredo”, afirma a autora, que se mudou para o Rio de Janeiro na década de 1970, depois que a área onde morava foi desapropriada pela prefeitura. “A pobreza material em que vivíamos foi compensada por esses momentos de aconchego familiar.”

As rodas ficaram ainda mais acaloradas quando a família teve acesso ao livro Quarto de Despejo, em que Carolina Maria de Jesus narra o cotidiano em uma favela paulista. A obra influenciou fortemente Conceição. “Ali, líamos a nossa história. Era como se fôssemos aqueles personagens.” Escrever, portanto, foi um ato natural para a menina, que nascera e crescera naquele ambiente. Já morando na capital fluminense, onde passou a atuar como professora, Conceição escreveu seu primeiro romance, Becos da Memória, em 1988.

O livro só foi publicado quase duas décadas mais tarde, em 2006, três anos depois de Ponciá Vicêncio. Além deles, a mineira já publicou mais cinco obras, incluindo contos e poesia – Olhos D’Água ficou em terceiro lugar no Prêmio Jabuti 2015. A vida na favela e as lembranças dos negros descendentes de africanos marcam a sua escrita, ou a sua “escrevivência”, como ela costuma chamar essa mistura de memória com ficção.

No Rio, Conceição começou a dar aulas, casou-se e deu à luz Ainá, que nasceu com necessidades especiais. Quando a menina tinha apenas 9 anos, o pai morreu. A escritora conseguiu concluir a graduação em letras somente 14 anos depois de iniciar o curso. Hoje, é mestre em literatura brasileira pela PUC-RJ e doutora em literatura comparada pela Universidade Federal Fluminense. Há quase uma década, seus livros passaram a ser adotados em provas de vestibular e, assim, ganharam projeção nacional e internacional. Entre maio e junho deste ano, ficou em cartaz no Itaú Cultural, em São Paulo, a mostra Ocupação Conceição Evaristo, sobre a obra da autora, que, no mês passado, integrou a programação da Feira Literária Internacional de Paraty.

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